Contato, de Carl Sagan: o livro vai além do filme?

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Uma radioastrônoma capta um sinal vindo de Vega, e ele traz instruções para construir uma máquina. Carl Sagan usou o único romance que escreveu para perguntar como ciência e fé reagiriam ao primeiro contato.


Autor: Carl Sagan – Publicação: 1985

Contato começou como roteiro de cinema. Em 1979, Carl Sagan e Ann Druyan escreveram a história pensando num filme que não saiu do papel. Sagan então transformou o roteiro em romance, e a editora Simon & Schuster pagou um adiantamento de 2 milhões de dólares, o maior da época para um livro que nem tinha sido escrito.

O filme acabou saindo em 1997, com Jodie Foster. Sagan morreu em dezembro de 1996 e não chegou a ver a estreia. Muita gente conhece a história só pela tela, e o livro tem bastante coisa que a tela deixou de fora.

Do que trata Contato, de Carl Sagan?

Eleanor Arroway, a Ellie, é uma radioastrônoma que passa anos ouvindo o céu atrás de um sinal artificial. A maioria dos colegas acha que ela está perdendo tempo. Até que um conjunto de antenas no Novo México capta um sinal vindo de Vega, a cerca de 26 anos-luz.

O sinal traz camadas, e cada uma é uma surpresa:

  1. Números primos. Uma sequência que nenhum fenômeno natural produz. É a assinatura de alguém.
  2. Uma transmissão da Terra. Escondida no sinal está a abertura dos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim, com Hitler: a primeira transmissão de TV forte o bastante para sair do planeta, devolvida pelos vizinhos.
  3. Um projeto. Milhares de páginas com as instruções para construir uma máquina, sem explicar para que ela serve.

O resto do livro é a humanidade tentando decidir se constrói a máquina, quem vai nela e o que isso significa. Política, religião, dinheiro e vaidade entram na conta, e Sagan dá espaço a todos.

Qual a diferença entre o livro e o filme Contato?

O filme de Robert Zemeckis é bom e respeita o espírito do livro. Mas simplifica bastante.

  • A viagem. No filme, só Ellie entra na máquina. No livro, são cinco pessoas, de países diferentes, e a viagem vira um projeto da humanidade.
  • O bilionário. S. R. Hadden, o magnata excêntrico, tem no livro uma trama própria, bem mais estranha.
  • A política mundial. O livro gasta tempo com a disputa entre países pela máquina, em plena Guerra Fria. O filme corta quase tudo isso.
  • O final. O livro tem um último capítulo que o filme não usa, e é a melhor parte. Falo dele mais abaixo, com cuidado para não estragar.

Se você viu o filme, o livro vai parecer a versão do diretor, com três horas a mais. Eu achei que valeu cada página.

Quanto da ciência de Contato é real?

Muito mais do que na média da ficção científica, e isso vem do próprio autor. Sagan ajudou a criar as mensagens enviadas nas sondas Pioneer e Voyager, história contada no perfil de Carl Sagan. Ele entendia de busca por vida fora da Terra como poucos.

Alguns pontos que batem com a ciência real:

  • A busca por sinais existe. É o programa SETI, e a pesquisadora Jill Tarter, uma das líderes dessa busca, foi a inspiração para Ellie.
  • Números primos como assinatura. É uma das apostas mais citadas por quem estuda como civilizações se comunicariam.
  • O atraso do sinal. Se Vega está a 26 anos-luz, a TV de 1936 chegaria lá em 1962, e a resposta voltaria em 1988. As contas fecham.

E o ponto mais especulativo tem uma história ótima. Para a viagem, Sagan precisava de um atalho pelo espaço. Pediu ajuda ao físico Kip Thorne, que levou a pergunta a sério e acabou publicando com um aluno um estudo sobre buracos de minhoca atravessáveis. Um romance gerou pesquisa. A página do livro na Wikipédia conta essa parte com detalhes.

Quem gostou dessa mistura de radioastronomia, sinal e dilema político vai reconhecer muita coisa em 3 Body Problem, que pergunta o contrário: e se responder ao sinal for uma péssima ideia?

Como Contato trata ciência e religião?

Esse é o coração do livro. Ellie é cética até o osso. Palmer Joss, pregador e personagem central, é um homem de fé que respeita a ciência. Os dois discutem o livro inteiro, e Sagan, que se dizia agnóstico, dá a Palmer argumentos bons de verdade.

A virada é que, depois da viagem, Ellie volta com uma experiência que não consegue provar. As gravações falharam. O tempo, para quem ficou na Terra, quase não passou. A cientista termina na posição de quem precisa pedir que acreditem nela.

E aí vem o último capítulo, aquele que o filme deixou de fora. Sem entregar demais: Ellie procura uma prova de outra natureza, dentro da própria matemática, e encontra algo escondido nas casas decimais de um número famoso. É a resposta de Sagan para a velha pergunta sobre Deus: se existe uma assinatura do criador, ela estaria escrita em matemática. Quem já leu o post sobre o Deus de Spinoza vai reconhecer o parentesco.

Vale ler Contato?

Vale, e eu colocaria entre as melhores ficções científicas sobre primeiro contato.

  • O começo é lento. Os primeiros capítulos contam a infância e a carreira de Ellie. Tenha paciência, porque o sinal compensa.
  • A ciência é de primeira. Sagan escreve como quem conhece o laboratório por dentro.
  • Os personagens discutem ideias. Às vezes parece um debate em forma de romance. Para quem gosta disso, é um prato cheio.
  • Combina com o resto da obra dele. Lido depois de Cosmos, mostra o mesmo autor experimentando outro formato. Com O Mundo Assombrado pelos Demônios, dá para ver de onde vem o ceticismo de Ellie.

Se quiser seguir pela mesma trilha, Solaris imagina um contato em que nada é decifrado. A História da Sua Vida, de Ted Chiang, põe uma linguista para conversar com os visitantes. E Eles São Feitos de Carne conta o primeiro contato pelo ponto de vista dos alienígenas.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte se você viu o filme antes de saber que existia o livro.


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