Sedentarismo e tecnologia: por que nos movemos tão pouco?

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Trabalhamos sentados, estudamos sentados e descansamos diante de telas. Depois, quando possível, reservamos uma hora para nos exercitar. Por trás dessa rotina existe uma engenharia: construímos tecnologias, trabalhos e cidades que retiraram movimento da vida cotidiana, e a força de vontade de cada um entra em cena só depois disso.


Por que nos movimentamos tão pouco?

Existe uma explicação rápida: “As pessoas ficaram preguiçosas.”

E um problema: explica muito pouco. Pense em quantas atividades cotidianas foram reorganizadas para exigir menos movimento:

  • Para falar com alguém, não precisamos caminhar até sua casa.
  • Para comprar comida, não precisamos sair.
  • Para subir vários andares, existe o elevador.
  • Para percorrer alguns quilômetros, usamos veículos.
  • Para trabalhar, milhões de pessoas permanecem diante de uma tela durante horas.

Até trocar o canal da televisão já exigiu levantar do sofá.

A tecnologia não inventou a imobilidade. Mas muitas tecnologias foram criadas justamente para economizar esforço, deslocamento e tempo.

E geralmente consideramos isso progresso.

Qual a diferença entre sedentarismo e inatividade física?

A Organização Mundial da Saúde define comportamento sedentário como períodos acordados de baixo gasto energético, normalmente sentado, reclinado ou deitado. Trabalho de escritório, dirigir e assistir televisão são exemplos.

Já a inatividade física significa não atingir níveis recomendados de atividade física.

Isso produz uma situação curiosa: uma pessoa pode fazer exercícios regularmente e, ainda assim, passar grande parte do restante do dia em comportamento sedentário.

Em 2022, cerca de 31% dos adultos no mundo não atingiam os níveis recomendados de atividade física, segundo estimativas internacionais publicadas em 2024.

Portanto, a pergunta vai além de: “Você frequenta academia?”. Também importa perguntar: “Quanto movimento existe no restante da sua vida?”

Por que o trabalho moderno movimenta menos o corpo?

Uma das mudanças mais importantes aconteceu no próprio trabalho.

Um estudo que analisou cinco décadas de ocupações nos Estados Unidos encontrou uma transformação expressiva.

No início dos anos 1960, quase metade dos empregos analisados exigia pelo menos atividade física de intensidade moderada. Em 2008, essa proporção havia caído para cerca de 20%.

Os autores estimaram uma redução de mais de 100 calorias diárias no gasto energético relacionado ao trabalho.

  • Máquinas carregam.
  • Computadores registram.
  • Sistemas automatizados calculam.
  • Veículos transportam.

E muitos trabalhadores permanecem sentados o dia inteiro.

Trabalhar menos com o corpo também foi uma conquista?

Trabalho fisicamente pesado nunca foi academia gratuita.

Era, muitas vezes:

  • exaustão;
  • desgaste corporal;
  • acidentes;
  • lesões;
  • jornadas extremamente duras.

Uma máquina que elimina a necessidade de uma pessoa carregar centenas de quilos por dia pode representar uma enorme melhoria nas condições de trabalho.

Tecnologia economizar esforço não é, por si só, um problema.

A ironia aparece quando retiramos tanto movimento do cotidiano que precisamos reintroduzi-lo deliberadamente em outra parte da vida.

Por que a academia existe?

Imagine explicar nossa rotina a alguém de alguns séculos atrás:

Passamos boa parte do dia usando máquinas para evitar esforço físico. Depois entramos num carro, dirigimos até uma academia e pagamos para caminhar numa esteira.

Isso não transforma a academia em uma ideia absurda. Ao contrário: ela responde a uma transformação real.

Quando trabalho, transporte e atividades domésticas deixam de produzir movimento suficiente, o exercício ocupa um espaço próprio na agenda.

O que antes estava distribuído pela vida pode virar uma atividade com:

  • horário;
  • roupa específica;
  • local próprio;
  • equipamentos;
  • assinatura mensal.

O movimento também virou uma tarefa.

Todo mundo tem a mesma oportunidade de se movimentar?

É aqui que a força de vontade explica cada vez menos. Considere duas pessoas:

– Uma mora perto do trabalho, possui calçadas adequadas, segurança e tempo disponível.

– Outra passa horas em deslocamento, trabalha sentada durante todo o dia e vive numa região em que caminhar à noite não é uma alternativa segura.

Dizer às duas simplesmente: “movimente-se mais” ignora condições bastante diferentes.

A própria OMS trata atividade física como questão que envolve transporte, planejamento urbano, educação, trabalho e acesso a espaços adequados – muito além de decisões individuais.

A tecnologia retirou movimento. E pode devolvê-lo.

Também seria simplista concluir: tecnologia = sedentarismo.

A mesma sociedade que produziu elevadores, carros e telas produziu:

  • bicicletas elétricas;
  • relógios que lembram o usuário de se levantar;
  • aplicativos de corrida;
  • videogames que exigem movimento;
  • equipamentos de acessibilidade;
  • tecnologias esportivas.

O plano de ação global da OMS para atividade física trata dessa ambivalência de frente: a tecnologia que reduz a necessidade de movimento é a mesma que pode devolvê-lo, do transporte ativo aos aplicativos.

Repare que a mesma tecnologia aparece nos dois papéis, e isso fica mais claro quando lembramos que escada, bicicleta e calçada também são tecnologia.

Criamos ferramentas para resolver determinados problemas. E, ao resolver um problema, às vezes reorganizamos comportamentos inteiros ao redor delas.

É a ambivalência que atravessa quase toda discussão de tecnologia.

O sedentarismo é uma questão de design?

Escada ou elevador; Calçada ou avenida sem espaço para pedestres; Bicicleta ou carro; Restaurante próximo ou aplicativo de entrega; Reunião presencial ou videoconferência.

Nenhuma dessas escolhas explica sozinha o nível de movimento de uma sociedade.

Mas, somadas, elas ajudam a construir um ambiente no qual ficar parado pode ser muito mais fácil do que se movimentar.

Por isso, combater o sedentarismo apenas com mensagens sobre disciplina individual parece insuficiente.

Precisamos também perguntar:

  1. Como organizamos o trabalho?
  2. Como projetamos nossas cidades?
  3. Como nos deslocamos?
  4. Que tarefas automatizamos?
  5. Quanto movimento retiramos sem perceber?
  6. Onde podemos colocá-lo de volta sem simplesmente criar outra obrigação?

Criamos máquinas para poupar o corpo. Agora precisamos lembrar de usá-lo.

Poupar esforço foi uma das grandes promessas da tecnologia. E, em muitos casos, foi uma excelente promessa cumprida.

O problema é que economizar esforço e eliminar movimento não são exatamente a mesma coisa.


Retiramos movimento do trabalho, do transporte e da casa, e agora precisamos agendá-lo de volta. Se esse texto te fez pensar, por favor, compartilhe.


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