Undone: quando a animação torna a realidade incerta

Depois de sobreviver a um acidente, Alma passa a ver o pai morto e a experimentar o tempo fora de ordem. Em Undone, a rotoscopia faz com que lembrança, visão e realidade ocupem a mesma imagem.


Alma vive em San Antonio, trabalha numa creche e sente que seus dias começaram a se repetir antes mesmo de qualquer acontecimento extraordinário.

A rotina muda depois de um grave acidente de carro. Durante a recuperação, ela passa a ver Jacob, seu pai, morto anos antes em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas.

Jacob afirma que Alma possui uma percepção especial do tempo. Com treinamento, ela poderia retornar ao passado, investigar sua morte e alterar acontecimentos que marcaram a família.

A explicação parece abrir uma história convencional de viagem temporal.

Undone, criada por Kate Purdy e Raphael Bob-Waksberg, escolhe um caminho menos definido: o espectador nunca recebe uma posição completamente segura de onde observar Alma.

Ela está atravessando o tempo? Está reconstruindo memórias? Está vivendo uma experiência associada à condição psiquiátrica presente em sua família?

A série permite que essas possibilidades convivam.

A rotoscopia não está ali apenas para embelezar a série

Undone foi filmada primeiro com os atores e, depois, transformada por meio da rotoscopia, técnica em que animadores desenham sobre imagens de atuação real.

Cenários pintados e outros elementos de animação foram acrescentados ao processo.

O resultado preserva gestos, olhares e expressões dos atores, mas retira deles a estabilidade visual do live-action.

Paredes desaparecem. Um cômodo se transforma em outro. Alma atravessa décadas sem que a montagem precise anunciar claramente a passagem. Pessoas mortas dividem o espaço com os vivos.

A imagem pode mudar a qualquer momento porque o ponto de vista de Alma também muda.

Essa escolha impede uma separação simples entre cenas “reais” e cenas “imaginadas”.

Tudo recebe a mesma matéria visual. Uma conversa cotidiana, uma lembrança de infância e uma passagem no tempo são apresentadas pelo mesmo desenho em movimento.

A técnica, portanto, não ilustra a instabilidade da personagem. Ela faz o espectador experimentá-la.

Montagem comparativa com Rosa Salazar e Bob Odenkirk ao lado das versões rotoscópicas de seus personagens, Alma e Jacob, na série Undone. A imagem destaca a técnica que combina atuação real e animação.
Rosa Salazar e Bob Odenkirk ao lado de Alma e Jacob: a montagem destaca como Undone transforma atuações reais em animação por rotoscopia.

Alma está viajando no tempo?

A primeira temporada constrói sua narrativa em torno dessa dúvida.

Jacob ensina Alma a observar momentos diferentes como partes de uma realidade que não precisaria ser vivida em sequência. Ela revê cenas do passado, investiga a relação do pai com sua pesquisa e tenta impedir sua morte.

Ao mesmo tempo, sua mãe, Camila, teme que a filha esteja manifestando a mesma condição atribuída ao pai. Alma perde a noção de quanto tempo passou, confunde situações e toma decisões que afetam as pessoas ao redor.

A série evita usar qualquer uma dessas leituras para simplesmente cancelar a outra.

Interpretar tudo como poder sobrenatural apagaria o medo real de Alma e de sua família diante do histórico de sofrimento psíquico.

Tratar todas as experiências apenas como sintoma também ignoraria acontecimentos que a própria narrativa não explica facilmente por esse caminho.

Os criadores já descreviam essa ambiguidade como parte central da primeira temporada: Alma poderia estar acessando outra relação com o tempo ou interpretando o mundo por meio de uma condição mental.

A dúvida não funciona apenas como mistério a ser resolvido. Ela determina como Alma é ouvida — ou desacreditada — por quem convive com ela.

O passado familiar muda conforme é observado

A investigação sobre a morte de Jacob parece, inicialmente, o centro da história. A segunda temporada amplia o foco.

Alma passa a olhar para Camila, Becca e para gerações anteriores da família. Segredos antes tratados como acontecimentos isolados revelam relações com abandono, deslocamento, silêncio e decisões tomadas para proteger alguém.

A viagem pelo passado ganha outra função. Já não se trata somente de descobrir “o que realmente aconteceu”, mas de perceber como cada integrante da família construiu uma versão possível para continuar vivendo.

Camila ocultou partes de sua história. Jacob transformou a própria pesquisa numa maneira de corrigir perdas. Alma insiste em reorganizar o passado porque acredita que uma família sem determinados traumas poderia finalmente viver de outra forma.

Nesse processo, ela corre o risco de tratar a vida dos outros como algo que pode ser reescrito de fora.

A capacidade de enxergar feridas familiares não concede automaticamente o direito de corrigir todas elas.

Mudar o passado resolve uma família?

A segunda temporada apresenta uma realidade em que parte dos acontecimentos dolorosos foi modificada. À primeira vista, o resultado parece melhor: relações foram preservadas e perdas deixaram de ocorrer.

Mas a nova realidade também possui seus próprios problemas.

Alma descobre que eliminar uma experiência não produz uma vida perfeita. Pessoas continuam fazendo escolhas, escondendo coisas e construindo relações que ela não controla.

Essa percepção muda seu percurso.

Na primeira temporada, Alma queria provar que sua experiência era real. Depois, passa a acreditar que pode usar essa capacidade para restaurar a família.

No final, precisa reconhecer que cuidar dos outros não significa determinar qual versão da vida eles deveriam ter vivido.

A série encontra aí uma conclusão mais interessante do que uma explicação fechada sobre viagem no tempo: compreender o passado pode transformar a relação com ele, mas não oferece domínio completo sobre as pessoas que participaram dessa história.

Por que Undone merece atenção?

Undone trabalha com viagem temporal, herança familiar e experiência psíquica sem obrigar o espectador a escolher rapidamente uma única explicação.

A rotoscopia sustenta essa proposta. Os desenhos preservam a atuação de Rosa Salazar e dos demais intérpretes, enquanto os espaços ao redor podem se desfazer, mudar de época ou responder à percepção de Alma.

É uma série curta, com episódios de aproximadamente meia hora, mas que pede alguma disposição para permanecer na incerteza. Quem procura regras exatas para o funcionamento do tempo talvez encontre menos respostas do que gostaria.

Sua força está em outro lugar.

Alma acredita que chegar à origem de cada perda permitirá consertar a história inteira. Aos poucos, descobre que uma família não é uma linha temporal defeituosa esperando a intervenção correta.

É um conjunto de experiências, escolhas e versões que nem sempre podem ser conciliadas.


Se Undone também fez você olhar de outra maneira para as histórias que uma família conta sobre o próprio passado, compartilhe este texto com alguém que ainda está tentando separar memória, verdade e aquilo que gostaria de ter vivido.


Deixe um comentário