Em 2015, pouco mais da metade dos domicílios brasileiros tinha acesso à internet. Em 2025, foram 86%, segundo a pesquisa TIC Domicílios, do Cetic.br. Olhando só esse número, o problema parece resolvido.
Ele mudou de forma. Exclusão digital é a distância entre quem consegue usar a internet para estudar, trabalhar, acessar serviços e se proteger e quem fica fora disso, total ou parcialmente. Ter sinal no celular é o primeiro degrau dessa escada, e muita gente para ali.
Quantos brasileiros não usam a internet?
A TIC Domicílios 2025 estimou 28 milhões de pessoas com 10 anos ou mais que não usam a internet. Dezesseis milhões delas têm 60 anos ou mais. A diferença entre cidade e campo persiste: 86% da população urbana usa a rede, contra 77% da rural.
Quando a pergunta é por que a internet não entra em casa, a PNAD TIC, do IBGE, aponta três motivos principais:
- nenhum morador sabia usar (36,5%);
- o serviço era caro (25,9%);
- ninguém achava que precisava (25,2%).
Repare que o motivo mais citado é falta de habilidade, à frente do preço. Levar cabo e antena até a casa resolve uma parte da conta. A outra parte depende de alguém ensinar.
O que é conectividade significativa?
Contar usuários diz pouco sobre como cada um usa a rede. Por isso, em 2024, o NIC.br publicou um estudo sobre conectividade significativa, com uma escala de 0 a 9 pontos. Ela soma nove indicadores, entre eles o custo da conexão, o plano de celular, a presença de computador em casa, o tipo e a velocidade da conexão e a frequência de uso.
O retrato é outro. Na TIC Domicílios 2025, só 20% da população chegou à faixa mais alta, de 7 a 9 pontos, e 30% ficaram entre 0 e 2. O estudo de 2024 mostrou que as diferenças seguem linhas conhecidas:
- Gênero: 28% dos homens chegaram à faixa mais alta, contra 17% das mulheres.
- Região: no Norte e no Nordeste, cerca de um em cada dez habitantes chegou lá.
- Cor ou raça: entre pretos e pardos, a proporção ficou em 18%.
E aqui vale prestar atenção: na contagem simples de usuários, homens e mulheres aparecem quase empatados. A desigualdade só aparece quando se mede a qualidade do acesso.
Acessar a internet só pelo celular é exclusão digital?
Para boa parte dos brasileiros, a internet cabe inteira no celular. Segundo a TIC Domicílios 2025, 65% dos usuários acessam a rede exclusivamente por ele, proporção que chega a 87% nas classes D e E.
Para trocar mensagens, o aparelho dá conta. Para escrever um trabalho escolar longo, preencher uma inscrição com documentos anexos ou montar um currículo, a tela pequena e a franquia de dados pesam.
A franquia também acaba. Segundo a mesma pesquisa, 39% de quem tem celular ficou sem pacote de dados pelo menos uma vez nos três meses anteriores, o equivalente a 64 milhões de pessoas; entre os usuários de plano pré-pago, foram 68%. Muitos desses planos mantêm liberados só alguns aplicativos, em geral de mensagens e redes sociais. O resultado é uma internet estreita, em que o boato chega pelo grupo da família e a reportagem que o desmente fica fora da franquia.
Quem tem computador, banda larga e alguém por perto que saiba usar acumula vantagens. O mecanismo é parecido com o do capital social: os recursos chegam mais fácil a quem já está bem conectado.
Quem mais sofre com a exclusão digital?
Os dados apontam para os mesmos grupos: famílias de renda mais baixa, moradores da zona rural e das regiões Norte e Nordeste, mulheres e pessoas idosas.
Com serviços públicos concentrados em aplicativos, como o gov.br, o Meu INSS e a carteira de trabalho digital, a exclusão digital vira barreira para exercer direitos. Agendar uma perícia, consultar um benefício ou emitir um documento exige conexão, dispositivo e familiaridade com o sistema.
Na TIC Domicílios 2025, 12% dos usuários com 16 anos ou mais pediram a outra pessoa para entrar no gov.br e resolver um serviço por eles.
Para parte dos idosos e das pessoas com deficiência, o obstáculo está no desenho da tela: letras pequenas, biometria facial que falha e falta de atendimento humano. É um terreno que a tecnologia assistiva conhece bem, porque a ferramenta só amplia a autonomia de quem consegue usá-la.
Cada salto técnico redistribui oportunidades, e a internet repete um padrão tão antigo quanto a primeira ferramenta lascada. Medir a exclusão digital pelo número de conectados é como medir alfabetização por quem sabe assinar o nome.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – na sua família, quem depende de outra pessoa para resolver as coisas pela internet?