O mapa não é o território: o que isso significa na ciência?

A expressão “o mapa não é o território” resume o limite de toda teoria científica: cada modelo representa uma parte da realidade, com uma missão definida, e nenhum deles consegue ter o tamanho do mundo que descreve.

Um mapa do Brasil desenhado no século XVII mostra um litoral detalhado e um interior quase em branco, com rios que terminam em lugar nenhum. O mapa atual, feito com imagens de satélite, traz cada município e cada estrada. Entre um e outro, o território quase não mudou: as serras, os rios e a costa são os mesmos. Mudou a capacidade de olhar para ele.

Marcelo Gleiser usa esse contraste, no curso Pense Como Cientista, para apresentar sua metáfora favorita sobre o funcionamento da ciência. A frase que a resume é anterior a ele: foi cunhada pelo filósofo polonês-americano Alfred Korzybski, numa conferência de 1931.


O mapa não é o território: todo mapa escolhe o que mostrar

Um mapa de Roma feito para turistas mostra as ruas principais, os parques em verde e os monumentos. Uma imagem de satélite da mesma cidade mostra telhados, carros e copas de árvores. As duas são úteis, e nenhuma é Roma: cada uma escolheu o que mostrar conforme o uso que se espera dela.

O GPS do celular também é um mapa, e dos mais sofisticados. Depende de cerca de trinta satélites em órbita e de correções da relatividade de Einstein, sem as quais a posição calculada acumularia um erro de uns dez quilômetros por dia. Mesmo com tudo isso, localiza o usuário com margem de alguns metros. Um modelo científico trabalha da mesma forma: representa uma parte da realidade, com uma finalidade, dentro de uma precisão.

O mapa do tamanho do império

O escritor argentino Jorge Luis Borges levou a ideia ao limite num conto de um parágrafo, Do rigor na ciência, publicado em 1946. O texto se apresenta como trecho de um viajante do século XVII. Num império sem nome, os cartógrafos aperfeiçoaram tanto a arte que o mapa de uma província ocupava uma cidade, e o do império, uma província inteira. Insatisfeitos, fizeram um mapa do tamanho do império, coincidente com ele ponto por ponto. As gerações seguintes o acharam inútil e o entregaram ao sol e aos invernos. Restaram farrapos no deserto, habitados por animais e mendigos.

Gleiser lê o conto como crítica ao cientificismo, a expectativa de que a ciência produza uma cópia completa da realidade. Um mapa que tenta mostrar tudo perde a razão de existir, porque consultá-lo daria o mesmo trabalho que percorrer o território.

A gravidade em quatro mapas

A história da gravidade oferece quatro mapas do mesmo território, cada um mais abrangente que o anterior:

  • Aristóteles (século IV a.C.). Os corpos pesados buscam seu lugar natural, sempre na vertical. Explicava a pedra que cai; ficava sem resposta para a curva que qualquer pedra arremessada desenha.
  • Galileu (1638). O projétil soma um movimento horizontal constante a uma queda acelerada, e o resultado é uma parábola. Descrevia os movimentos perto do chão, sem dizer por que as coisas caem.
  • Newton (1687). A força que derruba a maçã mantém a Lua em órbita: a Lua é um projétil que cai sem nunca atingir a Terra. Explicava marés, órbitas e cometas, e falhava por pouco em Mercúrio.
  • Einstein (1915). A gravidade aparece como curvatura do espaço-tempo. Explica Mercúrio, buracos negros e ondas gravitacionais, e ainda não se combina com a física quântica.

O mapa de Isaac Newton segue em uso para mandar sondas ao espaço, dentro do seu limite de validade.


Ontologia e epistemologia

Dois termos da filosofia ajudam a separar o mapa do território:

  • Ontologia: o estudo do que existe. A resposta sobre de que o mundo é feito mudou muitas vezes: átomos indivisíveis no século XIX, prótons e elétrons no início do XX, quarks hoje, além de uma matéria escura que ninguém sabe o que é.
  • Epistemologia: o estudo de como se conhece, com que instrumentos, métodos e limites.

Para Gleiser, a epistemologia vem antes. Só se afirma algo sobre o que existe a partir do que se consegue observar e medir, e a resposta ontológica muda sempre que os instrumentos mudam. As duas áreas aparecem no post O que é Filosofia da Ciência?.

Repare que a metáfora corta em duas direções. Contra quem trata a ciência como dona da verdade, lembra que todo modelo é parcial. Contra quem descarta a ciência por ser parcial, lembra que um mapa incompleto ainda leva de São Paulo a Santos, e que nenhum outro leva melhor. Opiniões também são mapas: comparar o próprio com o de outro viajante costuma melhorar os dois.


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