Ler Mary Shelley e assistir a uma adaptação de Frankenstein são experiências diferentes. A comparação faz sentido — desde que o filme não seja tratado como uma prova de memória do livro.
“Gostei, mas o livro é melhor.”
A frase aparece com tanta frequência nas conversas sobre adaptações que quase parece uma conclusão automática.
Quando uma história conhecida chega ao cinema, muitas vezes o filme começa a ser avaliado antes mesmo de ser compreendido em seus próprios termos.
Com Frankenstein, a comparação é ainda mais complicada. O romance de Mary Shelley foi publicado em 1818 e atravessou dois séculos de peças, filmes, séries, ilustrações e versões populares.
Muitas pessoas conhecem a criatura sem nunca ter lido o livro — e, às vezes, acreditam conhecer o livro porque já viram o monstro no cinema.
A adaptação de Guillermo del Toro reacendeu essa discussão ao preservar partes importantes do romance e, ao mesmo tempo, modificar personagens, relações e o sentido de seu desfecho.
O diretor não apresenta o filme como uma transcrição de Shelley, mas como uma interpretação pessoal da história.
O leitor já chega com um filme na cabeça
Durante a leitura, cada pessoa constrói sua própria versão da história.
O laboratório, a criatura, o cenário, a voz de Victor e até o ritmo dos acontecimentos ganham forma na imaginação.
Quando surge uma adaptação, essa versão mental encontra outra, criada pelo diretor, pelos atores, pelos cenógrafos e por toda a equipe do filme.
É natural que exista algum estranhamento.
O problema aparece quando a diferença é tratada imediatamente como erro. O personagem não se parece com o imaginado, uma passagem foi cortada ou o final ganhou outro sentido — e isso já basta para declarar que a adaptação “traiu” o livro.
Nem toda mudança funciona. Algumas realmente simplificam personagens, enfraquecem conflitos ou retiram elementos importantes. Mas uma alteração não é ruim apenas por ser uma alteração.
Um filme precisa escolher
Um romance pode acompanhar pensamentos, mudar de narrador, interromper a ação e dedicar páginas inteiras a uma lembrança. O cinema trabalha com duração, montagem, imagem, som, atuação e ritmo.
Adaptar exige escolher.
Personagens podem ser combinados. Episódios podem desaparecer. Diálogos precisam assumir funções antes realizadas pela narração. Certos conflitos ganham mais espaço, enquanto outros são reduzidos.
Essas decisões ficam claras nas diferentes versões de Frankenstein.
O filme de James Whale, de 1931, afastou-se bastante do romance, mas criou algumas das imagens mais influentes do monstro no cinema.
Kenneth Branagh tentou recuperar mais elementos de Mary Shelley em Frankenstein de Mary Shelley, de 1994, sem deixar de transformar a história num espetáculo romântico e trágico.
Guillermo del Toro seguiu outro caminho.
Sua versão enfatiza a relação entre criador e criatura como um vínculo entre pai e filho, levando o conflito para um terreno mais afetivo e conciliador do que o encontrado no romance.
Essas adaptações não substituem o livro. Também não fazem exatamente o mesmo trabalho.
As diferenças entre quatro versões importantes estão reunidas em Frankenstein na tela: 4 adaptações que reinventaram o monstro.
Fidelidade não é o único critério
A fidelidade pode ser um critério de avaliação, mas dificilmente deveria ser o único.
Um filme pode conservar muitos acontecimentos do livro e ainda assim perder sua atmosfera, sua ambiguidade ou a força de seus personagens.
Outro pode alterar bastante o enredo e encontrar uma maneira interessante de traduzir para o cinema um conflito presente na obra.
Por isso, vale separar duas perguntas:
- Quanto o filme preserva do livro?
- O que ele consegue fazer com aquilo que decidiu preservar ou modificar?
A primeira ajuda a identificar as mudanças. A segunda permite avaliar o resultado.
No caso de Del Toro, quem conhece bem Mary Shelley perceberá que o filme reorganiza relações familiares, modifica o papel de Elizabeth e conduz Victor e a criatura para uma conclusão diferente.
Essas escolhas podem agradar ou não, mas pertencem a uma proposta reconhecível do diretor, marcada pela compaixão por criaturas rejeitadas e por relações imperfeitas entre pais e filhos.
Essa leitura está desenvolvida em Frankenstein, de Guillermo del Toro: o criador, a criatura e o abandono.
Então o livro é melhor?
Às vezes, sim.
Existem adaptações que empobrecem a história, retiram justamente aquilo que a tornava interessante ou transformam personagens complexos em figuras superficiais.
Preferir o livro não é sinal de resistência ao cinema. Mas a comparação precisa considerar o que cada obra tentou realizar.
O romance de Mary Shelley oferece acesso à linguagem, à estrutura narrativa e às ambiguidades construídas pela autora.
Uma adaptação oferece a leitura de outras pessoas sobre esse material — uma leitura feita com imagens, corpos, cenários, sons e escolhas próprias.
O livro não precisa perder para que o filme funcione. O filme também não precisa reproduzir cada página para justificar sua existência.
Com Frankenstein, isso se torna especialmente visível.
A criatura que aparece no romance, a figura interpretada por Boris Karloff e o personagem de Jacob Elordi pertencem à mesma história, mas não produzem a mesma experiência.
Em vez de procurar qual versão elimina as demais, vale observar o que cada uma revela sobre seu próprio tempo — e sobre aquilo que ainda reconhecemos em Victor e em sua criação.
Se você também costuma comparar uma adaptação com o filme que já havia criado durante a leitura, compartilhe este texto com alguém que sempre termina a sessão dizendo que o livro era melhor.
