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Ada Lovelace foi a matemática inglesa que escreveu, em 1843, o que muitos consideram o primeiro programa de computador da história. Filha do poeta Lord Byron, foi criada para ser o oposto do pai e acabou juntando lógica e imaginação.
Londres, 1816. Lord Byron, o poeta mais escandaloso da Inglaterra, sai do país e nunca mais volta. A filha, Ada, tem quatro meses. Naquele mesmo verão, na Suíça, Byron estaria na famosa temporada da Villa Diodati em que Mary Shelley começou a escrever Frankenstein.
Em casa, a mãe de Ada, Lady Byron, toma uma decisão: a menina vai ser criada longe de qualquer poesia. Matemática, lógica e ciência, desde cedo, como uma espécie de vacina contra o temperamento do pai.
O plano deu certo e deu errado ao mesmo tempo. Ada virou uma matemática brilhante, mas nunca perdeu a imaginação. E foi justamente essa mistura que a mãe tentou evitar que a fez enxergar numa máquina de engrenagens coisas que nem o inventor tinha visto.
Quem foi Ada Lovelace: resumo rápido
- Nasceu: em 10 de dezembro de 1815, em Londres.
- Morreu: em 27 de novembro de 1852, aos 36 anos, a mesma idade com que o pai morreu.
- Área: matemática.
- Com quem trabalhou: Charles Babbage, inventor da Máquina Analítica.
- A ideia que deixou: uma máquina de calcular pode manipular qualquer símbolo, além de números.
- Por onde começar: as Notas que ela escreveu em 1843, especialmente a Nota G.
Qual a relação entre Ada Lovelace e Charles Babbage?
A educação de Ada teve professores de peso.
Entre eles estavam o lógico Augustus De Morgan e a cientista Mary Somerville, que virou amiga e referência. Em 1833, aos dezessete anos, numa festa em Londres, Ada conheceu Charles Babbage, matemático e inventor que tentava construir a Máquina Diferencial, um engenho mecânico de fazer contas.
Ficou fascinada. E Babbage percebeu nela uma coisa rara: a capacidade de pensar a máquina além da conta que ela fazia. A amizade durou a vida inteira, e foi ele quem a chamou de “a encantadora dos números”.
Em 1835, Ada se casou com William King, que três anos depois virou conde de Lovelace. Daí o nome pelo qual ficou conhecida. Tiveram três filhos, e a matemática seguiu junto com a vida doméstica.
Qual foi o primeiro programa de computador?
Em 1843, Ada traduziu do francês um artigo do engenheiro italiano Luigi Menabrea sobre o projeto mais ambicioso de Babbage, a Máquina Analítica, uma calculadora programável de propósito geral que nunca chegou a ser construída. Só que ela não ficou na tradução. Acrescentou um conjunto de Notas três vezes maior que o artigo original.
Na última delas, a Nota G, está um passo a passo detalhado para a máquina calcular os chamados números de Bernoulli. É esse algoritmo que muitos historiadores tratam como o primeiro programa de computador. E, mais importante que o algoritmo, veio a visão que o acompanhava:
- Música: a máquina poderia compor peças elaboradas, desde que as relações entre os sons fossem traduzidas em símbolos.
- Símbolos em geral: qualquer sistema de relações abstratas poderia, em princípio, ser processado por ela.
- Limites: a máquina, escreveu Ada, “não tem pretensão de originar nada”, só faz o que mandam. A frase ainda aparece nos debates sobre criatividade e inteligência artificial.
Repare no salto. Babbage pensava numa calculadora gigante. Ada estava descrevendo, cem anos antes, a ideia de computador de uso geral que Alan Turing formalizaria em 1936.
Por que Ada Lovelace demorou a ser reconhecida?
A vida de Ada foi curta e complicada.
A saúde sempre foi frágil, e uma tentativa de aplicar matemática às apostas em corridas de cavalo terminou em dívidas. Ela morreu de câncer em 1852 e, a pedido dela, foi enterrada ao lado do pai que nunca conheceu, na igreja de Hucknall.
O reconhecimento chegou com atraso, mas chegou:
- Linguagem Ada: em 1980, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos batizou com o nome dela uma linguagem de programação.
- Ada Lovelace Day: na segunda terça-feira de outubro, o dia dedicado a ela celebra mulheres na ciência e na tecnologia.
- Debate histórico: alguns estudiosos atribuem parte das Notas a Babbage, mas a maioria reconhece que a visão sobre o alcance da máquina era dela.
Para uma biografia mais detalhada, a Britannica é um bom ponto de partida. E a história de Ada ganha outras companhias no post Mulheres na ciência, que reúne trajetórias que a história também demorou a enxergar.
A mãe tentou separar a filha da poesia. Não conseguiu, e ainda bem.
Críticas a Ada Lovelace
Ada virou símbolo da computação, e parte dos historiadores acha que o símbolo cresceu mais que os documentos. As objeções principais são estas:
- a autoria do programa: Babbage já tinha esboçado rotinas de cálculo para a máquina analítica antes de 1843, e há quem atribua a ele boa parte da Nota G;
- a formação matemática: as cartas trocadas com Augustus De Morgan mostram uma aluna ainda em aprendizado, o que levou biógrafas como Dorothy Stein a questionar o tamanho da contribuição técnica;
- o mito da pioneira solitária: a imagem da “primeira programadora” apaga o trabalho coletivo em torno de uma máquina que nunca chegou a ser construída.
Os defensores lembram que a parte mais original das notas é conceitual. Ada percebeu que a máquina poderia manipular qualquer símbolo, de números a notas musicais, intuição que costuma ser reconhecida até pelos críticos.
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