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A tecnologia reduz o trabalho em muitas tarefas. O esforço poupado, porém, nem sempre desaparece: pode virar mais produção, passar para outra pessoa, sair do corpo e ir para a atenção ou virar supervisão.
SÉRIE · Quem fica com os ganhos da tecnologia?
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Que esforço a máquina levou embora?
Imagine transportar cem quilos por alguns quilômetros. Nas costas, é um tipo de esforço. Sobre rodas, outro. Com motor, quase nenhum.
Nesse caso não há mistério: a tecnologia reduziu o esforço físico.
Guindastes, tratores, motores e elevadores tiraram pessoas de atividades pesadas, repetitivas e perigosas. Seria estranho romantizar um mundo sem essas máquinas.
Mas uma ferramenta raramente altera só a tarefa que executa – ela também mexe em habilidades, rotinas e relações, como mostra o texto sobre o que é tecnologia.
O trator poupa o esforço de arar, e junto com ele chegam combustível, manutenção, financiamento e conhecimento técnico.
Continua sendo uma ótima ideia; só mostra que reduzir uma forma de esforço é diferente de eliminar todo o esforço envolvido.
Quando fazer menos permite fazer mais?
Um computador faz em segundos cálculos que tomariam horas. Então ganhamos horas? Às vezes. Em muitos casos, o ganho vira mais trabalho no mesmo período.
A planilha eletrônica tornou dezenas de operações mais rápidas, e as organizações passaram a:
- acompanhar mais indicadores;
- atualizar dados com mais frequência;
- produzir mais relatórios;
- cobrar resultados em intervalos menores.
Um estudo do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia encontrou essa tensão: em certas situações, a automação aparece associada a maior intensidade de trabalho, sobretudo quando entram em cena velocidade e prazos apertados.
A tecnologia aumenta a capacidade de fazer. O que acontece depois depende de como o trabalho é organizado – e de quem o organiza.
Quem faz o trabalho que a empresa deixou de fazer?
Houve um tempo em que várias operações bancárias exigiam falar com um funcionário.
Hoje abrimos o aplicativo. É mais rápido, funciona de madrugada e evita fila. Mas parte do trabalho que um bancário fazia passou a ser feita pelo cliente.
O mesmo vale para caixas de autoatendimento, check-in em aeroportos, compras on-line e móveis que chegam desmontados.
O filósofo Ivan Illich chamou esse fenômeno de trabalho-sombra (shadow work), em 1981: tarefas não remuneradas que sustentam a economia sem aparecer como trabalho.
Cada operação parece pequena – alguns minutos para uma transferência, um cadastro, um comprovante.
Somadas, elas mostram que a conveniência também redistribui o trabalho: a empresa economiza salário, e o cliente paga em tempo.
A troca pode valer a pena. Fazer uma transferência às duas da manhã é claramente mais prático. Só convém saber que houve troca.
O computador tirou peso dos braços e pôs decisões na cabeça?
Grande parte do esforço contemporâneo não envolve empurrar ou carregar. Envolve decidir, conferir, responder, lembrar, alternar e prestar atenção.
Um estudo com 3.180 trabalhadores alemães encontrou uma distinção importante. Usar tecnologias de informação, por si só, não estava associado aos piores resultados de saúde.
O problema aparecia com a intensificação digital do trabalho: mais pressão, mais demandas, mais interrupções.
Isso evita duas conclusões fáceis – a de que computadores nos esgotam e a de que tornam o trabalho automaticamente mais leve. Tudo depende do trabalho construído ao redor deles.
E quando a inteligência artificial entra na tarefa?
A IA generativa resume documentos, escreve mensagens, sugere códigos e prepara versões preliminares de muitas tarefas baseadas em linguagem.
Há ganho real nisso. Uma pesquisa do MIT com mais de 9 mil trabalhadores encontrou mais gente percebendo benefícios da automação para conforto, segurança e autonomia do que prejuízos.
Mas automatizar uma etapa não elimina as outras.
Se a IA produz cinco alternativas, alguém escolhe; se resume um relatório, alguém decide se confia no resumo; se escreve uma análise, alguém responde por ela.
O esforço de produzir pode cair enquanto crescem supervisão, seleção e responsabilidade – o que ajuda a explicar a fadiga de IA.
Então a tecnologia reduz esforço?
Sim.
Seria impossível contar a história humana dizendo o contrário. O que não dá para presumir é que o esforço eliminado vire descanso. Ele pode:
- permitir que se produza mais;
- virar outra tarefa;
- ser transferido para outra pessoa;
- passar da execução para a supervisão.
Por isso, máquinas cada vez mais eficientes convivem tão bem com pessoas sempre ocupadas.
Somos ótimos em inventar ferramentas que poupam esforço – e igualmente bons em encontrar o que fazer com o esforço poupado.
Quando a máquina assume a etapa cognitiva, surge uma pergunta que vai além do esforço: o que acontece com quem era pago para fazê-la?
QUEM FICA COM OS GANHOS DA TECNOLOGIA?
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3 de 5 – Esforço
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