Mulheres na ciência: 4 trajetórias que revelaram o invisível

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Mulheres na ciência mudaram a forma como vemos o mundo, muitas vezes sem o reconhecimento que mereciam. Marie Curie, Rachel Carson, Jane Goodall e Hedy Lamarr, em campos bem diferentes, revelaram coisas que estavam escondidas bem diante de todos.


Tanzânia, novembro de 1960. Uma jovem inglesa de 26 anos, sem diploma universitário, passa horas escondida no mato observando chimpanzés. De repente, vê um macho grisalho arrancar as folhas de um galho fino, enfiar o galho num cupinzeiro e puxá-lo de volta, cheio de cupins. Além de usar uma ferramenta, ele a tinha fabricado.

Jane Goodall manda a notícia por telegrama ao paleontólogo Louis Leakey, que tinha apostado nela. A resposta dele ficou famosa: agora seria preciso redefinir o que é ferramenta, redefinir o que é humano ou aceitar os chimpanzés como humanos.

Às vezes, uma descoberta aumenta o tamanho do mistério. Foi assim com Goodall e com as outras três mulheres deste post. Cada uma tornou visível alguma coisa que estava encoberta, e cada uma precisou brigar mais do que os colegas homens para ser ouvida.

Mulheres na ciência: resumo rápido

  • Marie Curie (1867–1934): física e química polonesa-francesa, pioneira da radioatividade e primeira pessoa a ganhar dois prêmios Nobel.
  • Rachel Carson (1907–1964): bióloga americana, autora de Primavera Silenciosa, o livro que expôs os estragos dos pesticidas.
  • Jane Goodall (1934–2025): primatóloga inglesa que revelou a vida social e o uso de ferramentas pelos chimpanzés.
  • Hedy Lamarr (1914–2000): atriz austro-americana que patenteou um sistema de salto de frequência para comunicações sem fio.
  • Por onde começar: Primavera Silenciosa (1962), um livro que ainda se lê de uma sentada.

O que Marie Curie descobriu?

Nascida em Varsóvia, numa Polônia em que mulheres não podiam entrar na universidade, Marie Sklodowska foi estudar em Paris. Lá, com o marido, Pierre, investigou uma radiação misteriosa que certos minerais emitiam sem parar e descobriu dois elementos novos, o polônio e o rádio.

A radioatividade mostrou que a matéria, que parecia sólida e estável, escondia energia e transformação. Marie ganhou o Nobel de Física em 1903, dividido com Pierre e Henri Becquerel, e o de Química em 1911, sozinha. Só que ninguém sabia dos perigos da radiação, e ela carregava tubos de rádio no bolso. Morreu em 1934, de uma doença no sangue provavelmente causada pela exposição.

Quem foi Rachel Carson e o que é Primavera Silenciosa?

Rachel Carson era bióloga de um órgão do governo americano e escrevia sobre o mar com uma prosa que virou best-seller. Mas o livro que a marcou foi outro. Em Primavera Silenciosa (1962), ela mostrou que pesticidas como o DDT se acumulavam no solo, na água e nos animais, subindo pela cadeia alimentar até chegar às pessoas.

A indústria química reagiu com fúria e tentou desacreditá-la. Não deu certo. O livro ajudou a criar o movimento ambientalista moderno, e o DDT acabou proibido para uso agrícola nos Estados Unidos em 1972. Carson não viu esse dia: morreu de câncer em 1964. A pergunta que ela deixou, quem decide o uso do que a ciência produz, é a mesma do post Quem decide o uso da ciência?.

O que Jane Goodall e Hedy Lamarr descobriram?

Goodall não tinha diploma quando chegou a Gombe, mas fez doutorado em Cambridge em 1965 com base nas observações. Mostrou chimpanzés com personalidade, afeto, disputas e até guerras entre grupos, e borrou a fronteira que separava o humano do resto dos animais.

Passou as últimas décadas viajando pelo mundo em defesa da conservação e morreu em 2025, aos 91 anos, em plena turnê de palestras. O trabalho continua pelo Instituto Jane Goodall.

Hedy Lamarr é o caso mais improvável da lista. Estrela de Hollywood nos anos 1930 e 1940, ela patenteou em 1942, com o compositor George Antheil, um sistema de salto de frequência para impedir que torpedos guiados por rádio fossem interceptados.

A ideia inspirou tecnologias usadas mais tarde em comunicações sem fio. O reconhecimento, porém, só veio nos anos 1990, quando ela já tinha mais de 80 anos. O caso de Lamarr mostra outro tipo de invisibilidade: a de quem não tem a cara que se espera de um inventor.

Quais mulheres na ciência ainda faltam ser lembradas?

Reunir Curie, Carson, Goodall e Lamarr ajuda a enxergar um padrão. Cada uma revelou algo que outra coisa escondia:

  • Curie: os limites dos instrumentos, que não enxergavam a energia dentro da matéria;
  • Carson: o otimismo cego com o progresso químico;
  • Goodall: a fronteira rígida entre o humano e os outros animais;
  • Lamarr: os estereótipos sobre quem pode inventar.

E cada uma precisou provar mais para ser levada a sério.

A lista, claro, é bem maior. Aqui no blog, ela continua com Ada Lovelace, que escreveu o primeiro programa de computador em 1843, e com Mary Somerville, a autodidata cujo livro, ao ser resenhado, fez a palavra “scientist” aparecer impressa pela primeira vez.

E a lista brasileira também pede espaço. A agrônoma Johanna Döbereiner, que chegou ao Brasil nos anos 1950, mostrou que bactérias podem fornecer nitrogênio à soja, dispensando o adubo nitrogenado, uma economia que passa de 2 bilhões de dólares por ano, segundo a Embrapa.

Na astronomia, a lista brasileira tem Duília de Mello, que descobriu uma supernova em 1997 e estuda galáxias em parceria com a NASA.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte qual mulher da ciência você colocaria nesta lista.


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