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Em 1997, uma astrônoma brasileira viu uma luz estranha nos dados de um telescópio no Chile e descobriu uma supernova. Quem é Duília de Mello, o que ela estuda e por que leva meninas à ciência.
Chile, 1997. Depois de doze horas de observação, uma astrônoma brasileira de 33 anos olha os dados da noite e vê uma luz que não deveria estar ali.
O colega Tommy Wiklind aparece com um sanduíche. Ela diz que talvez tenha descoberto uma supernova, a explosão de uma estrela.
A confirmação veio depois, e a explosão ganhou o nome de SN 1997D. A cena é contada pela própria Universidade Católica da América, onde Duília de Mello trabalha hoje.
Menina curiosa, que fazia perguntas quase sempre sem resposta, ela tinha decidido ser astrônoma aos 16 anos, numa visita ao Observatório do Valongo, no Rio de Janeiro. Pouco mais de quinze anos depois, estava flagrando uma estrela que explodia a milhões de anos-luz.
Quem é Duília de Mello: resumo rápido
- Nasceu: em 27 de novembro de 1963, em Jundiaí (SP).
- Formação: astronomia na UFRJ, doutorado na USP.
- Onde trabalha: Universidade Católica da América, em Washington.
- Com quem colabora: o Centro Goddard, da NASA.
- O que estuda: como as galáxias se formam e mudam.
- Por onde começar: Vivendo com as Estrelas (2009).
Como Duília de Mello descobriu uma supernova?
Ela estudava galáxias em regiões lotadas do céu, onde uma esbarra na outra. A supernova apareceu no meio desse trabalho.
A SN 1997D chamou atenção por ser fraca demais para o tipo dela. Explosões assim ajudam a entender como estrelas grandes morrem e o que sobra delas.
Para Duília, supernovas “contam a história da gente”. Os elementos químicos do corpo humano, como o carbono e o ferro, foram fabricados dentro de estrelas e espalhados por explosões como essa.
O que são as bolhas azuis?
Em 2008, Duília e a equipe dela encontraram aglomerados de estrelas jovens no espaço entre as galáxias M81 e M82, a cerca de 12 milhões de anos-luz.
Ninguém esperava estrelas nascendo ali, longe de qualquer galáxia, num gás arrancado das galáxias quando elas se esbarraram. A Revista Pesquisa FAPESP chamou o achado de estrelas órfãs.
O apelido que pegou foi outro: bolhas azuis, por causa da cor das estrelas jovens e quentes nas imagens.
O que Duília de Mello faz com a NASA?
Duília colabora com o Centro de Voo Espacial Goddard, da NASA, em Maryland, e participou de alguns dos maiores projetos de observação do céu:
- Hubble – equipe do Campo Profundo Sul, em 1998;
- Campo Ultraprofundo – imagens em ultravioleta do Hubble;
- GALEX – a maior galáxia espiral conhecida, em 2013;
- CANDELS – o maior levantamento já feito com o Hubble.
As imagens de campo profundo são fotos de um pedaço minúsculo do céu, com milhares de galáxias. É uma viagem no tempo: a luz das mais distantes saiu delas há bilhões de anos. Olhar ainda mais longe é a missão do telescópio James Webb, cuja construção aparece no documentário Unknown: A Máquina do Tempo Cósmica.
Na Universidade Católica, além de professora de física, ela ocupa desde 2019 a vice-reitoria de estratégias globais.
O que é o projeto Mulher das Estrelas?
Em 2016, Duília criou o Mulher das Estrelas, projeto que leva a astronomia a escolas e eventos no Brasil, com foco em meninas.
Em 2018 e em 2019, falou para cerca de 6 mil estudantes de ensino médio no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Escreve para a revista Galileu e lançou livros para leigos e crianças.
O recado que repete é simples: ser genial é se dedicar ao estudo. Com isso, ela tenta desmontar a ideia de que ciência é coisa para poucos.
A trajetória dela continua a história contada no texto sobre mulheres na ciência, e conversa com a de Mary Somerville, que dois séculos antes também explicava o céu para quem estava fora da academia.
O que Duília de Mello cobra dos cientistas?
Numa entrevista ao Jornal do Brasil, em 2019, ela foi direta com a própria classe:
- comunicar – cientista precisa falar com o público;
- educar o jovem – formar gente para a ciência;
- começar cedo – estimular o interesse ainda na infância;
- abrir a porta – mostrar que “mulher pode fazer o que quiser”.
“Espero que todos os cientistas acordem”, disse. É a mesma aposta de divulgadores como Carl Sagan e Marcelo Gleiser: ciência que não chega às pessoas fica pela metade.
Em 2014, a revista Época pôs Duília entre os cem brasileiros mais influentes do ano. Em 2020, recebeu a Ordem de Rio Branco. A menina que fazia perguntas sem resposta virou a astrônoma que vai às escolas responder às dos outros.
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