O Conto da Aia: por que o livro de Atwood continua atual?

Atualizado em

Numa teocracia instalada nos Estados Unidos, mulheres férteis viram propriedade do Estado. Margaret Atwood dizia que não inventou nada: cada regra de Gilead já tinha existido em algum lugar da história.


Autora: Margaret Atwood – Publicação: 1985

Quem conhece só a série encontra no livro outra coisa. O livro é mais curto, mais silencioso e, em alguns momentos, mais assustador. A série mostra Gilead de fora. O livro deixa você preso na cabeça de uma mulher que mal pode falar.

Atwood começou a pensar no livro no início dos anos 1980 e escreveu boa parte dele em Berlim Ocidental, com o Muro do lado. Ela impôs a si mesma uma regra: nada entraria no romance sem ter precedente na história real. Ela repetiu essa regra numa entrevista à Rolling Stone, anos depois, falando da série.

Do que trata O Conto da Aia?

Depois de um golpe, um grupo religioso toma o poder em parte dos Estados Unidos e funda a República de Gilead. A natalidade despencou, e as poucas mulheres férteis viram aias: são entregues a famílias da elite para engravidar do Comandante da casa.

A narradora é uma dessas aias. Ela não tem nome próprio. É chamada pelo nome do homem a quem pertence, e o tempo todo lembra a vida de antes: o marido, a filha, o trabalho, a conta bancária que um dia foi bloqueada.

O livro alterna o presente vigiado com essas lembranças, e é aí que ele dói. Gilead foi montado em poucos anos, sobre uma sociedade que parecia livre.

O que é a República de Gilead?

É um Estado que controla tudo pelo corpo. Algumas regras, que aparecem aos poucos:

  • classes de mulheres: esposas, aias, marthas (empregadas) e tias (as que doutrinam), cada uma com uma cor de roupa;
  • proibição de ler: mulheres não podem ler nem escrever, e até as placas das lojas viram desenhos;
  • controle reprodutivo: a gravidez é assunto de Estado, e o corpo da aia pertence à família;
  • vigilância mútua: qualquer um pode ser um “olho”, o informante do regime.

A semelhança com 1984 é evidente, mas o foco é outro. Orwell olha para a linguagem e a memória. Atwood olha para o corpo e para quem tem o direito de decidir sobre ele.

Atwood inventou alguma coisa em O Conto da Aia?

Segundo ela, não. Cada prática de Gilead foi tirada de algum lugar da história:

  1. a cerimônia das aias vem de uma passagem do Gênesis, em que Raquel entrega a serva ao marido para ter filhos;
  2. a proibição da leitura lembra as leis que proibiam escravizados de aprender a ler nos Estados Unidos;
  3. o sequestro de crianças tem precedentes em ditaduras do século XX, inclusive na América do Sul;
  4. o bloqueio das contas das mulheres repete o que vários regimes fizeram para tirar a independência de grupos inteiros.

É isso que dá ao livro a força de alerta. Atwood descreve combinações de coisas que já aconteceram, e por isso o futuro dela parece tão possível. O post sobre Hannah Arendt ajuda a entender como regimes totalitários se instalam sobre sociedades que se achavam protegidas.

E o livro tem um epílogo genial, que muita gente pula: as “Notas históricas”, em que acadêmicos do futuro discutem o relato da aia num congresso. É a forma de Atwood mostrar como até o sofrimento vira objeto de estudo frio.

Qual a diferença entre o livro e a série?

A série, que estreou em 2017 com Elisabeth Moss, expandiu bastante a história.

  • A narradora ganhou nome e ação. No livro, ela é mais passiva e mais ambígua. Na série, vira uma figura de resistência.
  • O mundo ficou maior. A série mostra o Canadá, a guerra e personagens que o livro só menciona.
  • O tom mudou. O livro é íntimo e contido. A série é mais violenta e mais explícita.
  • A história continuou. Em 2019, Atwood publicou Os Testamentos, que se passa quinze anos depois e dividiu o Booker Prize daquele ano.

Antes da série, houve um filme em 1990, que aparece no post sobre 8 filmes que racharam o mapa dos Estados Unidos.

Vale ler O Conto da Aia?

Vale muito, e merece lugar ao lado de 1984 entre as distopias obrigatórias.

  • É curto e denso. Cerca de 350 páginas, mas cada uma pesa.
  • A narradora é fascinante. Ela não é heroína, e é por isso que você acredita nela.
  • O epílogo muda tudo. Leia até o fim, inclusive as notas.
  • O debate segue vivo. Mulheres vestidas de aia já protestaram em vários países, de manifestações nos Estados Unidos a debates sobre aborto na Argentina. Tem relação direta com o que o blog discute em o paradoxo da tolerância.

A página do livro na Wikipédia resume a obra e a recepção que ela teve.

Se quiser seguir pelas distopias, Nós foi a primeira das grandes, e influenciou Orwell. Fahrenheit 451 mostra outra sociedade que proíbe a leitura. E Laranja Mecânica pergunta o que o Estado pode fazer com a mente de alguém. Já A Revolução dos Bichos mostra, em forma de fábula, como um regime se instala por dentro de uma revolução.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte se você chegou ao livro pela série ou o contrário.


Deixe um comentário