Memória: como funciona, tipos e por que lembramos ou esquecemos

Memória não é um arquivo no qual o cérebro guarda cópias perfeitas do que aconteceu. Lembrar depende de diferentes processos: prestar atenção, registrar informações, estabilizá-las ao longo do tempo e conseguir recuperá-las quando necessário. E mesmo uma lembrança antiga pode mudar.


O que é memória?

Memória é a capacidade de reter informações e experiências e utilizá-las posteriormente.

Parece simples até percebermos quantas coisas diferentes chamamos de memória.

Lembrar o que aconteceu no último aniversário não é exatamente o mesmo processo envolvido em saber a capital de um país. E nenhum dos dois é idêntico à habilidade de andar de bicicleta ou digitar sem olhar para o teclado.

Por isso, hoje a memória é entendida menos como um único “depósito” e mais como um conjunto de sistemas e processos relacionados.

Essa descoberta deve muito a um dos casos mais conhecidos da história da neurociência.

O que o caso H.M. ensinou sobre a memória

Em 1953, Henry Molaison passou por uma cirurgia experimental para tentar controlar uma epilepsia grave. Partes dos dois lobos temporais mediais foram removidas, incluindo extensas regiões relacionadas ao hipocampo.

A cirurgia reduziu suas crises, mas provocou uma consequência inesperada: Molaison passou a apresentar uma dificuldade profunda para formar novas memórias declarativas duradouras.

O caso, que ficou conhecido durante décadas apenas pelas iniciais H.M., tornou-se fundamental para a ciência da memória.

O mais interessante é que ele não perdeu simplesmente “a memória”.

Molaison conseguia conversar, manter informações por pouco tempo e até aprender algumas habilidades motoras, embora depois não se lembrasse conscientemente de tê-las praticado.

Isso ajudou pesquisadores a perceber que existem diferentes sistemas de memória, apoiados por redes cerebrais também diferentes.

Uma revisão sobre o legado de Henry Molaison para a neurociência mostra como seu caso contribuiu para estabelecer a importância das estruturas do lobo temporal medial na formação de novas memórias declarativas.

Como uma memória é formada?

Uma divisão útil considera três processos: codificação, consolidação e recuperação.

Eles não funcionam como etapas perfeitamente separadas, mas ajudam a entender o caminho entre experimentar alguma coisa e conseguir lembrar dela depois.

Codificação: o que entra na memória

Antes de lembrar, é preciso que alguma informação seja processada.

Quando você acompanha uma explicação, lê um texto ou presencia um acontecimento, parte dessas informações recebe atenção e passa a ser organizada pelo cérebro.

Isso é codificação.

Mas estar diante de uma informação não significa necessariamente aprendê-la.

Você pode terminar uma página e perceber que não sabe dizer quase nada sobre o que acabou de ler. Os olhos passaram pelas palavras; pouca coisa foi realmente processada.

A atenção, o conhecimento prévio e a maneira como relacionamos uma informação nova ao que já sabemos influenciam essa etapa.

É por isso que estratégias como elaboração podem ajudar: explicar, comparar e criar relações exige um processamento diferente de simplesmente reler.

Consolidação: tornando a memória mais estável

Uma informação recém-aprendida não se transforma instantaneamente em uma lembrança permanente.

Nas horas, dias e até períodos mais longos após uma experiência, ocorrem processos que ajudam a estabilizar e reorganizar determinadas memórias.

Esse conjunto de mudanças é chamado de consolidação.

O hipocampo exerce papel importante na formação e organização de muitas memórias declarativas recentes, enquanto a manutenção de lembranças ao longo do tempo envolve interações com redes distribuídas pelo cérebro.

A própria participação do hipocampo pode mudar conforme as memórias envelhecem, e diferentes modelos científicos discutem como essa reorganização acontece.

A consolidação também não depende de um único mecanismo. Mudanças nas conexões entre neurônios, alterações celulares e reorganizações entre redes cerebrais participam do processo.

O sono tem papel importante nessa história. Durante diferentes fases do sono, padrões de atividade cerebral estão associados à reorganização e ao fortalecimento de memórias.

É um dos motivos pelos quais estudar e simplesmente sacrificar a noite inteira não formam uma parceria particularmente brilhante.

Temos um texto específico sobre isso: Sono e consolidação da memória

Recuperação: lembrar também faz parte da aprendizagem

Guardar uma informação não adianta muito se não conseguimos acessá-la depois.

A recuperação acontece quando uma informação armazenada volta a ser utilizada: ao responder uma pergunta, contar uma experiência, explicar um conceito ou reconhecer uma pessoa.

Esse processo é importante porque a memória não funciona como a abertura de um arquivo intacto.

