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Descartes e Turing tentaram responder à mesma pergunta, com três séculos de distância: o que é pensar, e como saber se alguém, ou alguma coisa, pensa? Descartes procurou a resposta dentro da mente; Turing, no comportamento observado de fora.
Holanda, 1637. René Descartes publica o Discurso do Método e, num trecho que quase ninguém lê, faz um exercício curioso. Imagina autômatos tão bem construídos que imitassem o corpo humano em todos os movimentos. Como distinguir uma dessas máquinas de uma pessoa de verdade?
A resposta dele: pela conversa. Uma máquina até poderia soltar palavras quando alguém apertasse um botão, mas nunca conseguiria arranjá-las de forma a responder, com sentido, a qualquer coisa dita diante dela.
Agora avance o relógio. Manchester, 1950. Alan Turing publica um artigo propondo exatamente um teste de conversa para decidir se uma máquina pensa. Descartes inventou o critério para dizer que máquinas não pensam; Turing usou o mesmo critério para abrir a possibilidade de que pensem.
Descartes e Turing: resumo rápido
- René Descartes (1596–1650): filósofo francês, autor de “penso, logo existo”. Para ele, a mente é imaterial, e máquina nenhuma pensa.
- Alan Turing (1912–1954): matemático britânico, pai da ciência da computação. Para ele, se uma máquina conversa como um ser pensante, a pergunta sobre o que há dentro dela perde força.
- A pergunta em comum: como saber se algo pensa?
- Os textos-chave: Meditações (1641), de Descartes, e “Computing Machinery and Intelligence” (1950), de Turing.
- Por onde começar: os perfis de René Descartes e de Alan Turing, aqui no blog.
O que significa “penso, logo existo”?
Em 1641, nas Meditações, Descartes resolveu duvidar de tudo o que desse para duvidar. Os sentidos enganam. O sonho pode parecer vigília. Até a matemática poderia ser truque de um gênio maligno. E, no fim da faxina, sobrou uma coisa de pé: o próprio ato de duvidar. Se ele duvidava, pensava; se pensava, existia.
Repare que essa prova só funciona em primeira pessoa. Cada um sabe que pensa porque vive o próprio pensamento, mas ninguém de fora consegue verificar isso. Foi daí que Descartes chegou ao dualismo: a mente, coisa pensante e imaterial, de um lado; o corpo, máquina de carne e engrenagem, do outro.
A consequência é dura para as máquinas. Se pensar é privilégio de uma substância imaterial, nenhum mecanismo, por mais esperto, pensa de verdade. No máximo, imita.
O que é o Teste de Turing?
Turing virou a pergunta de cabeça para baixo. Em vez de perguntar o que acontece dentro da máquina, perguntou o que dá para observar. O “jogo da imitação” tem regras simples:
- um juiz conversa, só por escrito, com dois interlocutores que não vê;
- um deles é uma pessoa, e o outro, uma máquina;
- no fim, o juiz precisa dizer quem é quem.
Se não conseguir, com que direito vai negar que a máquina pensa?
A jogada de Turing era pragmática, e tinha um argumento esperto por trás. Ninguém prova que outra pessoa pensa olhando por dentro dela. A gente conclui isso pela conversa, pelo comportamento, pelas respostas. Se esse critério vale entre humanos, por que não valeria para uma máquina? Turing chegou a prever que, por volta do ano 2000, computadores enganariam juízes com certa frequência numa conversa curta.
O que Descartes e Turing dizem sobre a inteligência artificial?
Mas há um ponto em que os dois se encontram, e ele costuma passar batido: nenhum tratou o pensamento como coisa simples. Descartes levou a pergunta tão a sério que duvidou da existência do mundo. Turing, tão a sério que trocou a metafísica por um experimento.
E a inteligência artificial generativa jogou lenha nessa fogueira. Hoje há máquinas que conversam bem o bastante para passar em versões do teste de Turing, o que dá um ponto para ele.
Só que a pergunta de Descartes, se há alguém lá dentro, continua sem resposta, e é por aí que vão as críticas de Noam Chomsky aos modelos de linguagem e o debate do post IA não é “inteligente” nem “artificial”.
E há quem leve a pergunta um passo adiante: um artigo da revista Teccogs, da PUC-SP, parte do texto de Turing para perguntar se uma máquina poderia, além de pensar, desejar.
O artigo original de Turing pode ser lido na revista Mind, e o verbete sobre o teste de Turing na Stanford Encyclopedia of Philosophy mostra como o debate evoluiu desde então.
Descartes e Turing nunca se leram, viveram em mundos diferentes e chegaram a respostas opostas. Mesmo assim, fizeram a mesma pergunta, e ela continua aberta.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte de que lado você fica: o de Descartes ou o de Turing.