Sono e consolidação da memória: por que dormir ajuda a aprender?

Sono e aprendizagem estão diretamente ligados. Depois de estudar, parte do que foi aprendido ainda precisa ser estabilizada e reorganizada. O sono participa desse processo e também influencia nossa capacidade de formar novas memórias no dia seguinte.

Isso ajuda a entender por que trocar horas de sono por mais estudo nem sempre é uma boa troca. O ganho de tempo pode vir acompanhado de pior atenção e de uma aprendizagem menos eficiente.


Trilha – Da informação à memória
1. Elaboração na aprendizagem
2. Codificação dupla nos estudos
3. Sono e consolidação da memóriavocê está aqui


O que é consolidação da memória?

Quando aprendemos alguma coisa, a nova memória não se torna imediatamente estável.

Depois da codificação, começam processos que ajudam a estabilizar e reorganizar aquilo que foi aprendido. Esse conjunto de mudanças recebe o nome de consolidação da memória.

Como explicamos no texto sobre como a memória funciona, não se trata de simplesmente transferir uma informação de um “depósito” para outro.

A formação de memórias envolve diferentes sistemas e continua depois que a aula termina ou o livro é fechado.

O sono participa dessa etapa. Durante a noite, o cérebro continua ativo, e padrões de atividade relacionados a experiências recentes podem reaparecer e ser reorganizados.

Isso não significa que dormir transforme automaticamente tudo o que estudamos em memória duradoura. O que foi mal compreendido ou apenas lido superficialmente não ganha qualidade por passar uma noite no cérebro.

Dormir ajuda a consolidar; não substitui aprender.

Dormir depois de estudar ajuda a lembrar?

Há boas evidências de que o sono depois da aprendizagem pode favorecer a retenção.

Em um experimento publicado no Current Biology, Jeffrey Ellenbogen e colegas ensinaram pares de palavras aos participantes e compararam o que acontecia após um período de sono ou de vigília.

Em uma das condições, novas informações foram apresentadas para interferir no que havia sido aprendido.

O grupo que dormiu mostrou maior resistência a essa interferência.

Esse resultado é interessante porque a vida real está cheia de interferências. Depois de estudar um assunto, continuamos lendo, conversando e aprendendo outras coisas.

Uma memória recente precisa permanecer acessível mesmo quando novas informações entram em cena.

Dormir antes de estudar também importa

A relação entre sono e aprendizagem começa antes do estudo.

Em outro experimento, publicado na Nature Neuroscience, Matthew Yoo e colegas compararam participantes que haviam dormido normalmente com pessoas que permaneceram acordadas durante a noite anterior.

No dia seguinte, todos realizaram uma tarefa de aprendizagem enquanto a atividade cerebral era acompanhada por ressonância magnética.

A privação de sono prejudicou a formação de novas memórias e esteve associada a alterações na atividade do hipocampo durante a codificação.

Isso ajuda a separar dois efeitos: dormir depois de aprender participa da consolidação; dormir adequadamente antes de uma nova sessão de estudo ajuda a chegar a ela em melhores condições para registrar novas informações.

Uma madrugada extra de estudo, portanto, pode custar parte do rendimento do dia seguinte.

O que acontece enquanto dormimos?

Ao longo da noite, passamos por diferentes estágios, incluindo sono NREM e REM.

Pesquisas sobre memória indicam que diferentes padrões de atividade durante esses estágios participam da reorganização de experiências recentes.

Não é necessário, porém, decorar qual fase “serve” para cada conteúdo. A divisão simples segundo a qual uma fase cuidaria de um tipo de memória e outra de outro não representa bem a complexidade do processo.

Para quem estuda, a consequência prática é mais simples: permitir uma noite normal de sono é mais útil do que procurar um horário ou uma fase “mágica” para consolidar conteúdo.

Vale a pena revisar antes de dormir?

Pode valer, desde que a revisão tenha função no estudo.

Não há necessidade de tratar os minutos antes de dormir como uma janela especial em que o cérebro absorveria melhor qualquer informação.

Se você costuma estudar à noite, uma revisão curta pode servir para recuperar os pontos principais. Uma possibilidade é fechar o material e tentar explicar o que acabou de estudar, aproveitando a lógica da prática de recuperação.

Se surgirem lacunas, consulte o conteúdo e corrija a resposta. Depois, encerre.

Transformar uma revisão curta em duas horas adicionais apenas porque “dormir consolida a memória” inverte a lógica da própria recomendação.

Virar a noite antes da prova compensa?

Em geral, é uma estratégia ruim.

A maratona oferece algumas horas extras de contato com o material, mas cobra esse tempo em sono justamente quando atenção e memória serão necessárias novamente.

Isso não significa que uma noite mal dormida apague tudo o que foi estudado ou determine o resultado de uma prova. Significa que o estudante está criando condições menos favoráveis para aprender e recuperar informação.

Há ainda um problema de planejamento. Quando quase todo o estudo fica concentrado na véspera, desaparecem os intervalos que permitiriam reencontrar o conteúdo em dias diferentes.

Por isso, sono e repetição espaçada se complementam: estudar em mais de um dia permite que haja períodos de descanso entre os encontros com o conteúdo.

Como este texto fecha a trilha?

A trilha Da informação à memória reúne três ideias diferentes, não três etapas rígidas do cérebro.

A elaboração ajuda a construir relações e explicações. A codificação dupla explora formas verbais e visuais de representar o conteúdo.

O sono mostra que aquilo que acontece fora do momento explícito de estudo também influencia a aprendizagem.

As três se encontram em um ponto: estudar envolve mais do que permanecer diante da informação.

É preciso trabalhar com ela, organizá-la e criar condições para que possa ser lembrada posteriormente.

O sono faz parte dessas condições.


Final da trilha

Este é o terceiro texto da trilha Da informação à memória.

Se quiser aprofundar o mecanismo discutido aqui, leia também: Memória: como funciona, tipos e por que lembramos ou esquecemos.


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