Frankenstein, de Guillermo del Toro: o criador, a criatura e o abandono

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Guillermo del Toro reencontra uma história que o acompanha desde a infância e a transforma num drama gótico sobre pais, filhos e responsabilidades recusadas. Sua versão é visualmente grandiosa, emocionalmente direta e bastante pessoal.

Homem em um laboratório segurando um instrumento científico, em cena do filme Frankenstein, de Guillermo del Toro

Ficha Resumida

– Título original: Frankenstein
– Duração: cerca de 150 minutos
– Ano: 2025
– País: Estados Unidos
– Direção: Guillermo del Toro
– Distribuição: Netflix, com estreia em Veneza em 30 de agosto de 2025

Do que trata o Frankenstein de Guillermo del Toro?

Del Toro passou décadas falando da importância de Frankenstein na formação dele. Ao levar o romance de Mary Shelley à tela, deixou de lado tanto a versão definitiva quanto a reprodução obediente do livro.

O filme estreou na Netflix em novembro de 2025, com Oscar Isaac como Victor Frankenstein, Jacob Elordi como a criatura e Mia Goth. A narrativa começa no Ártico e se divide entre os relatos de Victor e os da criação dele.

A estrutura vem de Shelley; a interpretação é atravessada pelo cinema de Del Toro: criaturas rejeitadas, famílias imperfeitas e personagens que confundem amor, posse e autoridade.

Victor quer criar, mas não sabe cuidar

Oscar Isaac faz de Victor um cientista brilhante, teatral e convencido da própria excepcionalidade, que transforma a pesquisa em demonstração pública: precisa provar que vence a morte e que ninguém ao redor está à altura dele.

Quando a experiência funciona, Victor descobre que criar vida é mais simples do que conviver com ela. A criatura chega sem estar pronta: aprende movimentos, sons e palavras aos poucos, e procura nele orientação, encontrando impaciência e rejeição.

É aí que Del Toro concentra a leitura dele: Victor fracassa por acreditar que pode abandonar a criatura quando ela já não corresponde ao projeto original.

A criatura começa como uma criança

Jacob Elordi constrói a criatura pelo corpo. Nos primeiros momentos ela parece descobrir cada movimento: observa Victor, tenta repetir palavras e se aproxima do mundo sem entender por que a aparência dela provoca medo.

Del Toro descreveu o percurso como passagem da infância para a maturidade: a criatura aprende a linguagem, conhece a beleza e percebe a crueldade dos humanos.

Quando ela conta a própria história, o sentido do filme muda: o que Victor apresentava como experiência malsucedida vira o relato de alguém colocado no mundo sem nome, proteção ou pertencimento.

A criatura comete atos violentos, e a raiva dela tem história.

Uma relação entre pai e filho

Del Toro torna explícita uma leitura que outras adaptações apenas sugerem: Victor e a criatura vivem uma relação de paternidade. O vínculo nasce da responsabilidade de quem pôs no mundo uma vida incapaz de se orientar sozinha, com afeto ou sem ele.

Victor oferece existência e recusa o que vem depois dela – escolha que aproxima o filme de Pinóquio, do próprio Del Toro.

Gepeto reconhece o filho que recebeu; Victor insiste em tratar a criatura como erro descartável.

Uma criatura diferente das versões clássicas

Elordi escapa da aparência popularizada por Boris Karloff. A criatura surge alta, pálida e marcada por linhas de escultura reconstruída, sem os parafusos, a cabeça quadrada e os movimentos pesados que viraram símbolo do personagem.

Victor percorre o caminho visual oposto: começa elegante e seguro, e a violência sob a figura do grande cientista fica evidente conforme a obsessão cresce.

No Oscar de 2026, o filme venceu em figurino, maquiagem e penteados, e design de produção. Esses trabalhos constroem a presença da criatura e o mundo visual que a cerca.

O filme dispensa perguntar quem é o verdadeiro monstro; mostra quem tinha poder, quem dependia dele e quem decidiu abandonar o outro.

O que Del Toro altera no romance

O que o filme preserva:

  • o Ártico e a alternância entre os relatos;
  • o aprendizado da criatura;
  • o confronto entre criação e responsabilidade.

O que ele muda:

  • relações familiares, com funções de personagens combinadas;
  • uma conclusão emocionalmente distinta da escrita por Shelley;
  • um tom mais conciliador.

Del Toro afirmou que não pretendia ilustrar o romance de maneira literal: o interesse dele estava em traduzir para o cinema os ritmos e as inquietações do livro.

Quem nunca leu Shelley encontra um drama gótico compreensível por conta própria; leitores próximos do romance percebem as condensações.

Por que essas diferenças dispensam transformar livro e filme em adversários é o assunto de O livro é sempre melhor que o filme? Frankenstein e o peso das expectativas.

Vale a pena assistir o Frankenstein de del Toro?

Vale, e vale mais para quem conhece o romance – o inverso do habitual. São 150 minutos de imagem impecável com uma leitura clara demais do livro, e é nessa clareza que está o que se ganha e o que se perde.

  • Para quem leu Mary Shelley – assista pelas escolhas: o que del Toro altera rende mais do que o que ele preserva.
  • Para quem procura ambiguidade – calibre a expectativa, porque o filme resolve moralmente o que o romance deixa em aberto.
  • Para quem quer o contexto – Frankenstein na tela: 4 adaptações que reinventaram o monstro mostra de onde vem a imagem que o público tem da criatura.

Em consulta de 14 de outubro de 2026, o Rotten Tomatoes registrava 85% de aprovação em 381 resenhas. Seu consenso destaca a força visual do filme e a atuação de Jacob Elordi.

As ressalvas se concentram no excesso – a Variety achou o projeto carregado e pouco equilibrado, e The Guardian reconheceu a beleza e o melodrama grandioso.

Del Toro trabalha por amplificação, e a intensidade que dá vida nova à história para uns consome, para outros, a ambiguidade que o romance preservava.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – o que pesa mais nesta história, o experimento ou o abandono?


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