Recordar envolve reconstrução.

Além disso, tentar recuperar uma informação pode fortalecer nossa capacidade de acessá-la novamente.

Esse é o princípio por trás da prática de recuperação: em vez de estudar apenas relendo, você tenta lembrar sem consultar imediatamente o material.

Para aprendizagem, essa diferença é enorme.

Reconhecer uma resposta quando ela aparece diante de você não é o mesmo que conseguir produzi-la sozinho.

Quais são os principais tipos de memória?

Existem diferentes maneiras de classificar a memória. Uma distinção bastante utilizada considera memórias mantidas temporariamente e diferentes formas de memória de longo prazo.

Memória de curto prazo e memória de trabalho

Algumas informações permanecem disponíveis apenas durante um intervalo curto.

Você pode, por exemplo, manter um número na mente enquanto procura onde anotá-lo.

Mas estudar, calcular e compreender exigem mais do que guardar temporariamente. Precisamos também manipular essas informações.

É aí que entra a memória de trabalho.

Ela mantém uma quantidade limitada de informação acessível enquanto pensamos.

Ao resolver mentalmente uma conta, acompanhar os argumentos de um parágrafo ou comparar duas explicações, estamos usando esse recurso.

Sua capacidade é limitada — e não pode ser resumida de forma universal ao antigo “sete mais ou menos dois”.

Pesquisas posteriores mostraram limites menores em diversas tarefas e, principalmente, que a capacidade depende de fatores como organização do material, conhecimento prévio e possibilidade de agrupar informações.

Nos estudos, isso ajuda a explicar por que tentar aprender enquanto alternamos constantemente entre mensagens, notificações, vídeos e outras tarefas pode dificultar a compreensão.

Memória declarativa: fatos e acontecimentos

Parte da memória de longo prazo pode ser recuperada conscientemente.

É a chamada memória declarativa ou explícita, normalmente dividida em duas categorias.

A memória episódica está ligada a acontecimentos e experiências situados em determinado contexto.

Você pode lembrar de uma viagem, de uma conversa ou do primeiro dia em uma escola.

Já a memória semântica envolve conhecimentos, conceitos e significados que não precisam vir acompanhados da lembrança de quando foram aprendidos.

Você sabe que Brasília é a capital do Brasil, mas provavelmente não se lembra do momento exato em que aprendeu isso.

As duas formas se relacionam. Experiências particulares podem contribuir para a construção de conhecimentos mais gerais, e aquilo que já sabemos influencia a maneira como interpretamos e lembramos novas experiências.

Memória não declarativa: aprender sem precisar contar

Nem toda aprendizagem precisa ser recuperada conscientemente.

A memória não declarativa reúne diferentes formas de aprendizagem que se manifestam no desempenho e no comportamento.

Habilidades e hábitos são bons exemplos.

Depois de muita prática, andar de bicicleta, tocar determinado padrão em um instrumento ou executar certas sequências motoras pode exigir cada vez menos atenção consciente aos movimentos individuais.

Esse conjunto também inclui fenômenos como condicionamento e priming.

Foi justamente a diferença entre memória declarativa e aprendizagem de habilidades que tornou o caso H.M. tão importante: apesar da dificuldade extrema para formar novas lembranças conscientes, algumas formas de aprendizagem continuavam possíveis.

Por que esquecemos?

Esquecer não significa necessariamente que uma informação foi simplesmente “apagada”.

Há várias maneiras de uma lembrança falhar.

Às vezes, o problema começa na própria codificação: prestamos pouca atenção e a informação nunca foi bem aprendida.

Em outros casos, informações semelhantes competem entre si. É a interferência.

Também podemos ter dificuldade de recuperação: a informação pode estar disponível, mas naquele momento faltam pistas adequadas para encontrá-la.

Quem já passou vários minutos tentando lembrar um nome e o recordou horas depois conhece bem essa diferença.

O esquecimento também pode ter uma função útil. Um sistema que conservasse com a mesma força cada detalhe de cada experiência provavelmente teria dificuldade para selecionar o que é relevante.

Lembrar envolve também priorizar, generalizar e atualizar informações.

Para quem estuda, isso ajuda a entender por que uma revisão concentrada na véspera pode produzir familiaridade momentânea sem garantir retenção duradoura.

Uma alternativa é distribuir os encontros com o conteúdo ao longo do tempo, como explicamos em Repetição espaçada: revisar menos, lembrar mais.

Nossas lembranças são cópias fiéis do passado?

Não.

Isso não significa que toda lembrança seja falsa, mas significa que recordar é um processo reconstrutivo.

Quando lembramos de uma experiência, usamos fragmentos daquilo que foi registrado, conhecimentos posteriores, expectativas e informações disponíveis no presente.

