Quatro filmes, quatro criaturas diferentes. Dos relâmpagos da Universal ao excesso trágico de Kenneth Branagh, estas adaptações mostram como o cinema foi desmontando e reconstruindo Frankenstein ao longo do século XX.
A criatura de Frankenstein nasceu no romance de Mary Shelley, mas boa parte da imagem que chegou ao público foi criada pelo cinema.
O rosto quadrado, os parafusos no pescoço, o laboratório atravessado por raios e o cientista gritando diante de sua experiência não aparecem dessa forma no livro.
São escolhas feitas por adaptações que transformaram uma história literária num dos grandes mitos visuais do cinema.
As quatro versões reunidas aqui não formam uma sequência nem ajudam a “decifrar” umas às outras. Cada filme seleciona uma parte do romance, altera outra e constrói sua própria criatura.
São adaptações que vale conhecer justamente por isso.
Frankenstein, 1931

Direção: James Whale
É o filme que definiu a aparência mais conhecida da criatura.
Boris Karloff surge com a cabeça alongada, movimentos pesados e uma expressão que alterna ameaça e confusão.
A maquiagem se tornou tão influente que muita gente passou a imaginar o personagem de Mary Shelley exatamente assim.
O laboratório também ganhou forma cinematográfica. Máquinas, bobinas, descargas elétricas e relâmpagos transformam a criação da vida num grande espetáculo visual.
No romance, Shelley evita explicar detalhadamente o procedimento usado por Victor. No filme, o nascimento precisa ser visto.
É daqui que vêm elementos que atravessaram décadas de cultura popular: o bordão “It’s alive!”, o assistente corcunda e a imagem do cientista que percebe tarde demais que perdeu o controle sobre o próprio experimento.
Vale assistir porque, depois dele, quase nenhum Frankenstein chegou à tela sem precisar conversar com Karloff.
A Noiva de Frankenstein, 1935

Direção: James Whale (novamente)
A continuação retoma a criatura sobrevivente do primeiro filme e dá mais espaço àquilo que havia ficado apenas sugerido: sua solidão.
Depois de ser novamente rejeitada pelos humanos, a criatura aprende a falar, demonstra afeto e começa a desejar companhia.
É nesse contexto que surge a proposta de criar uma segunda criatura, uma mulher que poderia se tornar sua parceira.
A ideia vem de um conflito presente no romance de Mary Shelley, embora o filme a desenvolva de maneira bastante própria.
A Noiva aparece por poucos minutos, mas sua imagem se tornou tão reconhecível quanto a do próprio monstro: cabelo elevado, mechas brancas e uma expressão de medo diante daquele que deveria ser seu semelhante.
O filme também mistura horror, humor e melancolia com mais liberdade do que seu antecessor.
A criatura deixa de funcionar apenas como ameaça. Ela percebe a rejeição, deseja pertencer e sofre ao descobrir que até alguém criado para acompanhá-la pode recusá-la.
É uma continuação que amplia o primeiro filme e encontra, no material de Mary Shelley, uma dimensão que ainda não havia sido explorada com tanta força.
A Maldição de Frankenstein,1957

Direção: Terence Fisher
A Hammer Films reconstruiu o mito com cores mais intensas, atmosfera gótica e um Victor Frankenstein muito menos simpático.
Interpretado por Peter Cushing, o cientista é frio, ambicioso e disposto a ultrapassar qualquer limite para concluir seu trabalho.
Christopher Lee vive uma criatura ameaçadora, mas o verdadeiro perigo não está concentrado nela. O centro moral do filme é Victor.
A tragédia nasce de um criador que trata corpos e pessoas como materiais disponíveis para seu projeto.
A ciência não aparece apenas como conhecimento levado longe demais, mas como poder exercido sem cuidado com as consequências.
Essa mudança importa porque devolve ao cientista uma responsabilidade que várias adaptações deixaram em segundo plano.
A criatura provoca medo.
Victor, porém, é quem escolhe criá-la daquela maneira e continuar mesmo quando os sinais de desastre já estão diante dele.
Frankenstein de Mary Shelley, 1994

Direção: Kenneth Branagh
A versão de Kenneth Branagh tenta se aproximar novamente do romance.
A criatura interpretada por Robert De Niro fala, aprende, argumenta e compreende o abandono que sofreu.
Victor também recebe uma trajetória mais ampla, ligada à família, à formação científica e à obsessão que o conduz à experiência.
O filme não é uma transposição literal. Condensa acontecimentos, amplia o romance e toma decisões próprias.
Tudo parece acontecer no volume máximo: a música, os movimentos de câmera, o laboratório e as emoções.
Mesmo assim, é uma adaptação importante porque recupera a inteligência da criatura.
Ela não está apenas fugindo ou atacando. Observa os humanos, aprende com eles e exige que Victor responda pelo que fez.
O confronto entre criador e criação volta a ocupar o centro da história.
O que o cinema acrescentou a Frankenstein?
Esses quatro filmes mostram que uma adaptação não transporta simplesmente um livro para outra linguagem.
Ela escolhe o que preservar.
O filme de 1931 criou a imagem definitiva do monstro. A Noiva de Frankenstein aprofundou sua solidão. A Maldição de Frankenstein tornou Victor mais perigoso. Kenneth Branagh devolveu à criatura a fala e parte de sua inteligência.
Nenhuma dessas versões substitui o romance. Também não existe uma adaptação que encerre todas as possibilidades da história.
É justamente por isso que Frankenstein continua retornando às telas.
Para pensar por que tantas pessoas ainda tratam livro e filme como concorrentes, a conversa continua em Frankenstein e o peso das expectativas.
E o Frankenstein de Guillermo del Toro?
A versão de Guillermo del Toro estreou na Netflix em novembro de 2025, com Oscar Isaac como Victor Frankenstein e Jacob Elordi como a criatura.
O filme recebeu nove indicações ao Oscar de 2026 e venceu em melhor figurino, melhor maquiagem e penteados e melhor design de produção.
Em Frankenstein, de Guillermo del Toro: o criador, a criatura e o abandono, a nova adaptação é analisada separadamente, com atenção ao que preserva do romance de Mary Shelley, ao que modifica e à maneira como reconstrói a relação entre Victor e sua criação.
Se alguma dessas adaptações mudou a imagem que você tinha da criatura, compartilhe esta seleção com quem conhece Frankenstein principalmente pelos relâmpagos, pelos parafusos e pelas versões que o cinema inventou.
