Mitos sobre Isaac Newton: a maçã e os ombros de gigantes

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Os mitos sobre Isaac Newton mais famosos são dois: a maçã que teria caído na cabeça dele e a frase sobre enxergar mais longe “sobre ombros de gigantes”. As duas têm fundo real, mas a versão contada é outra.

Kensington, Londres, abril de 1726. Um Newton de 83 anos janta com o jovem médico William Stukeley e, depois, os dois vão tomar chá no jardim, à sombra de umas macieiras. Lá pelas tantas, o velho cientista conta que foi numa situação parecida, décadas antes, que lhe veio a ideia da gravitação: a queda de uma maçã o fez pensar por que ela cai sempre na direção do centro da Terra.

Stukeley anotou tudo e publicou o relato em 1752, 25 anos depois da morte de Newton. Repare no detalhe: na versão de quem ouviu a história da boca do próprio Newton, a maçã cai no chão, sem acertar ninguém.

Essa é a primeira lenda. A segunda vem de uma carta, e tem um possível veneno escondido.


Mitos sobre Isaac Newton: resumo rápido

  • Mito 1: uma maçã caiu na cabeça de Newton e ele descobriu a gravidade na hora.
  • O que se sabe: o próprio Newton, já idoso, contou que a queda de uma maçã o fez pensar na gravidade, mas sem pancada e sem revelação instantânea.
  • Mito 2: Newton inventou a frase “se vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes”.
  • O que se sabe: a imagem circula desde o século XII, e Newton a usou numa carta a um rival.
  • Onde fica a macieira: em Woolsthorpe, na Inglaterra, casa da família de Newton, onde a árvore descendente da original ainda está de pé.

A maçã de Newton: o que aconteceu de verdade

A história tem uma base razoável. Em 1665 e 1666, com a peste fechando a Universidade de Cambridge, Newton voltou para a fazenda da família em Woolsthorpe. Foram os anos mais produtivos da vida dele, e é plausível que uma maçã caindo no pomar tenha servido de gatilho para uma pergunta: se a gravidade puxa a maçã, até onde ela alcança? Chegaria à Lua?

Só que entre a maçã e a teoria pronta passaram-se mais de vinte anos:

  • 1665–1666: a pergunta nasce no pomar de Woolsthorpe;
  • 1684: o astrônomo Edmond Halley visita Newton e pergunta que órbita um planeta teria sob a atração do Sol;
  • 1687: a lei da gravitação universal aparece nos Principia, depois de um trabalho matemático enorme.

Por isso o historiador que olha para a maçã vê, no máximo, o começo de uma pergunta. A cena da fruta batendo na cabeça, com a ideia pronta em seguida, é invenção da cultura popular, e das boas. O mesmo tipo de lenda cerca a torre de Pisa, como conta o post sobre as contribuições de Galileu.

“Ombros de gigantes”: Newton inventou a frase?

A frase é bonita, e costuma ser citada como prova da humildade de Newton. Mas ela é bem mais antiga. No século XII, o filósofo Bernardo de Chartres já comparava os estudiosos de seu tempo a anões sentados nos ombros de gigantes: enxergavam mais longe graças à altura dos gigantes, mesmo com a vista mais fraca. A imagem foi registrada por João de Salisbury, em 1159, e circulou pela Idade Média inteira.

Newton a usou em fevereiro de 1676, numa carta a Robert Hooke, e é aí que entra o possível veneno. Os dois viviam às turras, disputando a prioridade de ideias sobre a luz. E Hooke era baixinho e tinha as costas curvadas. Alguns historiadores leem na frase uma alfinetada: os “gigantes” seriam outros, e Hooke estaria fora da lista. Outros acham que era só cortesia de carta. A dúvida continua.


O que os mitos sobre Newton ensinam

Essas duas histórias mostram uma coisa sobre a ciência: ideias grandes raramente nascem num estalo, e quase nunca do nada. Levam anos para amadurecer e conversam com quem veio antes. A maçã e os gigantes funcionam como símbolos, desde que ninguém os tome ao pé da letra.

A trajetória completa do cientista, do menino criado pela avó ao presidente da Royal Society, está no perfil de Isaac Newton. A casa de Woolsthorpe, com a macieira, é administrada pelo National Trust, e a longa história da frase dos gigantes, de Bernardo de Chartres à possível alfinetada em Hooke, aparece numa coluna do Jornal da USP.

Newton continua monumental, com ou sem maçã. Talvez esse seja o maior elogio: o que ele construiu se sustenta sozinho, sem precisar da lenda.


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