Esse funcionamento pode produzir erros.

Os estudos de Elizabeth Loftus e outros pesquisadores sobre o chamado efeito da desinformação mostraram que informações enganosas apresentadas depois de um acontecimento podem alterar aquilo que uma pessoa relata posteriormente sobre ele.

Uma revisão de décadas dessa linha de pesquisa descreve como informações posteriores podem interferir na memória de acontecimentos.

Isso é particularmente importante quando pensamos em testemunhos e relatos de acontecimentos passados.

Uma lembrança pode ser sincera e, ainda assim, conter erros.

E o que é reconsolidação?

A recuperação também pode abrir oportunidade para que determinadas memórias sejam atualizadas.

Esse fenômeno é estudado sob o nome de reconsolidação.

Em algumas condições experimentais, a reativação de uma memória previamente consolidada pode torná-la temporariamente suscetível a modificações antes de voltar a se estabilizar.

Mas é preciso cuidado com a versão popular dessa descoberta.

Não significa que toda vez que lembramos de alguma coisa estamos “reescrevendo” completamente a memória.

Também não significa que a ciência já possua uma técnica simples para apagar ou editar lembranças traumáticas.

A reconsolidação em seres humanos continua sendo uma área ativa de pesquisa e debate, inclusive sobre as condições necessárias para que o fenômeno ocorra.

É um bom exemplo de como uma descoberta científica interessante pode ficar bem menos precisa quando transformada em promessa fácil.

Emoções fazem uma memória ser mais confiável?

Experiências emocionalmente marcantes podem ser lembradas de maneira especialmente vívida.

Isso não significa, porém, que sejam necessariamente mais precisas em todos os detalhes.

A amígdala participa da modulação de memórias relacionadas a experiências emocionalmente relevantes e interage com outros sistemas envolvidos na memória. Emoção pode influenciar quais acontecimentos recebem atenção e quais informações permanecem acessíveis posteriormente.

Mas vividez e precisão não são sinônimos.

Podemos ter enorme confiança numa lembrança e ainda assim errar detalhes.

Essa distinção ajuda a abandonar uma ideia bastante intuitiva: a de que quanto mais forte é a sensação de “eu lembro perfeitamente”, mais fiel deve ser a recordação.

A memória humana não oferece essa garantia.

O que tudo isso tem a ver com aprender?

Entender como a memória funciona muda algumas ideias comuns sobre estudo.

Aprender não é apenas colocar informação “dentro da cabeça”.

É preciso processá-la, relacioná-la ao que já sabemos, permitir que se estabilize e, depois, conseguir recuperá-la.

Por isso, algumas práticas fazem mais sentido quando vistas em conjunto:

  • prestar atenção e reduzir interferências ajuda na codificação;
  • relacionar ideias e produzir explicações favorece um processamento mais elaborado;
  • dormir adequadamente participa dos processos de consolidação;
  • tentar lembrar sem consultar imediatamente exercita a recuperação;
  • voltar ao conteúdo depois de algum tempo combate parte do esquecimento e fortalece o acesso futuro.

Nenhuma dessas estratégias transforma a memória em um gravador perfeito.

Esse nem seria o objetivo.

Aprender significa construir conhecimentos que possam ser acessados, relacionados e utilizados posteriormente.

A memória não é um arquivo

A metáfora do arquivo é confortável: vivemos alguma coisa, o cérebro guarda e, quando necessário, buscamos a pasta correspondente.

Só que a memória é mais interessante — e mais complicada — do que isso.

Diferentes sistemas participam de diferentes formas de aprendizagem.

Lembranças são selecionadas, estabilizadas, reorganizadas e recuperadas. Algumas permanecem por décadas; outras desaparecem rapidamente.

E aquilo que conseguimos lembrar pode ser influenciado tanto pelo momento em que a experiência aconteceu quanto pelo que veio depois.

É justamente essa imperfeição que permite à memória ser flexível.

Ela não existe apenas para conservar o passado. Também participa da maneira como compreendemos o presente, aprendemos com experiências anteriores e construímos expectativas sobre o que vem pela frente.


Sobre a imagem deste texto

A fotografia que acompanha este artigo foi feita em 1979, nos degraus da Basílica Velha, em Aparecida (SP).

Nela estão minha mãe, Ivonete; minha avó, Maria; minha tia, Mariana; e, sentados, eu, com quase dois anos, minha prima Cristiane e meu primo Leandro.

A imagem continua aqui por uma razão que nenhum diagrama sobre hipocampo substituiria muito bem: memória também é aquilo que permanece das pessoas, dos lugares e das histórias que participaram da nossa vida.

Um beijo, mãe. Vários, quero dizer.


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