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Os bichos de uma granja expulsam o dono e prometem uma sociedade de iguais. Poucos anos depois, os porcos andam em duas patas. George Orwell conta, numa fábula curta, como uma revolução vira aquilo que combatia.
Autor: George Orwell – Publicação: 1945
É o livro mais curto de Orwell e talvez o mais lido. Cabe numa tarde e tem bicho falando, então muita gente lê na escola achando que é leitura infantil, e só depois percebe o tamanho da coisa. O subtítulo original, “uma história de fadas”, é ironia pura.
Orwell terminou o livro em 1944, em plena Segunda Guerra, quando a União Soviética era aliada da Inglaterra contra Hitler. Pelo menos quatro editoras recusaram. Uma chegou a aceitar, consultou o Ministério da Informação britânico e voltou atrás: uma fábula em que os porcos mandam parecia uma ofensa direta a Stálin. O livro só saiu em agosto de 1945, com a guerra acabando.
Do que trata A Revolução dos Bichos?
Na Granja do Solar, o velho porco Major tem um sonho: um mundo sem humanos, em que os animais ficam com o fruto do próprio trabalho. Ele morre dias depois, mas a ideia fica.
Os bichos expulsam o fazendeiro Jones, rebatizam o lugar de Granja dos Bichos e pintam sete mandamentos na parede do celeiro. O primeiro diz que tudo o que anda sobre duas pernas é inimigo. O último, que todos os animais são iguais.
Os porcos, os mais espertos, assumem a organização. Dois disputam a liderança: Bola-de-Neve, cheio de planos e de discursos, e Napoleão, calado e paciente, que cria em segredo uma ninhada de cães.
Quem é quem na Revolução dos Bichos?
O livro é uma alegoria da Revolução Russa e dos anos de Stálin, e quase todo personagem tem um correspondente:
- Major: Marx e Lênin, o sonho que dá origem à revolução;
- Napoleão: Stálin;
- Bola-de-Neve: Trótski, expulso e transformado em culpado de tudo;
- Garganta: a propaganda oficial;
- os cães: a polícia política;
- Sansão: o trabalhador que acredita até o fim;
- Moisés, o corvo: a religião, tolerada quando convém.
Orwell sabia do que estava falando. Lutou na Guerra Civil Espanhola numa milícia de esquerda e viu os comunistas ligados a Moscou perseguirem os próprios aliados. Era socialista, e passou o resto da vida dizendo que o stalinismo tinha traído o socialismo.
Como a propaganda funciona na Revolução dos Bichos?
É a parte que mais conversa com o presente. Garganta é o porco encarregado de explicar as decisões de Napoleão aos outros bichos, e o método dele tem três ferramentas:
- números que ninguém confere: Garganta lê listas mostrando que a produção subiu 200%, 300%, 500%, enquanto os bichos passam fome;
- memória reescrita: os mandamentos mudam de madrugada, uma palavra por vez, e “nenhum animal dormirá numa cama” amanhece com um “com lençóis” no fim;
- o inimigo útil: tudo o que dá errado vira obra de Bola-de-Neve, que ninguém vê há anos.
Os bichos não conseguem provar que o texto mudou, porque quase nenhum sabe ler direito. Benjamim, o burro velho, lê tão bem quanto os porcos e prefere não se meter. Repare que é o mecanismo do Ministério da Verdade de 1984, numa escala que cabe num celeiro. E a confiança cega em métricas que escondem a realidade é o tema dos 3 livros sobre poder, métricas e burocracia.
O que significa “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”?
É o que sobra dos sete mandamentos. No fim, a parede do celeiro tem uma frase só: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros.”
A frase virou expressão popular porque descreve algo que acontece em qualquer organização, de partido a condomínio: a igualdade continua no discurso enquanto os privilégios crescem na prática. Orwell mirou a União Soviética, mas o alvo serve para qualquer poder que se diz do povo. O post sobre Hannah Arendt ajuda a entender como regimes assim se sustentam.
Na Guerra Fria, o livro foi usado também pelo outro lado. A animação inglesa de 1954 foi financiada em segredo pela CIA e ganhou um final diferente, com os bichos se levantando contra os porcos. Orwell, que morreu em 1950, não chegou a ver.
Como termina A Revolução dos Bichos?
Spoiler: clique para ler o desfecho
Sansão trabalha até desabar. Os porcos dizem que ele foi levado a um hospital, mas a carroça que o busca é de um abatedor de cavalos. Pouco depois, os porcos aparecem com dinheiro para comprar uísque.
Anos passam, e quase ninguém lembra mais da revolução. Um dia, os porcos saem da casa andando sobre duas patas, de chicote na mão.
Na última cena, os porcos jantam com os fazendeiros vizinhos. Os bichos olham pela janela, do porco para o homem e do homem para o porco, e já não conseguem dizer quem é quem.
Onde ler A Revolução dos Bichos?
Orwell morreu em 1950, e a obra dele entrou em domínio público no Brasil em 2021. Por isso hoje há várias edições e traduções, algumas com o título A Fazenda dos Animais, mais próximo do original Animal Farm. A Companhia das Letras tem as duas versões: a tradução clássica de Heitor Aquino Ferreira, como A Revolução dos Bichos, e a de Paulo Henriques Britto, como A Fazenda dos Animais.
Leva umas três horas. Vale procurar uma edição que traga o prefácio “A liberdade de imprensa”, que Orwell escreveu para o livro e que só foi publicado em 1972. O texto do prefácio (em inglês) tem a frase mais citada dele sobre liberdade, e a Britannica resume a obra e o contexto.
Se gostou, 1984 é a versão adulta e sem fábula do mesmo medo. E Nós, de Zamiátin, é a distopia que abriu o caminho para as duas.
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