Por volta do ano 400, um bispo do norte da África escreveu a própria vida em forma de oração. No meio dela está a pergunta que os físicos ainda citam: afinal, o que é o tempo?
Autor: Santo Agostinho – Publicação: por volta de 400, em latim, com o título Confessiones
Confissões é considerada a primeira autobiografia do Ocidente, e causa estranheza em quem chega pela primeira vez. Agostinho conta a vida inteira para Deus, em segunda pessoa, do começo ao fim, e o leitor acompanha como quem escuta uma oração.
O foco aqui são os livros X e XI, onde a autobiografia vira filosofia e aparecem duas das análises mais citadas da história sobre a memória e o tempo. A fé de Agostinho fica no texto do jeito que ele escreveu, porque sem ela o raciocínio não se sustenta.
Do que trata Confissões?
São treze livros. Os nove primeiros contam a vida de Agostinho até a conversão:
- a infância em Tagaste, na Numídia, atual Argélia, onde nasceu em 354;
- o roubo das peras, na adolescência, que ele analisa como o gosto pelo erro em si, já que nem estava com fome;
- os anos em Cartago e Roma, a carreira de professor de retórica e quase uma década entre os maniqueus;
- Milão, os sermões do bispo Ambrósio e a conversão num jardim, em 386, depois de ouvir uma voz de criança repetir “toma e lê”;
- a morte da mãe, Mônica, em Óstia, a caminho de volta para a África.
Os quatro últimos mudam de tom. O X trata da memória, o XI do tempo, e o XII e o XIII interpretam o começo do Gênesis. Muita gente para no IX, achando que a história acabou. Para quem gosta de ciência, é justamente ali que ela fica boa.
O que é o tempo para Santo Agostinho?
A discussão começa com a frase mais famosa do livro: “Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicar a quem me pergunta, já não sei.”
Depois vem o problema. O passado já não existe. O futuro ainda não existe. E o presente, se durasse, viraria passado, então ele não tem extensão nenhuma. Como a gente mede uma coisa que não existe?
A saída de Agostinho é levar o tempo para dentro da mente. Para ele, existem três tempos, todos no presente:
- o presente do passado: a memória;
- o presente do presente: a atenção;
- o presente do futuro: a expectativa.
Ele chama isso de distentio animi, uma distensão da alma. O exemplo é recitar um hino que se sabe de cor. Antes de começar, o hino inteiro está na expectativa. Durante, uma parte passou para a memória e a outra ainda espera. No fim, está todo na memória.
Mais de 1.600 anos depois, o físico Carlo Rovelli, um dos criadores da gravidade quântica em loop, contou numa entrevista ao site Five Books (em inglês) que, depois de muitas voltas, concluiu que Agostinho estava basicamente certo sobre o tempo que vivemos. E repare como isso conversa com A História da Sua Vida, de Ted Chiang, em que uma linguista aprende a ver o tempo inteiro de uma vez, coisa que Agostinho reservava a Deus.
O que Deus fazia antes de criar o mundo?
Era a pergunta que os críticos faziam aos cristãos no tempo de Agostinho. Ele conta que circulava uma resposta-piada: Deus estava preparando o inferno para quem pergunta essas coisas. E avisa que não vai responder assim.
A resposta séria é que a pergunta não tem sentido. Se o tempo foi criado junto com o mundo, não existe um “antes” da criação. Não havia um “então” em que Deus estivesse parado, esperando.
Stephen Hawking cita esse argumento logo no primeiro capítulo de Uma Breve História do Tempo: para Agostinho, o tempo era uma propriedade do universo que Deus criou. A cosmologia de hoje diz algo com a mesma forma sobre o Big Bang, quando lembra que perguntar o que havia antes pode não fazer sentido, se o tempo começa ali.
Vale o cuidado de não exagerar o paralelo. O argumento de Agostinho é teológico, sobre a criação, e o parentesco com a cosmologia é de estrutura: nos dois casos, o tempo nasce junto com o mundo. A conversa entre fé e ciência, sem tomar partido, também aparece em Deus de Spinoza e em Galileu e a Igreja.
Como Santo Agostinho explica a memória?
No livro X, Agostinho entra nos “vastos palácios da memória” e fica perplexo com o que encontra. Três observações dele continuam afiadas:
- lembrar uma emoção sem senti-la: dá para recordar uma tristeza estando alegre, e ele compara a memória a um estômago da alma, que guarda o alimento sem o sabor;
- lembrar do esquecimento: se esqueci algo, como sei que esqueci? Alguma coisa do esquecido precisa continuar guardada;
- a memória como o próprio eu: ao procurar Deus dentro da memória, ele percebe que está andando dentro de si mesmo.
A neurociência responde a essas perguntas com outras ferramentas, e o post sobre memória mostra como ela funciona e por que esquecemos. As perguntas, no entanto, continuam as mesmas que Agostinho fez.
Onde ler Confissões?
A tradução de Lorenzo Mammì, lançada em 2017 pela Penguin-Companhia, é a mais fluente e tem boas notas. Há também edições mais tradicionais da Paulus e da Vozes. Quem chega pela pergunta do tempo pode ir direto ao livro XI, que lê numa tarde, e voltar depois ao começo.
O verbete sobre Agostinho da Stanford Encyclopedia of Philosophy (em inglês) dá o contexto da obra e do pensamento dele. E, para ver o tempo pelo lado da física, Uma Breve História do Tempo é o par natural deste livro.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte se você saberia explicar o que é o tempo, se alguém perguntasse agora.