Sigmund Freud: quem foi e o que a psicanálise deixou

Atualizado em

Em 1928, Freud tentou ler uma revista de psicanálise feita em São Paulo, com gramática e dicionário na mão. Quem foi o médico de Viena, o que é a psicanálise e por que a ciência ainda discute com ele.


Viena, junho de 1928. No consultório da Berggasse, 19, chega o primeiro número de uma revista de São Paulo, escrita numa língua que o destinatário não lê.

Em 27 de junho, Sigmund Freud responde ao médico paulista Durval Marcondes. Diz que o conteúdo lhe deu grande prazer e conta que arranjou uma gramática e um dicionário alemão-português para tentar ler.

A tentativa esbarrou num detalhe: a semelhança entre o português e o espanhol enganava, como registra um artigo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo sobre essa troca de cartas.

Mesmo assim, a ideia já tinha atravessado o Atlântico. Marcondes e o psiquiatra Franco da Rocha tinham fundado em São Paulo a primeira sociedade de psicanálise do país, e o vocabulário de Freud começava a circular no Brasil.

Quem foi Sigmund Freud: resumo rápido

  • Nasceu: em 6 de maio de 1856, em Freiberg, na Morávia.
  • Morreu: em 23 de setembro de 1939, em Londres.
  • Formação: medicina na Universidade de Viena, em 1881.
  • Onde trabalhou: no consultório da Berggasse, 19, por 47 anos.
  • A ideia que deixou: boa parte da mente age fora da consciência.
  • Por onde começar: A Interpretação dos Sonhos (1900).

O que é a psicanálise?

É ao mesmo tempo uma teoria da mente, um método de investigação e uma forma de tratamento. Começou com pacientes que os médicos da época chamavam de histéricas.

Em 1885, Freud passou alguns meses em Paris com o neurologista Jean-Martin Charcot. De volta a Viena, estudou com o colega Josef Breuer o caso de Bertha Pappenheim, a Anna O., que chamava as conversas com o médico de “cura pela fala”.

Daí veio o método: o paciente deita no divã e diz o que vier à cabeça, sem filtro. É a associação livre. O analista escuta o que se repete, o que escapa e o que trava.

Freud reuniu discípulos e fundou um movimento. Nem todos ficaram: Carl Jung, que ele via como herdeiro, rompeu com o mestre em 1913.

O que é o inconsciente para Freud?

Para Freud, a consciência é a ponta de um iceberg. Desejos, medos e lembranças que a pessoa não aceita ficam recalcados, fora do alcance, e continuam agindo.

Em 1923, ele dividiu a mente em três instâncias:

  • id – os impulsos, que querem satisfação imediata;
  • ego – o mediador, que negocia com a realidade;
  • superego – as regras e a culpa herdadas da criação.

O inconsciente aparece nas brechas. Repare no ato falho: a pessoa troca um nome, esquece um compromisso ou diz o contrário do que queria. Freud dedicou um livro inteiro a esses deslizes, Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, de 1901.

O que Freud dizia sobre os sonhos?

Para ele, todo sonho realiza um desejo, mas disfarçado. A mente censura o conteúdo e o embaralha em imagens, trocas e condensações, e a interpretação tenta desfazer esse trabalho.

A Interpretação dos Sonhos saiu em novembro de 1899, com a data de 1900 na capa. Vendeu poucas centenas de exemplares nos primeiros anos e virou um dos livros mais influentes do século.

Freud chamava o sonho de via régia para o inconsciente. A neurociência de hoje tem outras explicações para o sonho, mas a ideia de que ele diz algo sobre quem sonha segue viva.

O que Freud respondeu a Einstein sobre a guerra?

Em 30 de julho de 1932, Albert Einstein escreveu a Freud a convite do Instituto Internacional de Cooperação Intelectual, ligado à Liga das Nações. A pergunta era se havia um jeito de livrar a humanidade da guerra.

A troca de cartas, publicada em 1933 com o título Por que a guerra?, está registrada pelo Correio da UNESCO.

Freud respondeu sem otimismo. Disse que o ser humano carrega uma pulsão de destruição que não se elimina. A esperança estava no avanço da cultura, que aos poucos domestica essa força.

Por que Freud saiu de Viena?

Em 1933, os nazistas queimaram livros de Freud em Berlim. Em março de 1938, a Alemanha anexou a Áustria, e a Gestapo chegou a interrogar Anna Freud, filha e sucessora dele.

Em 4 de junho de 1938, Freud, a mulher, Martha, e Anna deixaram Viena no Expresso do Oriente, segundo o Museu Sigmund Freud de Viena. Chegaram a Londres dois dias depois.

Ele morreu em Londres no ano seguinte, aos 83 anos, depois de dezesseis anos de câncer na boca. Quatro irmãs dele, que ficaram em Viena, morreram em campos nazistas.

Críticas a Sigmund Freud

Freud mudou o jeito de falar da mente, e quase tudo o que propôs foi contestado:

  • a falseabilidade – uma teoria que explica tudo e não se arrisca;
  • os casos clínicos – curas relatadas que não aconteceram;
  • a cocaína – recomendou a droga em 1884;
  • as mulheres – a “inveja do pênis” e o “continente negro”.

A primeira é a mais famosa. Karl Popper dizia que a psicanálise acomoda qualquer comportamento e nunca faz uma previsão que possa dar errado. Pelo critério da falseabilidade, isso a deixa fora da ciência.

Bertha Pappenheim, a Anna O., foi internada depois do tratamento. E o entusiasmo de Freud pela cocaína custou caro ao amigo Ernst von Fleischl-Marxow, que ficou dependente.

Do lado da defesa, a terapia psicodinâmica, herdeira da psicanálise, tem estudos clínicos com resultados favoráveis. A briga continua, e um dos capítulos recentes é o livro Que Bobagem!, de Natalia Pasternak e Carlos Orsi.

Você talvez nunca tenha deitado num divã, mas fala Freud todo dia: ato falho, recalque, ego, negação, projeção. Pouca gente na história mudou tanto o vocabulário que se usa para falar de si mesmo.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte qual palavra de Freud você usa sem perceber.


Deixe um comentário