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Daniel Kahneman foi o psicólogo israelense-americano que mostrou como a mente humana erra de formas previsíveis, criou com Amos Tversky a economia comportamental e ganhou o Nobel de Economia em 2002. É o autor de Rápido e Devagar.
Paris, ocupada pelos nazistas, por volta de 1941. Um menino judeu de sete anos volta para casa depois do toque de recolher, com o suéter do avesso para esconder a estrela amarela costurada na roupa.
Na rua deserta, cruza com um soldado da SS. O soldado o chama, levanta-o no colo e o abraça. Depois tira da carteira a foto de um menino, mostra, fala com emoção e dá dinheiro para ele.
O garoto chega em casa convencido de uma coisa, que contaria décadas depois, na autobiografia escrita para o Nobel: as pessoas são infinitamente complicadas e interessantes.
Esse menino era Daniel Kahneman. E passou a vida estudando exatamente isso: como gente de carne e osso pensa, decide e se engana.
Quem foi Daniel Kahneman: resumo rápido
- Nasceu: em 5 de março de 1934, em Tel Aviv, e cresceu em Paris.
- Morreu: em 27 de março de 2024, aos 90 anos.
- Área: psicologia cognitiva e economia comportamental.
- Onde trabalhou: Universidade Hebraica de Jerusalém, Universidade da Colúmbia Britânica, Berkeley e Princeton.
- Prêmios: Nobel de Economia (2002) e Medalha Presidencial da Liberdade (2013).
- Por onde começar: Rápido e Devagar (2011).
Como Daniel Kahneman chegou à psicologia?
A família tinha raízes na Lituânia e morava na França. Durante a ocupação, o pai foi preso numa das primeiras ondas de detenção de judeus e só saiu, semanas depois, graças à intervenção do patrão. A família fugiu, se escondeu, e o pai morreu em 1944, pouco antes da libertação. Em 1948, Kahneman e a mãe foram para a Palestina, às vésperas da criação de Israel.
Lá ele estudou psicologia e matemática na Universidade Hebraica de Jerusalém e, no serviço militar, recebeu uma tarefa curiosa: criar um sistema de entrevistas para avaliar recrutas. Foi daí que veio uma lição que ele carregaria para sempre. Entrevistadores confiantes previam mal o desempenho dos soldados, e um roteiro simples, com critérios fixos, previa melhor. Depois veio o doutorado em Berkeley, concluído em 1961.
O que Kahneman e Tversky descobriram sobre vieses?
Em 1969, Kahneman convidou um colega mais novo, Amos Tversky, para dar uma palestra no seminário dele. Os dois discordaram, riram, discutiram, e começaram uma parceria que mudaria a psicologia e a economia. Juntos, mostraram que o raciocínio humano erra de forma sistemática, por causa da própria arquitetura da mente. Alguns conceitos saíram do laboratório direto para o vocabulário comum:
- Heurísticas e vieses: atalhos mentais que economizam esforço e produzem erros previsíveis, como a ancoragem, em que o primeiro número ouvido puxa a estimativa.
- Aversão à perda: perder cem reais dói mais do que ganhar cem reais alegra.
- Teoria da perspectiva (1979): um modelo de como pessoas reais avaliam riscos, bem diferente do agente perfeitamente racional dos manuais de economia.
Tversky morreu em 1996, aos 59 anos. Quando o Nobel saiu, em 2002, Kahneman fez questão de dizer que o prêmio era dos dois. E tem um detalhe saboroso: ele nunca tinha feito um curso de economia na vida.
O que são os sistemas 1 e 2 de Rápido e Devagar?
Em 2011, Kahneman reuniu décadas de pesquisa em Rápido e Devagar, que virou best-seller mundial. A ideia central cabe em duas linhas:
- Sistema 1: rápido, automático, intuitivo. Decide antes que você perceba.
- Sistema 2: lento, deliberado, trabalhoso. Entra em cena bem menos do que a gente imagina.
Só que o livro também teve seu tropeço, e Kahneman foi honesto sobre ele. Parte dos estudos de “priming” citados num dos capítulos não se sustentou quando outros laboratórios tentaram repetir. Em 2012, ele escreveu uma carta aberta pedindo que a área levasse a replicação a sério e, anos depois, admitiu ter confiado demais em estudos pequenos. O problema é discutido no post sobre reprodutibilidade em psicologia.
O que é o ruído, o último livro de Kahneman?
No último livro, Ruído (2021), escrito com Olivier Sibony e Cass Sunstein, Kahneman olhou para outro tipo de erro: a variação aleatória entre decisões que deveriam ser iguais. Dois juízes, o mesmo caso, sentenças muito diferentes. Para ele, o remédio mais eficaz são procedimentos que reduzam o erro, como aquele roteiro de entrevista do exército.
Repare no parentesco com Leon Festinger, que estudou como a mente se engana para evitar contradição. Kahneman mostrou que ela se engana antes até de perceber que está diante de uma escolha. A trajetória completa está na autobiografia escrita para o Nobel, e um bom resumo da obra aparece na Britannica.
Kahneman passou a vida mostrando que a intuição erra, e erra do mesmo jeito sempre. Saber disso é o primeiro passo para errar menos.
Críticas a Daniel Kahneman
Kahneman mudou a economia e a psicologia, e parte da obra dele foi revista nos últimos anos:
- a crise de replicação: vários estudos de “priming” social citados em Rápido e Devagar não se confirmaram quando refeitos; em 2017, Kahneman admitiu ter confiado demais em estudos com amostras pequenas;
- os vieses como erro: o psicólogo alemão Gerd Gigerenzer argumenta que muitas heurísticas são atalhos eficientes, e que parecem falhas por causa do jeito como os problemas são apresentados no laboratório;
- o uso em políticas públicas: críticos apontam que a imagem de um cidadão cheio de vieses serviu para justificar “empurrões” de governos e empresas sobre escolhas pessoais.
A disposição de Kahneman para admitir o erro em público virou ela própria um exemplo na discussão sobre reprodutibilidade em psicologia.
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