Guillermo del Toro reencontra uma história que o acompanha desde a infância e a transforma num drama gótico sobre pais, filhos e responsabilidades recusadas. Sua versão é visualmente grandiosa, emocionalmente direta e bastante pessoal.
Guillermo del Toro passou décadas falando sobre a importância de Frankenstein em sua formação.
Quando finalmente levou o romance de Mary Shelley à tela, não tentou produzir uma versão definitiva nem uma reprodução obediente do livro.
Seu filme estreou na Netflix em novembro de 2025, com Oscar Isaac como Victor Frankenstein, Jacob Elordi como a criatura e Mia Goth em dois papéis ligados à história familiar do protagonista.
A narrativa começa no Ártico e se divide entre os relatos de Victor e de sua criação.
A estrutura vem de Mary Shelley. A interpretação, porém, é inteiramente atravessada pelo cinema de Del Toro: criaturas rejeitadas, relações familiares imperfeitas e personagens que confundem amor, posse e autoridade.
Victor quer criar, mas não sabe cuidar
Oscar Isaac interpreta Victor como um cientista brilhante, teatral e convencido da própria excepcionalidade.
Ele transforma sua pesquisa numa demonstração pública. Precisa provar que consegue superar a morte e também que ninguém ao redor está à sua altura.
Quando a experiência funciona, Victor descobre que criar vida é mais simples do que conviver com ela.
A criatura não nasce pronta. Aprende movimentos, sons e palavras aos poucos. Procura em Victor alguma forma de orientação, mas encontra impaciência, violência e rejeição.
É nesse ponto que Del Toro concentra sua leitura: Victor não fracassa porque a criatura se torna diferente do que ele imaginava. Fracassa porque acredita que pode abandoná-la quando ela deixa de corresponder ao seu projeto.
A criatura começa como uma criança
Jacob Elordi constrói a criatura principalmente pelo corpo.
Nos primeiros momentos, ela parece descobrir cada movimento. Observa Victor, tenta repetir palavras e se aproxima do mundo sem compreender por que sua aparência provoca medo.
Del Toro descreveu esse percurso como uma passagem da infância para a maturidade. A criatura aprende a linguagem, conhece a beleza e também percebe a crueldade dos humanos.
Quando passa a contar sua própria história, o sentido do filme muda.
Aquilo que Victor apresentava como uma experiência malsucedida passa a ser visto como a trajetória de alguém que foi colocado no mundo sem nome, proteção ou pertencimento.
A criatura comete atos violentos, mas não nasce violenta. Sua raiva possui uma história.
Uma relação entre pai e filho
Del Toro torna explícita uma leitura que outras adaptações apenas sugerem: Victor e a criatura vivem uma relação de paternidade.
O vínculo não depende de afeto. Nasce da responsabilidade de quem criou uma vida incapaz de se orientar sozinha.
Victor oferece existência, mas não aceita aquilo que vem depois dela. Deseja controlar a criação sem acompanhá-la em seu aprendizado.
Essa escolha aproxima o filme de Pinóquio por Guillermo del Toro.
Nos dois casos, um criador precisa compreender que dar vida a alguém não concede o direito de determinar tudo o que essa vida será.
Gepeto aprende a reconhecer o filho que recebeu. Victor insiste em tratar a criatura como um erro descartável.
Uma criatura diferente das versões clássicas
Jacob Elordi não reproduz a aparência popularizada por Boris Karloff.
A criatura surge alta, pálida e marcada por linhas que lembram uma escultura reconstruída. A maquiagem evita os parafusos, a cabeça quadrada e os movimentos pesados que se tornaram símbolos do personagem no cinema.
Victor percorre um caminho visual quase oposto.
Começa elegante, admirado e seguro. À medida que sua obsessão cresce, a violência que estava escondida sob a aparência do grande cientista se torna cada vez mais evidente.
O filme não precisa perguntar diretamente quem é o verdadeiro monstro. Ele mostra quem tinha poder, quem dependia desse poder e quem decidiu abandonar o outro.
O que Del Toro altera no romance
O filme preserva o Ártico, a alternância entre os relatos, o aprendizado da criatura e o confronto entre criação e responsabilidade.
Ao mesmo tempo, modifica relações familiares, combina funções de personagens e conduz a história para uma conclusão emocionalmente diferente da escrita por Mary Shelley.
Del Toro afirmou que não pretendia ilustrar o romance de maneira literal.
Seu interesse estava em traduzir para o cinema aquilo que reconhecia como os ritmos e as inquietações do livro, assumindo também sua própria relação com a criatura.
Essas escolhas podem funcionar de maneiras distintas conforme a relação do espectador com a obra original.
Quem nunca leu Mary Shelley provavelmente encontrará um drama gótico visualmente forte, compreensível por conta própria e sustentado pela relação entre Victor e a criatura.
Leitores muito ligados ao romance perceberão mais claramente as condensações, as mudanças de personagens e o tom mais conciliador adotado por Del Toro.
Para discutir justamente por que essas diferenças não precisam transformar livro e filme em adversários, vale seguir para O livro é sempre melhor que o filme? Frankenstein e o peso das expectativas.
Um filme longo, grandioso e bastante direto
Com 2 horas e 32 minutos, o filme exige tempo e alguma disposição para seu ritmo solene.
A recepção crítica foi amplamente favorável ao trabalho visual, à atmosfera gótica e à interpretação de Jacob Elordi.
O resumo das avaliações reunidas pelo Rotten Tomatoes destaca justamente a escala da produção e a atuação do ator.
As ressalvas se concentraram no excesso. A crítica da Variety considerou o projeto carregado e pouco equilibrado, enquanto The Guardian reconheceu sua beleza e seu caráter de melodrama grandioso.
Essa divisão ajuda a situar o filme.
Del Toro não trabalha com sutileza: amplia cenários, emoções, cores e conflitos. Para alguns espectadores, essa intensidade dá nova vida à história; para outros, reduz parte da ambiguidade presente em Shelley.
Ainda assim, é difícil negar a força da produção. O filme venceu o Oscar de melhor figurino, melhor maquiagem e penteados e melhor design de produção.
Del Toro entrega uma adaptação muito boa, mesmo quando se afasta do livro. Para quem chega sem uma relação anterior com o romance, ela pode funcionar como uma apresentação envolvente ao mito.
Para quem conhece a obra de Mary Shelley, a experiência também passa pelas diferenças entre o romance e aquilo que Del Toro decidiu preservar, modificar ou abandonar.
Para conhecer outras reconstruções cinematográficas da criatura, o caminho continua em Frankenstein na tela: 4 adaptações que reinventaram o monstro.
Se este Frankenstein fez você prestar mais atenção ao abandono do que ao experimento, compartilhe o texto com alguém que também saiu do filme pensando na responsabilidade de quem cria.
