Microbiota intestinal: segundo cérebro ou nova vaca leiteira?

Atualizado em

A microbiota intestinal é o conjunto de microrganismos que vive no intestino e participa da digestão, da imunidade e da comunicação com o cérebro. A ciência sobre ela é real e recente; o mercado que a explora anda mais rápido.


SÉRIE · Longevidade sob exame
1 de 5

O que é a microbiota e por que isso é importante?

O intestino humano abriga cerca de 38 trilhões de microrganismos – número da mesma ordem do total de células do próprio corpo.

Esse ecossistema, a microbiota intestinal, reúne bactérias, fungos, vírus e arqueias que participam de processos essenciais: digestão de fibras, síntese de vitaminas, regulação imunológica e produção de substâncias que atuam no sistema nervoso.

As pesquisas das últimas duas décadas mostram associações entre desequilíbrios da microbiota – a disbiose – e condições como obesidade, diabetes tipo 2, doenças inflamatórias intestinais e transtornos de humor.

Repare na palavra associação. Na maior parte desses estudos ainda não se sabe o que vem primeiro: a microbiota alterada ou a doença. É nessa distância entre associação e causa que o mercado se instala.

O intestino é mesmo um “segundo cérebro”?

A expressão vem do sistema nervoso entérico, uma rede de cerca de 500 milhões de neurônios que reveste o trato digestivo, opera com relativa autonomia e se comunica com o cérebro pelo nervo vago.

Cerca de 90% da serotonina do corpo é produzida no intestino, e estudos em animais mostram que alterar a microbiota muda comportamento e resposta ao estresse.

A conexão é real.

Mas, o que pesquisas ainda não mostraram foi que:

  • um probiótico específico melhore o humor de forma consistente;
  • a serotonina produzida no intestino chegue ao cérebro – ela não atravessa a barreira que protege o sistema nervoso central;
  • a microbiota possa ser “otimizada” com cápsulas de farmácia.

A maioria dos ensaios com probióticos e saúde mental tem amostras pequenas e resultados inconsistentes.

A ideia de que cuidar do intestino é cuidar do cérebro é plausível; ainda não está provada no nível que o marketing sugere.

O probiótico em cápsula sempre ajuda?

Nem sempre.

E um estudo com resultado pouco conveniente para o mercado mostra por quê.

Em 2018, pesquisadores do Instituto Weizmann, em Israel, deram antibióticos a voluntários e depois dividiram o grupo: uns receberam um probiótico comercial com várias cepas, outros nada, e outros um transplante da própria microbiota coletada antes do tratamento.

O resultado, publicado na Cell: o probiótico atrasou a recuperação da microbiota original; o autotransplante a acelerou.

Isso não condena todo probiótico. Mostra que “repor bactérias boas” é uma imagem simples demais para um ecossistema complexo.

Onde a microbiota já virou tratamento?

Há um caso em que mexer na microbiota é tratamento estabelecido: a infecção recorrente pela bactéria Clostridioides difficile, que costuma aparecer depois do uso de antibióticos e causa diarreia grave.

Nela, o transplante de microbiota fecal – a transferência de fezes de um doador saudável, processadas em laboratório – cura a maioria dos pacientes que não respondem aos remédios, com resultados bem superiores aos do antibiótico isolado em ensaios clínicos.

Nos Estados Unidos, a FDA aprovou em 2022 o primeiro produto padronizado desse tipo, e outro em 2023.

Perceba o contraste com a prateleira da farmácia: o tratamento que funciona é específico, testado em ensaio clínico e indicado para uma doença definida.

Onde o mercado entra na conversa?

A indústria de probióticos movimentou mais de 70 bilhões de dólares em 2023.

O mesmo padrão descrito no texto sobre biohacking aparece aqui: uma descoberta legítima vira promessa comercial antes de virar consenso clínico.

No Brasil, a Anvisa define quais alegações podem aparecer no rótulo de um suplemento.

Nas redes, porém, influenciadores prometem muito mais do que qualquer rótulo poderia dizer – do humor à imunidade, da pele à longevidade.

O que de fato modula a microbiota?

As respostas mais sólidas são menos vendáveis.

Em 2021, um estudo da Universidade Stanford acompanhou adultos por dez semanas em duas dietas: uma rica em fibras, outra rica em alimentos fermentados, como iogurte, kefir, kombucha e kimchi.

O grupo dos fermentados aumentou a diversidade da microbiota e reduziu 19 proteínas ligadas à inflamação.

Outros fatores com boa evidência:

  • diversidade de vegetais e fibras na alimentação;
  • fermentados como alimento, e não como suplemento concentrado;
  • exercício físico, que altera a composição da microbiota independentemente da dieta;
  • antibiótico só quando necessário – o maior agressor da microbiota é o uso sem indicação.

Nenhum desses fatores cabe numa cápsula, e nenhum deles gera margem de lucro para uma indústria de bilhões.

O intestino é um órgão fascinante, com uma ciência promissora que ainda pede estudos. Enquanto os pesquisadores pedem paciência, os influenciadores já venderam a solução.

A microbiota também envelhece junto com o corpo – e é por ela que entra o próximo assunto desta série: a inflamação silenciosa do envelhecimento.


LONGEVIDADE SOB EXAME
Próximo: Inflammaging: o que é a inflamação silenciosa do envelhecimento?
1 de 5 – Intestino


Deixe um comentário