Obstáculo epistemológico: o que trava o conhecimento científico?

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Para Gaston Bachelard, o maior entrave da ciência mora no próprio pensamento: certezas do senso comum que precisam ser desmontadas antes de qualquer descoberta.


No século XVIII, estudiosos tentavam explicar fenômenos do ar e da eletricidade comparando-os a uma esponja. O ar “absorvia” a água, o corpo “se enchia” de eletricidade.

A imagem era clara, fácil de lembrar e parecia explicar tudo. Justamente por isso, encerrava a investigação antes da hora.

O filósofo francês Gaston Bachelard usou exemplos como esse para mostrar algo que vale até hoje: muitas vezes, o que impede alguém de aprender é aquilo que essa pessoa já acha que sabe.

O que é obstáculo epistemológico?

Obstáculo epistemológico é um entrave que nasce dentro do próprio ato de conhecer. Ele aparece quando uma ideia anterior, cômoda e familiar, impede a compreensão de uma ideia nova.

Bachelard apresentou o conceito em A Formação do Espírito Científico, de 1938. Para ele, a ciência começa quando se rompe com a opinião. A frase dele ficou famosa: “a opinião pensa mal”.

Repare no alcance da ideia. O obstáculo pode estar na cabeça de um cientista do século XVIII, de um estudante do ensino médio ou de qualquer pessoa diante de uma notícia.

Quem foi Gaston Bachelard?

Bachelard nasceu em 1884, em Bar-sur-Aube, no interior da França, e trabalhou anos como funcionário dos correios enquanto estudava matemática à noite.

Depois da Primeira Guerra, virou professor de física e química no liceu da cidade natal. Doutorou-se em filosofia em 1927 e, em 1940, assumiu a cátedra de história e filosofia das ciências na Sorbonne. Morreu em Paris, em 1962.

Ele escreveu também sobre imaginação poética, em livros como A Psicanálise do Fogo. Para Bachelard, ciência e poesia eram dois usos diferentes da mente, e cada um exigia ser levado a sério no próprio terreno.

Quais são os obstáculos epistemológicos?

Bachelard descreveu vários. Os mais citados são estes:

  • experiência primeira: confiar na primeira impressão dos sentidos, sem crítica;
  • conhecimento geral: generalizar cedo demais e parar de olhar os detalhes;
  • obstáculo verbal: deixar que uma palavra ou imagem, como a esponja, substitua a explicação;
  • substancialismo: tratar uma qualidade como se fosse uma coisa escondida dentro do objeto;
  • animismo: atribuir vida ou intenção a fenômenos que não têm nenhuma das duas;
  • obstáculo quantitativo: acreditar que medir com muitas casas decimais basta para entender.

Esses obstáculos são atalhos que funcionam no dia a dia e atrapalham quando o problema exige rigor. Atingem pessoas brilhantes tanto quanto qualquer outra.

O calor é um bom exemplo de substancialismo. Durante muito tempo, foi explicado como um fluido invisível, o calórico, que passaria de um corpo a outro. A explicação era intuitiva e levou décadas para ser abandonada. Nesse ponto, Bachelard vê o erro como parte do caminho, ideia desenvolvida no texto sobre por que errar faz parte da ciência.

O que é ruptura epistemológica?

Se o senso comum atrapalha, a ciência precisa romper com ele. Bachelard chamou esse movimento de ruptura epistemológica.

Ele dividiu a história da ciência em três momentos: o estado pré-científico, até o século XVIII; o estado científico, do fim do século XVIII ao início do XX; e o novo espírito científico, que começa com a relatividade, em 1905.

Cada passagem exigiu abandonar evidências que pareciam indiscutíveis. A relatividade, por exemplo, exigiu desconfiar da ideia de um tempo igual para todos. Para Bachelard, pensar cientificamente é aceitar essa revisão permanente.

A imagem de cortes nítidos teve críticos. Paul Feyerabend, por exemplo, via a história da ciência como bem mais bagunçada.


Como o obstáculo epistemológico aparece na sala de aula?

Estudantes chegam às aulas de ciências com explicações próprias, construídas na vida. Muitas são obstáculos clássicos: o calor visto como uma substância que passa de um corpo a outro, os objetos pesados caindo mais depressa, as plantas que “comem” terra.

Para quem ensina, o conceito muda a estratégia: antes de apresentar a ideia correta, é preciso trazer à tona a ideia antiga, mostrar onde ela falha e ajudar o aluno a construir outra.

Por isso o conceito conversa tanto com a formação de professores, e Bachelard é leitura frequente nas licenciaturas brasileiras.

O obstáculo também atinge quem ensina. A crença em estilos de aprendizagem, que virou senso comum na formação docente sem apoio em evidências, é um exemplo recente.

O conceito segue vivo na pesquisa brasileira. Um levantamento publicado na revista ACTIO encontrou 65 teses e dissertações, entre 2014 e 2018, que usam Bachelard no ensino de ciências e matemática. Outro estudo, na Revista Espaço do Currículo, aplicou o conceito às fake news da pandemia e as tratou como um caso de experiência primeira.


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