Andy Weir transformou uma missão interestelar num laboratório narrativo. Na adaptação para o cinema, observar, medir, testar e corrigir erros importa tanto quanto salvar o Sol.
Um professor de ciências acorda sozinho numa nave, sem recordar seu nome, sua missão ou como chegou ali.
Aos poucos, Ryland Grace descobre que está a quase doze anos-luz da Terra e precisa encontrar uma maneira de impedir o enfraquecimento do Sol.
Lançado no Brasil como Devoradores de Estrelas, Project Hail Mary adapta o romance de Andy Weir, autor de Perdido em Marte.
O filme é dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, tem Ryan Gosling no papel principal e dura 2 horas e 36 minutos.
A história inventa organismos, planetas e tecnologias, mas parte de estrelas reais e de problemas reconhecíveis da exploração espacial.
Seu maior acerto está em mostrar a ciência como processo: Grace observa, formula hipóteses, testa suas ideias e precisa corrigi-las quando os resultados não correspondem ao esperado.

O astrofágio poderia apagar o Sol?
No filme, o astrofágio é um organismo microscópico capaz de absorver energia das estrelas.
Sua multiplicação estaria diminuindo a luminosidade do Sol e ameaçando o clima, a agricultura e os ecossistemas terrestres.
Não existe evidência de uma forma de vida capaz de sobreviver no espaço e consumir energia estelar dessa maneira. Portanto, o astrofágio é uma invenção de Andy Weir.
O Sol também não corre o risco conhecido de começar a se apagar no intervalo apresentado pela história.
Estrelas mudam ao longo de bilhões de anos, e o nosso Sol ainda deverá permanecer em sua fase atual por aproximadamente cinco bilhões de anos.
A licença científica está na origem da crise.
O roteiro, porém, dá ao organismo um ciclo biológico, propriedades e limitações que podem ser investigadas. Ele não resolve qualquer problema conforme a conveniência da história.
A análise científica publicada pela NASA compara o astrofágio aos microrganismos reais transportados involuntariamente pelas espaçonaves e explica por que compreender a vida microscópica será importante em missões de longa duração.
Tau Ceti existe?
Sim. Tau Ceti é uma estrela real, relativamente próxima e semelhante ao Sol.
Está a cerca de doze anos-luz da Terra, distância pequena em termos astronômicos, mas gigantesca para qualquer tecnologia humana atual.
O filme também apresenta Adrian, um planeta associado a esse sistema.
O destino é inspirado em pesquisas reais sobre possíveis exoplanetas ao redor de Tau Ceti, embora alguns sinais inicialmente interpretados como planetas tenham sido posteriormente questionados.
Isso combina com a lógica do próprio filme: uma explicação científica pode parecer convincente durante algum tempo e ser revista quando surgem novos dados ou métodos de análise.
Seria possível viajar até outra estrela?
Com a tecnologia disponível hoje, não.
A luz leva quase doze anos para percorrer a distância entre a Terra e Tau Ceti. Uma nave muito mais lenta levaria um período incomparavelmente maior.
A história contorna esse obstáculo usando o astrofágio também como fonte de energia. Graças a ele, a Hail Mary alcança velocidades muito superiores às permitidas pelos sistemas atuais de propulsão.
Essa solução pertence à ficção, mas o filme considera problemas que muitas aventuras espaciais deixam de lado:
- combustível e massa da nave;
- aceleração e duração da viagem;
- comunicação com a Terra;
- alimentação e sobrevivência da tripulação;
- efeitos de uma missão prolongada sobre o corpo humano.
A NASA já estuda perda de massa óssea, alterações musculares, radiação e outros efeitos da permanência no espaço.
Uma missão interestelar, porém, estaria muito além de qualquer experiência humana realizada até agora. A agência também prestou consultoria informal à produção sobre voo espacial, astrobiologia e astrofísica.
Rocky poderia existir?
A estrela de origem de Rocky, 40 Eridani A, existe.
Já Erid, o planeta apresentado no filme, é ficcional. Um exoplaneta que chegou a ser associado à estrela acabou descartado após novas análises.
A biologia de Rocky é ainda mais especulativa. Ele vive sob pressão e temperatura extremas, não depende da visão e percebe o ambiente principalmente por vibrações.
