Quasímodo, da Netflix: a Paris de 1830 e a ciência da época

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O Quasímodo da Netflix se ambienta na Paris de 1830, entre a cólera e a revolução. Antes do filme, vale conhecer o mundo real por trás dele: uma Europa decidida a explicar tudo e uma doença que ninguém explicava.


Em 27 de novembro, a Netflix estreia Quasímodo: A Alma de Paris, com Vincent Cassel como o sineiro de Notre-Dame, o encarregado de tocar os sinos da catedral no romance de Victor Hugo.

O filme imagina o homem que teria inspirado o personagem, numa Paris tomada pela revolução e pela cólera.

Na história real, as duas chegaram com menos de dois anos de distância, em 1830 e 1832. Nesse intervalo, a Europa mudava a forma de explicar o mundo.

O que mudou na ciência por volta de 1830?

Durante séculos, a natureza foi recebida como dada: a epidemia vinha como castigo, e a ordem do mundo vinha de cima.

Em 1830, Auguste Comte publica o primeiro volume do Curso de filosofia positiva e dá nome à virada com a lei dos três estados:

  1. Teológico: o fenômeno se explica pela vontade de deuses.
  2. Metafísico: os deuses dão lugar a entidades abstratas, como “essências” e “forças vitais”.
  3. Positivo: a explicação se apoia em leis tiradas da observação dos fatos.

Para Comte, todo conhecimento caminhava para a terceira etapa, ambição na raiz do debate sobre o que separa ciência de pseudociência.

No mesmo ano, a Carta francesa trocou “religião do Estado” por “religião professada pela maioria dos franceses”. O peso da Igreja diminuía, embora o Estado seguisse pagando o clero.

O que Victor Hugo quis dizer com “isto matará aquilo”?

Hugo registrou essa virada no próprio romance. A edição definitiva de Notre-Dame de Paris, de dezembro de 1832, trouxe um capítulo que tinha ficado de fora da primeira: “Isto matará aquilo”.

Nele, o arquidiácono Claude Frollo aponta para um livro impresso e olha para a catedral. Hugo explica a previsão: por séculos, a arquitetura foi o grande livro da humanidade, e a Igreja guardava em pedra o pensamento de cada época.

A imprensa tornaria esse pensamento móvel, barato e livre de quem o guardava. Repare que Quasímodo vive dentro do prédio que o próprio romance declara superado.

Frankenstein tem a ver com Quasímodo?

Tem, e o elo é Paris. O romance de Mary Shelley, de 1818, ganhou tradução francesa em 1821 e virou sucesso no teatro parisiense em 1826. A edição revista, de 1831, cita o galvanismo na introdução.

O galvanismo também tinha laboratório em Paris: por volta de 1800, Xavier Bichat aplicava correntes em corpos de guilhotinados para estudar a fronteira entre a vida e a morte.

A criatura de Victor Frankenstein, montada com partes de ossários e salas de dissecação, é rejeitada pela aparência, como Quasímodo. A pergunta sobre o que a ciência pode fazer com um corpo explica por que a criatura continua atual e trouxe o cinema de volta na versão de Guillermo del Toro.

Como a ciência explicava a cólera em 1832?

A cólera matou 18.402 pessoas em Paris entre março e setembro de 1832, segundo a France Pittoresque.

A explicação dominante eram os miasmas, o ar contaminado por matéria em decomposição, e as medidas seguiram essa lógica:

  • limpeza de ruas e retirada de lixo;
  • purificação do ar em casas e hospitais;
  • distribuição de comida e roupa aos mais pobres.

O fracasso das quarentenas fortaleceu quem negava o contágio, como mostra um estudo em História, Ciências, Saúde – Manguinhos. A mortalidade maior nos bairros pobres parecia confirmar o ar ruim, num caso clássico de correlação tomada por causalidade.

Pela régua de Comte, os miasmas ficavam na etapa metafísica: uma explicação sem deuses, apoiada numa entidade que ninguém observava. A resposta positiva veio com John Snow, que ligou a doença à água contaminada, e com Robert Koch, que identificou a bactéria em 1883.

O que a medicina fazia com o corpo dos pobres?

Paris tinha a medicina hospitalar mais influente da Europa, com pacientes em geral pobres. Michel Foucault, em O nascimento da clínica, descreve a troca: o hospital oferecia cuidado, e o pobre oferecia o corpo ao olhar médico, no leito e na autópsia.

Na Inglaterra, a Lei de Anatomia de 1832 entregou às escolas médicas os corpos não reclamados de asilos e hospitais. É o mesmo nó de Frankenstein: a ciência avança sobre os corpos que ninguém defende.


O que esperar do Quasímodo da Netflix?

O trailer oficial sugere um homem procurado porque parece resistir à doença, com Victor Hugo em cena. Se o filme confirmar isso, junta num só personagem a epidemia sem explicação, a ciência com pressa e o corpo de quem vive à margem. A leitura do filme sai depois da estreia.


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