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A série fez de Carl Sagan um rosto conhecido no mundo inteiro. O livro, lançado no mesmo ano, guarda a versão mais completa da mesma viagem, com espaço para as digressões que a televisão cortou.
Autor: Carl Sagan – Publicação: 1980
Em 1980, Carl Sagan lançou duas coisas com o mesmo nome. Uma era a série de TV que levou a astronomia para a sala de jantar de meio mundo. A outra era um livro de treze capítulos, um para cada episódio. A série ficou mais famosa. O livro ficou mais completo.
E ele começa com uma das melhores histórias da ciência. No século III a.C., Eratóstenes, que cuidava da Biblioteca de Alexandria, leu que numa cidade ao sul, Siena, as varetas não faziam sombra ao meio-dia de um certo dia do ano. Em Alexandria, no mesmo dia e na mesma hora, faziam. Se a Terra fosse plana, as sombras seriam iguais. Com a diferença entre elas e a distância entre as cidades, Eratóstenes calculou o tamanho do planeta e chegou perto do valor real. Ferramentas: varetas, olhos e uma boa pergunta. É o livro inteiro numa cena.
O que é Cosmos, de Carl Sagan?
Cosmos é uma viagem que sai da Terra, vai até a borda do universo conhecido e volta, contando no caminho como a humanidade descobriu cada pedaço dessa paisagem. Sagan mistura astronomia, biologia e história sem pedir licença, e é essa mistura que faz o livro funcionar.
Alguns dos assuntos que aparecem pelo caminho:
- a medição da Terra por Eratóstenes e a Biblioteca de Alexandria;
- os caranguejos do Japão com “rosto de samurai”, um exemplo de seleção artificial feita sem querer por pescadores;
- Johannes Kepler e Tycho Brahe brigando pelos dados das órbitas dos planetas;
- Vênus, um planeta transformado em forno pelo efeito estufa;
- Marte e as sondas Viking, que Sagan ajudou a planejar;
- as estrelas como fábricas dos átomos do nosso corpo;
- a equação de Drake e a chance de existir alguém lá fora.
Repare que nada disso está em ordem de manual. Sagan pula de um tema para outro como quem conversa, e cada capítulo pode ser lido sozinho.
Qual a diferença entre o livro e a série Cosmos?
A série tem o que o papel não tem: a voz de Sagan, a música de Vangelis, a “nave da imaginação” deslizando entre galáxias. O livro tem o que a TV não comportava: tempo.
As diferenças que mais pesam na leitura:
- Profundidade. Um episódio dura uma hora. Um capítulo pode parar numa digressão sobre hieróglifos egípcios, voltar para as estrelas e ainda caber uma nota de rodapé.
- Imagens. O livro original saiu cheio de ilustrações e fotos das sondas. Elas ajudam, mas não substituem os efeitos da série.
- Autoria. A série foi escrita por Sagan com Ann Druyan e Steven Soter. O livro é assinado só por ele, e dá para sentir a voz mais pessoal.
Se você viu a série e gostou, o livro é a versão com as anotações de margem. Se nunca viu, o livro funciona sozinho. A história completa da franquia, das três temporadas e de como Neil deGrasse Tyson herdou o posto, está no post sobre Cosmos, a série. E a vida de quem escreveu tudo isso, da infância no Brooklyn às missões da NASA, está no perfil de Carl Sagan.
O que o livro Cosmos conta sobre a história da ciência?
Bastante, e com uma tese por trás. Para Sagan, a ciência floresce onde as pessoas podem perguntar sem medo e murcha onde a pergunta vira ameaça.
O exemplo que ele mais gosta são os jônios, os gregos da costa da atual Turquia que, por volta de 600 a.C., começaram a explicar o mundo sem recorrer aos deuses. É a mesma virada contada no post sobre como surgiu a ciência, com Tales, Anaximandro e companhia.
O contraexemplo é Alexandria. Sagan descreve a biblioteca como o grande centro do saber antigo e conta o fim dela junto com a morte de Hipátia, matemática assassinada em 415.
Aqui vale um aviso de leitor. Historiadores hoje contestam essa versão. A biblioteca foi perdendo força ao longo de séculos, sem um grande incêndio final, e a morte de Hipátia teve mais de disputa política local do que de guerra entre fé e razão. Sagan escreveu a cena como parábola, e ela funciona como parábola. Como relato histórico, pede cuidado.
O livro Cosmos está desatualizado?
Em parte, sim, e é divertido perceber onde. O livro foi escrito antes de várias descobertas:
- Plutão ainda era planeta;
- nenhum planeta fora do Sistema Solar tinha sido confirmado;
- ninguém sabia que a expansão do universo está acelerando, descoberta de 1998;
- as Voyager ainda não tinham passado por Urano e Netuno;
- a ameaça que atravessa os capítulos finais é a Guerra Fria e o arsenal nuclear.
O que não envelheceu é o jeito de pensar. A frase “afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias” e a ideia de que somos feitos de matéria estelar continuam circulando, e a origem exata de cada uma está no post sobre os mitos sobre Carl Sagan. O método que Sagan defende, perguntar e conferir, e que ele organizou em O Mundo Assombrado pelos Demônios, segue tão válido quanto em 1980. Os dados mudaram. A atitude ficou.
Vale ler Cosmos hoje?
Vale, e eu recomendaria até para quem acha que não gosta de astronomia.
- Dá para ler aos pedaços. Os capítulos são independentes. Comece pelo que mais chamar sua atenção.
- A prosa é boa de verdade. Sagan escreve como quem conta uma história no quintal, com espanto e sem jargão.
- É uma aula de história da ciência disfarçada. Você termina sabendo quem foram Kepler, Huygens e Eratóstenes sem ter estudado para prova.
- Pede leitura crítica em alguns trechos. As partes sobre Alexandria e sobre a Guerra Fria são do seu tempo, e tudo bem ler com esse filtro.
A Britannica resume a carreira de Sagan, caso você queira situar o livro na obra dele.
Se gostou da ideia, o próximo passo natural é Contato, o único romance que Sagan escreveu. Quem quer ver a astrofísica respondendo a gente comum encontra isso em Respostas de um Astrofísico. E, para outra viagem longa no tempo, só que pela ficção, tem A Máquina do Tempo.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte se você conheceu Sagan pela tela ou pelo papel.