Sua anatomia e seu metabolismo seguem regras muito diferentes das encontradas na vida terrestre.
Nada comprova que um organismo assim possa existir. Ainda sabemos pouco sobre as formas que a vida poderia assumir fora da Terra.
O interesse científico da personagem está justamente na tentativa de relacionar:
- o corpo às condições do planeta;
- os sentidos ao ambiente;
- a alimentação ao metabolismo;
- a tecnologia às limitações biológicas da espécie.
Rocky não é apenas um humano com aparência alienígena. Sua maneira de perceber e habitar o mundo cria dificuldades concretas de comunicação e convivência com Grace.
Como duas espécies aprenderiam a conversar?
Grace e Rocky não compartilham idioma, corpo, sentidos ou referências culturais.
A comunicação começa pela identificação de padrões. Eles associam sons a objetos, comparam quantidades e constroem um vocabulário usando fenômenos observáveis pelos dois.
O processo é acelerado pelo cinema, especialmente quando Grace passa a compreender a fala de Rocky com grande facilidade.
Mesmo assim, a base é interessante: antes de discutir ideias abstratas, duas espécies precisariam construir referências comuns.
Até as unidades precisam ser comparadas. Um número isolado não informa se estamos falando de distância, tempo, massa ou temperatura.
O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos destacou a importância das medições no filme.
O NIST também chama atenção para uma diferença entre nanograma e miligrama que altera completamente um experimento — e lembra que um erro de unidade pode produzir consequências muito concretas.
O maior acerto está no método científico
Grace não resolve tudo por possuir uma habilidade secreta.
Ele trabalha como alguém diante de um problema desconhecido:
- observa o fenômeno;
- reúne dados;
- propõe uma explicação;
- constrói um teste;
- analisa o resultado;
- corrige a hipótese quando necessário.
É uma representação simplificada do trabalho científico, mas bastante eficiente para o cinema.
O filme também permite que Grace erre.
Alguns testes fracassam, certas suposições estão incompletas e soluções aparentemente seguras produzem novos problemas.
A ciência deixa de ser uma coleção de respostas prontas e passa a funcionar como uma maneira de avançar em meio à incerteza.
Há detalhes questionáveis. O próprio NIST apontou, por exemplo, o uso inadequado de uma centrífuga, que deveria ter sua carga equilibrada para evitar vibração e acidentes.
Ainda assim, o conjunto respeita algo essencial: descobertas possuem limites, custos e consequências.
Esse é justamente um dos critérios discutidos em Como avaliar a ciência no sci-fi: 5 critérios que ajudam de verdade.
Uma tecnologia inventada não precisa existir no mundo real, mas deve obedecer às regras estabelecidas pela própria história.
O que é real e o que foi inventado?
Em resumo:
- Tau Ceti e 40 Eridani A existem.
- O astrofágio, Adrian, Erid e Rocky são ficcionais.
- Viagens interestelares tripuladas continuam fora do nosso alcance.
- Os efeitos de longas permanências no espaço são problemas reais.
- A comunicação por padrões e medidas é plausível, embora muito acelerada.
- O método de observar, testar e revisar hipóteses é o elemento mais científico do filme.
Ciência e adaptação
A duração é considerável, mas os experimentos geralmente fazem a história avançar.
A amizade entre Grace e Rocky também impede que o filme se transforme numa sequência de explicações técnicas.
Quem não leu o romance encontra uma aventura espacial compreensível por conta própria.
Os leitores perceberão cortes e reorganizações necessários para transformar uma narrativa muito apoiada nos pensamentos de Grace em uma experiência audiovisual.
Essa relação pode continuar em O livro é sempre melhor que o filme? Frankenstein e o peso das expectativas, dedicado às diferenças entre reproduzir uma obra e adaptá-la para outra linguagem.
Devoradores de Estrelas inventa bastante, mas não utiliza a ciência apenas como decoração.
Sua ideia mais forte é simples: diante do desconhecido, compreender exige observar com cuidado, medir direito e admitir que a primeira resposta pode estar errada.
Compartilhe este texto com alguém que terminou o filme tentando separar as estrelas e os problemas reais daquilo que Andy Weir precisou inventar.
