Mary Somerville: a mulher que fez a ciência precisar de um nome novo

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Mary Somerville foi a cientista escocesa que traduziu Laplace, escreveu livros usados em Cambridge e mostrou que as ciências físicas formam um todo. Foi na resenha de um livro dela que a palavra inglesa “scientist” apareceu impressa pela primeira vez.


Escócia, fim do século XVIII. Uma menina de uns treze anos folheia uma revista de moda feminina e, no meio dos moldes de vestido, encontra um quebra-cabeça cheio de xis e ípsilons. Ela pergunta o que é aquilo. Alguém responde: álgebra. E ela fica com a palavra na cabeça.

Só que estudar matemática, para uma moça daquela época, era considerado perigoso para a saúde. Quando descobriu que a filha passava as noites lendo Euclides à luz de vela, o pai teria dito que era preciso pôr um fim naquilo, ou Mary acabaria numa camisa de força. Os empregados foram proibidos de lhe dar velas.

Não adiantou. Mary decorou os livros e passou a resolver os problemas de cabeça, no escuro. Décadas depois, aquela menina teria o nome gravado numa faculdade de Oxford que, no tempo dela, jamais a aceitaria como aluna.

Quem foi Mary Somerville: resumo rápido

  • Nasceu: em 26 de dezembro de 1780, em Jedburgh, na Escócia.
  • Morreu: em 29 de novembro de 1872, em Nápoles, aos 91 anos.
  • Área: matemática, astronomia e divulgação científica.
  • Formação: autodidata, depois de um único ano num internato.
  • A ideia que deixou: astronomia, física, química e geologia são partes de um mesmo conjunto de leis.
  • Por onde começar: On the Connexion of the Physical Sciences (1834).

Como Mary Somerville conseguiu estudar ciência?

A vida adulta começou sem muito espaço para os livros. Em 1804, Mary se casou com o capitão Samuel Greig, que não via graça nenhuma no interesse dela pela matemática. Mas ele morreu em 1807, e a herança lhe deu uma coisa rara para uma mulher do início do século XIX: independência financeira.

Foi daí que a história virou. Em 1812, ela se casou com o primo William Somerville, médico militar, e o segundo marido era o oposto do primeiro. Buscava livros para ela, copiava manuscritos e a apresentava a outros cientistas. Ela chamou o casamento de “a grande felicidade da minha vida”, e não era exagero: com o apoio certo, uma autodidata virou uma das cientistas mais respeitadas da Europa.

De onde veio a palavra “cientista”?

Em 1827, veio um convite ousado. Uma sociedade dedicada a difundir conhecimento pediu a Mary que traduzisse a Mecânica Celeste de Pierre-Simon Laplace, obra densíssima, construída sobre a física de Isaac Newton, que pouca gente na Inglaterra conseguia acompanhar.

Ela foi além da tradução. Explicou, completou e reescreveu, e o resultado, The Mechanism of the Heavens (1831), acabou adotado como livro-texto em Cambridge.

Três anos depois, veio o livro mais importante, On the Connexion of the Physical Sciences (1834). A tese era de uma ousadia enorme para a época: as ciências, que começavam a se separar em especialidades, eram manifestações de leis conectadas. E aqui entra uma curiosidade famosa.

Ao resenhar o livro, o filósofo William Whewell sugeriu uma palavra nova para quem estudava a natureza em geral: scientist. Foi na resenha do livro de uma mulher autodidata que a palavra usada até hoje para quem faz ciência apareceu impressa pela primeira vez.

Qual a relação entre Mary Somerville e Ada Lovelace?

Nos anos 1830, Mary virou amiga e mentora de uma jovem matemática, filha de Lord Byron: Ada Lovelace. As duas trocavam cartas, estudavam juntas e frequentavam o mesmo círculo em que circulava Charles Babbage.

Repare no que isso significava para Ada. Ter por perto uma mulher que vivia de ciência, publicava e era respeitada mostrava que o caminho existia. As Notas que Ada escreveria em 1843 sobre a Máquina Analítica devem alguma coisa a esse exemplo.

Qual é o legado de Mary Somerville?

Mary continuou produzindo até o fim. Publicou Physical Geography em 1848 e, aos 89 anos, On Molecular and Microscopic Science. Morreu em Nápoles, em 1872, revisando um texto sobre matemática. O reconhecimento veio ainda em vida, o que era raro:

  • Royal Astronomical Society: em 1835, ela e Caroline Herschel foram as primeiras mulheres admitidas como membros honorários.
  • Oxford: o Somerville College, fundado em 1879 para mulheres, leva o nome dela.
  • Dinheiro no bolso: desde 2017, o rosto dela estampa a nota de 10 libras do Royal Bank of Scotland.

A biografia completa está na Britannica. E o post Mulheres na ciência reúne outras trajetórias que também precisaram driblar a época. Entre as astrônomas de hoje, a brasileira Duília de Mello também faz da divulgação parte do trabalho.

Mary estudou escondida e publicou contra a corrente. No fim, viveu o bastante para ver os livros dela ensinados em universidades que nunca teriam aberto a porta para ela.

Críticas a Mary Somerville

O lugar de Somerville na história da ciência é o de grande intérprete, e é daí que vêm as ressalvas:

  • pouca pesquisa própria: o grande mérito dela foi organizar e explicar a ciência da época, e as descobertas originais foram raras;
  • o experimento de 1826: o único trabalho experimental dela, sobre a luz violeta magnetizar agulhas de aço, publicado pela Royal Society, nunca foi confirmado por outros pesquisadores.

A escassez de descobertas próprias tem explicação. Somerville não podia frequentar universidades nem sociedades científicas, fechadas às mulheres, e fez ciência com os livros que conseguia ler em casa.


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