A Ciência Tem Todas as Respostas? O que diz Sabine Hossenfelder

Atualizado em

O passado ainda existe? O universo pensa? Somos livres? A física Sabine Hossenfelder separa, pergunta por pergunta, o que a física já responde, o que ela descarta e o que continua aberto.


Autora: Sabine Hossenfelder – Publicação: 2022

O título em inglês é Existential Physics, física existencial. A tradução brasileira, da Contexto, de 2023, escolheu uma pergunta, e a pergunta resume bem o espírito do livro. Hossenfelder pega as dúvidas que costumam ir parar na mesa de bar ou no consultório do terapeuta e pergunta: o que a física tem a dizer sobre isso?

A resposta muitas vezes é “mais do que você imagina”. Outras vezes é “nada, e quem disser o contrário está vendendo alguma coisa”. É essa franqueza que faz o livro valer.

Quem é Sabine Hossenfelder?

Hossenfelder é física teórica alemã, com pesquisa em gravidade quântica e fundamentos da física. Fora da academia, ficou famosa no YouTube: o canal Science with Sabine passa de 1,5 milhão de inscritos, segundo o Jornal da Unicamp. Peter Schulz, professor da Unicamp, foi quem traduziu o livro.

Ela também tem fama de briguenta. O livro anterior, Lost in Math, criticava físicos que escolhem teorias pela beleza matemática em vez da evidência. Nos vídeos, critica a academia, o financiamento de pesquisa e a própria área. Alguns colegas acham que ela exagera no pessimismo. Ela responde que critica justamente porque gosta da ciência, e que torcida não conserta problema nenhum.

Que perguntas o livro tenta responder?

Cada capítulo parte de uma pergunta grande. Algumas delas:

  • o passado ainda existe, de algum modo?
  • como o universo começou, e como vai acabar?
  • por que a gente envelhece e nunca rejuvenesce?
  • temos livre-arbítrio?
  • o universo foi feito sob medida para nós?
  • o universo pode, de algum jeito, pensar?

Entre um capítulo e outro, ela conversa com outros físicos, e esses intervalos dão ar ao livro. O resultado é uma mistura de aula, opinião e bate-papo.

O que a física diz sobre o livre-arbítrio?

É o capítulo que mais gera discussão, e ela não foge. Para Hossenfelder, as leis da física que conhecemos têm duas partes: uma determinista e outra aleatória, que aparece na física quântica. Nenhuma das duas deixa espaço para uma escolha que escape das causas. Se o futuro está determinado, você não escolheu. Se é sorteado, também não.

Isso coloca a autora perto do que os filósofos chamam de determinismo rígido, uma das três posições explicadas no post sobre se o livre-arbítrio existe. Mas ela não conclui que nada importa. Suas decisões continuam sendo suas, no sentido de que são produzidas pelo seu cérebro e por ninguém mais. O que muda é a ideia de que você poderia ter feito diferente nas mesmas condições.

É o mesmo dilema que move a série Devs, em que um computador calcula o futuro de todo mundo. E a ideia de uma inteligência capaz de prever tudo a partir do presente tem nome antigo: o demônio de Laplace, um dos experimentos mentais mais famosos da história.

Onde termina a física e começa a crença?

Esta é a contribuição mais útil. Ao longo do livro, Hossenfelder separa as afirmações em três tipos:

  1. as que a física confirma, como a idade do universo;
  2. as que a física contradiz, como as “curas quânticas” e outras promessas que violam leis bem testadas;
  3. as que a física não consegue testar, como o que havia antes do Big Bang ou a existência de outros universos.

Para o terceiro tipo, ela usa uma palavra própria: acientífico. Uma afirmação acientífica não contradiz nenhum dado, e por isso escapa do rótulo de anticientífica. Mesmo assim, fica fora da ciência, porque ninguém consegue testá-la. Uma resenha da Physics World destaca uma frase dela sobre várias teorias do início do universo: são mitos de criação modernos, escritos em linguagem matemática.

A consequência é libertadora. Se uma pergunta é acientífica, você pode acreditar no que quiser sobre ela, desde que saiba que está acreditando. É uma ideia vizinha da que Marcelo Gleiser defende em A Ilha do Conhecimento: quanto mais a ciência avança, maior fica a borda do que não sabemos.

Vale ler A Ciência Tem Todas as Respostas?

Vale, principalmente se você gosta das perguntas grandes e anda cansado de respostas místicas para elas.

  • O humor é seco. Hossenfelder faz piada sem sorrir, bem alemã. Funciona muito bem para uns e soa frio para outros.
  • Alguns capítulos são densos. As partes sobre o tempo e sobre a física quântica pedem calma. Releia sem culpa.
  • As posições dela não são consenso. O determinismo radical, em especial, divide os físicos. Leia como uma voz forte no debate, e não como a palavra final.
  • Combina com séries que você talvez já viu. Quem assistiu a Dark vai reconhecer as perguntas sobre tempo e destino, agora com a física por trás.

Daqui, dá para ir para Respostas de um Astrofísico, outro cientista respondendo a perguntas de gente comum, só que mais gentil. Para entender o que conta como ciência antes de discutir o que ela responde, Afinal, o que é ciência?. E, para a mesma angústia sobre o fim do universo virando ficção, A Última Pergunta, de Asimov. Para as mesmas perguntas na versão clássica, tem Uma Breve História do Tempo, de Hawking.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte qual dessas perguntas tira o seu sono.


Deixe um comentário