Leon Festinger: o psicólogo que se infiltrou num culto para provar uma teoria

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Leon Festinger foi o psicólogo americano que criou a teoria da dissonância cognitiva, uma das ideias mais citadas da psicologia. Para testá-la, chegou a se infiltrar, com colegas, num grupo que esperava o fim do mundo.


Subúrbio de Chicago, noite de 20 de dezembro de 1954. Numa sala de estar, um pequeno grupo espera. A líder, Dorothy Martin, garante ter recebido mensagens de extraterrestres: um dilúvio vai destruir o mundo antes do amanhecer, e um disco voador virá buscar os fiéis à meia-noite. Alguns largaram o emprego, venderam bens, romperam com a família.

No meio deles, fingindo acreditar, estão três psicólogos. Um deles é Leon Festinger. A meia-noite chega, e nada. Uma hora, duas, três. Nada de disco voador, nada de dilúvio.

Aí vem a parte que interessava aos pesquisadores. De madrugada, a líder anuncia uma nova mensagem: a fé do grupo tinha salvado o planeta. E os fiéis, que até então evitavam a imprensa, começam a telefonar para os jornais para espalhar a boa notícia. Festinger tinha previsto exatamente isso.

Quem foi Leon Festinger: resumo rápido

  • Nasceu: em 8 de maio de 1919, no Brooklyn, Nova York.
  • Morreu: em 11 de fevereiro de 1989, em Nova York, aos 69 anos.
  • Formação: City College de Nova York; doutorado em Iowa, com Kurt Lewin.
  • Onde trabalhou: MIT, Michigan, Minnesota, Stanford e New School.
  • A ideia que deixou: quando crença e realidade se chocam, a mente protege a crença.
  • Por onde começar: Quando a Profecia Falha (1956).

Como Festinger chegou à dissonância cognitiva?

Festinger chegou à psicologia social quase por acaso. O que ele gostava mesmo era de matemática e estatística, mas o encontro com Kurt Lewin, considerado o pai da área, mudou o rumo. E ele levou para a psicologia social uma coisa que faltava: experimentos bem desenhados.

A ideia central surgiu de uma pista curiosa. Depois de um grande terremoto na Índia, em 1934, moradores de regiões que sentiram o tremor, mas não sofreram danos, espalharam boatos de que catástrofes piores estavam a caminho.

Por quê? Festinger arriscou uma resposta: os boatos justificavam o medo que as pessoas já sentiam.

Daí nasceu, em 1957, a teoria da dissonância cognitiva. Quando alguém percebe uma contradição entre duas crenças, ou entre o que acredita e o que faz, sente um mal-estar que empurra para uma saída:

  • mudar a atitude, para combinar com o comportamento;
  • arranjar justificativas, que tornem a contradição aceitável;
  • reinterpretar os fatos, para que a crença original fique de pé.

O conceito, com exemplos e com o que as pesquisas recentes dizem sobre ele, está explicado em detalhe no texto sobre dissonância cognitiva.

O que foi o experimento de 1 dólar de Festinger?

O grupo de Dorothy Martin virou livro em 1956, Quando a Profecia Falha. Festinger queria provar a teoria também em laboratório.

Em 1959, com James Carlsmith, pediu que estudantes fizessem uma tarefa chatíssima e depois dissessem ao próximo participante que ela era divertida. Uns recebiam 1 dólar pela mentira; outros, 20.

O resultado surpreendeu. Quem ganhou só 1 dólar passou a achar a tarefa mais interessante do que quem ganhou 20. Com vinte dólares, a mentira tinha desculpa. Com um, não tinha, e a mente resolveu o conflito mudando de opinião.

O que é a teoria da comparação social?

Antes da dissonância, em 1954, Festinger já tinha proposto a teoria da comparação social. Quando não há um critério objetivo, as pessoas avaliam as próprias opiniões e habilidades comparando-se com os outros, de preferência com quem parece semelhante.

No caso das habilidades, ele notou ainda uma tendência a mirar quem está um pouco acima, o que alimenta a vontade de melhorar e, às vezes, a frustração.

Décadas antes das redes sociais, Festinger descreveu o mecanismo que faz tanta gente se medir pelo feed alheio.

No fim da carreira, surpreendeu os colegas ao trocar a psicologia social pela percepção visual e, depois, pela arqueologia. Para ele, era o mesmo tema: como a mente organiza informações que não se encaixam.

Como a dissonância cognitiva aparece no dia a dia?

Poucos sabem quem foi Festinger, mas quase todo mundo já viveu o que ele descreveu:

  • o fumante que conhece os riscos e se lembra do avô que fumou até os noventa;
  • a compra cara que, depois de feita, parece ainda melhor;
  • o torcedor que vê pênalti contra o rival e lance normal contra o próprio time.

A ideia está explicada de forma acessível na Simply Psychology, e o livro em que Festinger apresentou a teoria foi resenhado na Educar em Revista.

A tradição que ele abriu continuou com Daniel Kahneman, que mostrou erros da mente ainda mais profundos. E o avesso do grupo de Chicago está em Johannes Kepler, que, diante de dados que contrariavam a crença dele, preferiu mudar de ideia.

Críticas a Leon Festinger

A dissonância cognitiva é um dos conceitos mais conhecidos da psicologia, e os estudos que a fundaram foram revistos:

  • os bastidores do culto: os observadores teriam reforçado as crenças que estudavam;
  • a autopercepção: Daryl Bem explicou os mesmos resultados sem tensão interna;
  • a ética: os estudos enganavam participantes de formas hoje vetadas.

A primeira crítica é a mais recente. Em 2025, o pesquisador Thomas Kelly analisou os arquivos de Festinger e concluiu que os observadores, cerca de um terço do grupo, incentivaram as crenças que deveriam só registrar.

A segunda veio em 1967. Para Bem, as pessoas deduzem as próprias atitudes do que fazem, sem precisar do mal-estar que Festinger supunha.

O livro sobre o culto sai abalado dessa revisão. O conceito em si continua sendo testado: em 2024, uma replicação em 39 laboratórios confirmou parte do efeito e não confirmou uma das previsões centrais do paradigma clássico.


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