Oswaldo Cruz: quem foi e o que a Revolta da Vacina tem a ver com ele

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Em 1904, o Rio se revoltou contra a vacina que ele defendia. Três anos depois, Oswaldo Cruz ganhou medalha de ouro em Berlim. Quem foi o médico, o que fez e por que os métodos dele rendem debate.


Berlim, 1907. No 14º Congresso Internacional de Higiene e Demografia, um médico brasileiro de 35 anos recebe a medalha de ouro pelo saneamento do Rio de Janeiro.

No mesmo ano, a febre amarela, flagelo da capital havia décadas, é dada como controlada.

Três anos antes, o mesmo homem tinha sido xingado nas ruas, caricaturado nos jornais e posto no centro de uma revolta que deixou 30 mortos.

Oswaldo Cruz viveu só 44 anos. Nesse tempo, ergueu o instituto que hoje leva o nome dele e mudou a forma como o Brasil lida com epidemias.

Quem foi Oswaldo Cruz: resumo rápido

  • Nasceu: em 5 de agosto de 1872, em São Luiz do Paraitinga (SP).
  • Morreu: em 11 de fevereiro de 1917, em Petrópolis (RJ).
  • Formação: medicina no Rio e microbiologia no Instituto Pasteur, em Paris.
  • Onde trabalhou: em Manguinhos, no instituto que hoje tem o nome dele.
  • A ideia que deixou: epidemia se combate com laboratório e saúde pública.
  • Por onde começar: A Revolta da Vacina, de Nicolau Sevcenko.

O que Oswaldo Cruz fez contra as epidemias?

Ao voltar de Paris, Oswaldo encontrou o porto de Santos tomado pela peste bubônica e entrou no combate. Em 25 de maio de 1900, o governo criou o Instituto Soroterápico Federal, numa fazenda em Manguinhos, para produzir soro contra a peste.

Ele assumiu a direção técnica com menos de 30 anos. Em 1903, virou diretor-geral de Saúde Pública e atacou as três doenças que assombravam o Rio:

  • peste bubônica – caça aos ratos e notificação obrigatória;
  • febre amarela – brigadas contra os focos do mosquito;
  • varíola – vacinação obrigatória.

A aposta no mosquito foi ousada. Muitos médicos ainda achavam que a febre amarela passava pelo contato com doentes ou objetos, e Oswaldo seguiu a teoria nova, comprovada pouco antes em Cuba.

O que foi a Revolta da Vacina?

Em novembro de 1904, a lei da vacinação obrigatória contra a varíola virou estopim de quase uma semana de conflitos no Rio. O saldo oficial foi de 30 mortos, 110 feridos e 945 presos, e o governo suspendeu a obrigatoriedade.

A revolta tinha raízes que iam além da vacina. Ao mesmo tempo, o prefeito Pereira Passos derrubava cortiços para abrir avenidas, empurrando os pobres do centro, num processo que hoje se chamaria gentrificação.

É a leitura do historiador Nicolau Sevcenko, que desmonta tanto a versão do povo ignorante quanto a do povo que tinha razão.

O que Oswaldo Cruz fez na Amazônia?

Depois de deixar a Saúde Pública, em 1909, Oswaldo voltou o trabalho para o interior. Segundo a Fiocruz, ele comandou a campanha que eliminou a febre amarela no Pará e fez o saneamento que permitiu terminar a ferrovia Madeira-Mamoré, parada pelas mortes de trabalhadores por malária.

Nesses mesmos anos, sob a direção dele, um jovem médico mineiro de Manguinhos descobriu uma doença nova e deu ao parasita o nome de Trypanosoma cruzi, em homenagem ao chefe. O médico era Carlos Chagas.

O que é a Fiocruz?

Em 1908, o instituto de Manguinhos passou a se chamar Instituto Oswaldo Cruz. O prédio principal, o castelo em estilo mourisco que se vê da Avenida Brasil, foi pensado por ele como um palácio das ciências e construído entre 1905 e 1918.

Daquele núcleo nasceu a Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, hoje uma das maiores instituições de pesquisa em saúde da América Latina. A Revista Pesquisa FAPESP conta essa trajetória de mais de um século.

Críticas a Oswaldo Cruz

Oswaldo é herói da saúde pública brasileira, e os métodos dele têm um lado duro:

  • a força – brigadas entravam nas casas com a polícia;
  • a conta – quem pagou a reforma foram os pobres;
  • a conversa – a vacina chegou sem explicação ao público;
  • a dureza – o atestado seria exigido até para emprego.

O argumento a favor dele também pesa. Em 1908, sem a obrigatoriedade, uma nova epidemia de varíola matou milhares no Rio, e a procura pela vacina disparou.

A lição que ficou atravessa o século: ciência certa, imposta sem diálogo, gera resistência. É uma discussão próxima da que aparece em por que confiar na ciência.

Em 1913, Oswaldo foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Doente dos rins, mudou-se para Petrópolis, foi eleito prefeito e morreu lá aos 44 anos. Três dias depois, Carlos Chagas assumiu Manguinhos.


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