Frankenstein: o século elétrico e o medo da ciência

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Antes de virar monstro de cinema, Frankenstein nasceu num século fascinado por máquinas, eletricidade e experimentos com a vida.

Tem uma coisa que se perde quando alguém lê Frankenstein hoje: o choque original.

Para o leitor de hoje, reanimar um corpo com eletricidade soa a ficção de série B. Para quem vivia no início do século XIX, era notícia de jornal. Mary Shelley escreveu olhando para um mundo que começava a acreditar, com alguma razão, que a ciência podia tudo, e sem nenhuma razão para ter certeza de que deveria.


O que estava acontecendo no século XIX?

O contexto importa porque muda a leitura. Frankenstein nasce no meio de uma revolução, e a industrial é só uma delas.

Várias coisas mudavam ao mesmo tempo na Inglaterra do início do século XIX:

  • A Revolução Industrial reorganizava cidades, trabalho e produção, e o campo perdia espaço para a fábrica, o artesão para a engrenagem.
  • A razão, antes serva da teologia, assumia o comando, enquanto a Igreja perdia parte da influência política e epistemológica.
  • A ciência ganhava prestígio público, com demonstrações experimentais abertas que atraíam multidões.
  • O progresso era medido por ritmo, máquina e produtividade, e o medo da substituição do humano pela técnica aparecia pela primeira vez com força.

Mary Shelley capturou o paradoxo desse momento. A razão podia iluminar o mundo, e nada no Iluminismo garantia prudência. A técnica aumentava o alcance humano, e junto com ele o tamanho das consequências.

O que era o galvanismo?

Esta é a parte que costuma surpreender quem lê o livro sem conhecer o pano de fundo. A ideia de reanimar corpos com eletricidade estava no ar, nos jornais e nas conversas de sala de visita.

Três nomes ajudam a entender o cenário:

  • Luigi Galvani demonstrou, na década de 1780, que descargas elétricas faziam pernas de rã se contraírem, o que levou à hipótese de uma eletricidade animal própria dos tecidos vivos.
  • Giovanni Aldini, sobrinho de Galvani, levou a coisa muito mais longe, com demonstrações públicas em cadáveres humanos.
  • Erasmus Darwin, avô de Charles, especulava abertamente sobre a possibilidade de reviver matéria inerte por estimulação elétrica, e essas ideias circulavam entre os mesmos leitores que depois leriam Frankenstein.

O que Aldini fez com um cadáver?

Vale contar o episódio de Aldini com calma, porque ele é mais perturbador do que qualquer cena do romance, e aconteceu de verdade.

Em janeiro de 1803, na prisão de Newgate, em Londres, Aldini aplicou descargas elétricas no corpo de George Forster, enforcado poucas horas antes por assassinato. Diante de uma plateia de médicos e curiosos, o registro da época descreve a mandíbula do morto começando a tremer, um dos olhos se abrindo, a mão direita se erguendo e se fechando, as pernas e as coxas entrando em movimento.

Parte dos presentes acreditou que o homem estava voltando à vida. A imprensa londrina cobriu o caso. A comunidade científica se dividiu entre entusiastas e críticos do galvanismo.

Mary Shelley tinha cinco anos quando isso aconteceu, e cresceu num ambiente em que o episódio ainda era assunto. Treze anos depois, confinada pela chuva na Villa Diodati, ela sonhou com um homem ajoelhado ao lado de uma coisa que ele tinha montado e que começava a se mexer. Victor Frankenstein nasce desse imaginário: o retrato de um século que começava a confundir saber com permissão e tratava o poder de criar como se bastasse por si só.

O que mudou desde o choque elétrico até os dados?

Hoje a descarga pode ser substituída por dados, código, inteligência artificial e sistemas automatizados. O laboratório pode ser digital. A criatura pode não ter corpo visível.

A pergunta de Shelley continua inteira: até onde o saber técnico pode ir sem que a responsabilidade o acompanhe? O romance ganha força quando lido como alerta contra criação sem custódia, ou seja, entusiasmo sem consequência e lançamento sem acompanhamento. É a mesma inquietação que reaparece nos clássicos reunidos no ensaio sobre ética do projeto e responsabilidade tecnológica.

O horror do livro está em algo bem específico: colocar algo no mundo e seguir em frente como se o trabalho tivesse acabado. Victor fez exatamente isso, e a solidão que se instala depois é o verdadeiro centro da obra.

Quanto da ciência de Frankenstein era real?

Mais do que se imagina, e menos do que o livro deixa parecer. Vale separar as camadas antes de ler:

  1. Real e documentado: a eletricidade provoca contração muscular em tecido morto. Galvani mostrou isso em rãs, Aldini repetiu em gente.
  2. Real como hipótese da época: a existência de uma eletricidade animal, uma força vital própria dos seres vivos. A ideia foi levada a sério por décadas e depois abandonada.
  3. Ficção, e Shelley sabia disso: reanimar um corpo inteiro, com consciência, linguagem e memória. O romance nunca explica como Victor faz, e a omissão é deliberada.
  4. Invenção do cinema: o raio, a torre, o assistente corcunda, o cérebro trocado e o grito de que está vivo. Nada disso está no livro.

Repare que a recusa de Shelley em detalhar o método é o que mantém o livro de pé. Ela não estava escrevendo um manual, e sim uma pergunta sobre o depois.

Para o resumo e os temas do romance, o texto principal é Frankenstein: criação, abandono e responsabilidade; para a história de como ele nasceu, Mary Shelley e Frankenstein: como nasceu o clássico.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – a eletricidade mudou de forma, e a pergunta de Shelley continua sem resposta.


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