Em 1991, Terry Bisson publicou um conto curto, construído como diálogo entre dois extraterrestres. Eles descobrem uma espécie inteligente, mas há um detalhe: ela é feita de carne. Primeira publicação em 1991, OMNI.
O que os extraterrestres descobrem?
Os dois personagens analisam sinais de rádio, máquinas e cérebros. Tudo indica inteligência, mas a forma do corpo causa repulsa, e a conversa gira em torno disso.
Os personagens agem com método, e é esse método que torna a conclusão tão difícil de aceitar. Lembra as discussões sobre o que conta como consciência em máquinas e animais: os critérios nascem da experiência de quem julga.
A astrobiologia costuma procurar carbono e água líquida, critérios que vêm do que conhecemos. Bisson usa essa expectativa para fazer a piada. A graça está em quem observa: os sinais já mostram o que precisaria ser visto.
Vale notar o tom. O conto é curto e engraçado, e a graça vem de dois personagens que parecem sensatos. Essa sensatez torna a rejeição ainda mais difícil de ignorar.
Por que o conto inverte a ideia de contato?
O conto aponta três reações:
- Os sinais confirmam que há inteligência;
- A forma do corpo serve de argumento para rejeitar a espécie;
- O contato é descartado, mesmo com provas de que existe.
A ironia é que a espécie humana, que tanto imaginou o primeiro contato, aparece aqui como a estranha da história. Durante décadas, a ficção imaginou alienígenas que chegam para nos avaliar.
Bisson inverte o papel e deixa a avaliação para quem nunca se questionou. Isso diz mais sobre quem observa do que sobre quem é observado.
Bisson não precisa de explicações científicas para isso. Bastam dois personagens conversando sobre uma espécie que considera o próprio corpo perfeitamente normal, e a ironia já funciona sozinha.
Quem gosta de pensar o que chamamos de inteligência encontra mais em Tecnologia e Sociedade, e outras leituras de ficção sobre ciência reunidas em Livros e Contos.
Qual é o desfecho de Eles São Feitos de Carne?
Spoiler: clique para ler o desfecho
Depois de admitir que os humanos pensam e querem contato, os alienígenas decidem apagar os registros da descoberta.
Eles têm as informações necessárias e, mesmo assim, preferem ignorar a espécie.
O final é curto, mas deixa claro que o preconceito pode vencer as evidências. A cena fecha sem drama, e isso faz parte do efeito.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – o que você ainda hesita em chamar de inteligente?