Em novembro de 1904, o Rio virou campo de batalha por causa de uma vacina. O historiador Nicolau Sevcenko mostra que havia muito mais por trás: casas derrubadas, gente expulsa e uma ciência que chegou junto com a polícia.
Autor: Nicolau Sevcenko – Publicação: 1984
É um livro curto, pouco mais de 130 páginas, escrito por um dos grandes historiadores brasileiros. E desmonta as duas leituras preguiçosas da Revolta da Vacina: a de que o povo era ignorante e a de que o povo tinha razão em recusar a vacina.
O subtítulo já entrega a provocação: mentes insanas em corpos rebeldes. Era assim que o governo e boa parte da imprensa viam os revoltosos, como uma massa sem razão. Sevcenko vai atrás da razão.
O que foi a Revolta da Vacina?
Em 31 de outubro de 1904, o Congresso aprovou a lei que tornava obrigatória a vacinação contra a varíola. À frente da campanha estava o médico sanitarista Oswaldo Cruz, diretor-geral de Saúde Pública do governo Rodrigues Alves.
Em 9 de novembro, o jornal A Notícia publicou o rascunho da regulamentação, com regras duras: o atestado de vacina seria exigido para matrícula na escola, emprego, viagem e casamento. No dia seguinte, começaram os conflitos.
Foi quase uma semana de bondes virados, lampiões quebrados e barricadas, com os bairros da Saúde e da Gamboa no centro da briga. O saldo oficial: 30 mortos, 110 feridos, 945 presos e 461 deportados para o Acre. Em 16 de novembro, o governo decretou estado de sítio e suspendeu a obrigatoriedade.
Por que a população se revoltou contra a vacina?
A resposta de Sevcenko está no contexto. Ao mesmo tempo que a vacina, o Rio passava por mudanças que atingiam os mesmos moradores pobres do centro:
- o bota-abaixo: o prefeito Pereira Passos derrubou cortiços e casarões para abrir avenidas largas, no modelo de Paris, e empurrou milhares de trabalhadores para morros e subúrbios. É um caso de manual do que hoje se chama gentrificação;
- as brigadas sanitárias: equipes de Oswaldo Cruz entravam nas casas, com apoio da polícia, para desinfetar cômodos, caçar ratos e mosquitos e interditar moradias consideradas insalubres;
- a vacina à força: para muita gente, um agente do governo entrar em casa e expor o braço da mulher e das filhas era uma invasão moral, e a oposição explorou esse medo sem parar.
A vacina foi a gota d’água de uma modernização feita por cima de quem morava na cidade. E a oposição tinha também gente de farda. Militares positivistas, com o senador Lauro Sodré à frente, condenavam a lei em nome da liberdade individual e tentaram um golpe a partir da Escola Militar da Praia Vermelha, em 14 de novembro. Fracassou em um dia. É o mesmo Rio do positivismo e da ciência como bandeira que aparece no post sobre Machado de Assis e a ciência.
Quais são as outras interpretações da Revolta da Vacina?
O livro de Sevcenko abriu o debate, e outros historiadores entraram nele. As três leituras mais conhecidas:
- Nicolau Sevcenko (1984): uma revolta popular contra a reforma urbana autoritária, que expulsava os pobres em nome do progresso;
- José Murilo de Carvalho, em Os Bestializados (1987): uma revolta moral, em defesa da honra da família e da casa contra um Estado que entrava sem pedir licença;
- Sidney Chalhoub, em Cidade Febril (1996): uma desconfiança popular da vacina com raízes nas crenças afro-brasileiras sobre doença e cura. Chalhoub critica Sevcenko por mostrar os pobres só reagindo, nunca agindo por conta própria.
As três leituras se completam mais do que se excluem, e juntas explicam melhor o que aconteceu. Um trabalho da Universidade Estadual de Londrina compara as três em detalhe.
O que a Revolta da Vacina ensina sobre a vacinação hoje?
Primeiro, que a vacina funcionava. Em 1908, uma nova epidemia de varíola matou quase 6.400 pessoas no Rio, e a população passou a procurar a vacina que antes recusava. Em 1980, a Organização Mundial da Saúde declarou a varíola erradicada do planeta, graças à vacinação.
Segundo, que ciência certa imposta sem conversa gera resistência, e a resistência custa vidas. O post por que confiar na ciência? discute o que faz alguém confiar, ou não, no que os cientistas dizem. E Que Bobagem!, de Natalia Pasternak e Carlos Orsi, mostra como a desinformação sobre saúde se espalha hoje.
Onde ler A Revolta da Vacina?
O livro saiu em 1984 pela Brasiliense, passou pela Scipione e pela Cosac Naify e, em 2018, ganhou edição pela Editora Unesp, a mais fácil de achar hoje. Lê em dois dias. A página da Revolta da Vacina na Wikipédia ajuda a montar a cronologia antes de começar.
Se gostou, Primavera Silenciosa conta outra briga entre ciência, governo e opinião pública, agora sobre pesticidas. E O Mundo Assombrado pelos Demônios explica por que confiar na ciência exige entender como ela funciona.
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