Galileu e a Igreja: o que é mito e o que aconteceu?

A história de Galileu contra a Igreja virou fábula de ciência contra fé. O processo de 1633 envolveu política, vaidade e um livro mal calculado, e algumas das frases famosas nunca foram ditas.


Roma, 22 de junho de 1633. Num convento perto do Panteão, um homem de 69 anos se ajoelha diante dos cardeais da Inquisição e lê em voz alta um texto renegando a ideia de que a Terra gira em torno do Sol.

A lenda conta que, ao se levantar, ele murmurou: “e, no entanto, ela se move”.

É uma das cenas mais repetidas da história da ciência. Você provavelmente aprendeu na escola a versão em que a razão enfrenta a fé. A história real tem mais personagens e menos heróis puros.

Por que Galileu foi julgado pela Igreja?

O conflito levou mais de vinte anos para chegar ao tribunal:

  • 1610: Galileu publica O Mensageiro das Estrelas, com o que viu no telescópio, e vira celebridade;
  • 1616: a Igreja declara o heliocentrismo contrário às Escrituras, e o cardeal Belarmino adverte Galileu a não defendê-lo; o livro de Copérnico, de 1543, entra no Índice de Livros Proibidos até ser corrigido;
  • 1623: o cardeal Maffeo Barberini, admirador de Galileu, vira o papa Urbano VIII;
  • 1632: Galileu publica o Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo e põe o argumento preferido do papa na boca de Simplício, o personagem que perde todas as discussões;
  • 1633: acusado de desobedecer à advertência de 1616, é julgado pela Inquisição.

Galileu tinha 69 anos e a saúde frágil quando chegou a Roma para o processo.

Repare no peso da política. Urbano VIII se sentiu traído pelo antigo amigo num momento em que enfrentava pressões dentro da Igreja.

As provas de Galileu também tinham lacunas. Ele nunca aceitou as órbitas elípticas de Johannes Kepler, que resolviam problemas do modelo de Copérnico.

Galileu foi torturado ou preso?

Não há registro de tortura física. Galileu foi ameaçado formalmente com o “exame rigoroso”, como mandava o procedimento, e a ameaça bastou. Os autos do processo, guardados no Arquivo do Vaticano, foram estudados por historiadores e não registram nenhuma sessão de tortura.

Durante o processo, ficou hospedado em aposentos do próprio tribunal, com um criado, longe das celas comuns. A sentença o condenou como “veementemente suspeito de heresia” e determinou prisão, logo convertida em prisão domiciliar.

Galileu passou os últimos anos na sua casa em Arcetri, perto de Florença, proibido de receber visitas sem autorização. Ficou cego e continuou trabalhando. Em 1638, publicou na Holanda Duas Novas Ciências, base da física moderna, como lembra o texto sobre as contribuições de Galileu para a ciência. Morreu em 1642.

Galileu disse “e pur si muove”?

Provavelmente não. Nenhum documento do julgamento ou das cartas da época registra a frase. Verdadeira ou não, ela virou símbolo de resistência intelectual.

Ela aparece impressa pela primeira vez em 1757, mais de um século depois, num livro do escritor italiano Giuseppe Baretti publicado em Londres. Uma pintura espanhola do século XVII, com a frase escondida na tela, sugere que a lenda circulava antes, sem qualquer testemunha. Baretti contou a cena como fato conhecido, e a frase se espalhou pelos livros didáticos de vários países.

Dizer aquilo diante da Inquisição, logo depois de uma abjuração, teria sido arriscado demais para um homem idoso que tentava escapar de pena pior.

O que a Igreja reconheceu em 1992?

Em 1979, o papa João Paulo II pediu que o caso fosse reexaminado. Uma comissão trabalhou por mais de uma década. Àquela altura, a Igreja já tinha liberado livros que defendiam o movimento da Terra no século XVIII, e o Diálogo de Galileu saiu do Índice em 1835.

Em 31 de outubro de 1992, num discurso à Pontifícia Academia das Ciências, o papa reconheceu o erro dos teólogos que condenaram Galileu e chamou o episódio de trágica incompreensão mútua. A revista Pesquisa FAPESP registrou o desfecho na reportagem O Vaticano se move.


O que o caso Galileu ensina hoje?

O caso virou símbolo de uma guerra entre ciência e religião. A história real mostra algo mais complicado: um católico convicto, um papa ofendido, provas ainda incompletas e uma instituição com medo de perder autoridade. Muitos padres jesuítas da época eram astrônomos competentes e confirmaram parte das observações de Galileu ao telescópio.

Isso em nada diminui a injustiça. Um cientista foi silenciado por defender o que a evidência indicava, e a Igreja levou mais de 350 anos para admitir o erro.

Algumas décadas depois do processo, na Holanda, outro pensador enfrentava a autoridade religiosa por causa das próprias ideias. A história dele está em o Deus de Spinoza.


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