Atualizado em
O buscador que enche a tela de anúncios, o app que piora a cada atualização, a assinatura que encarece sem melhorar. Cory Doctorow deu um nome a esse movimento: enshittification. Entenda as etapas e por que ficou tão difícil sair.
O que é enshittification?
Enshittification é o termo criado pelo escritor e ativista canadense Cory Doctorow para descrever a degradação das plataformas digitais ao longo do tempo.
O nome vem de um palavrão em inglês, shit, e por aqui ganhou traduções informais como “bostificação”.
Doctorow usou o termo pela primeira vez em novembro de 2022, num texto sobre a Amazon. A versão mais conhecida veio em janeiro de 2023, no ensaio sobre o TikTok publicado no blog dele.
A palavra pegou rápido:
- nos Estados Unidos, a American Dialect Society a elegeu palavra do ano de 2023;
- na Austrália, o dicionário Macquarie fez o mesmo em 2024;
- em outubro de 2025, Doctorow lançou o livro Enshittification: Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It.
A piora das plataformas também atravessa o documentário da DW sobre a morte da internet, que ouve Doctorow.
Quais são as etapas da enshittification?
No ensaio de 2023, Doctorow resume o ciclo em três atos e um desfecho:
- Bom para os usuários: a plataforma oferece um serviço excelente, muitas vezes no prejuízo, para atrair gente.
- Bom para os clientes empresariais: com os usuários presos, ela tira valor deles para entregar a anunciantes, vendedores e criadores.
- Bom só para a empresa: depois, aperta também esses clientes e fica com quase todo o valor.
- O desfecho: “então, elas morrem”, nas palavras dele.
O Facebook é o exemplo que ele mais usa. No começo, o feed mostrava o que amigos e familiares postavam. Depois, encheu-se de anúncios e de posts que ninguém tinha pedido.
Por fim, as próprias empresas e veículos de imprensa tiveram de pagar para que os seguidores vissem o que publicavam.
Na Amazon, ele contou que, numa busca simples por cama de gato, metade do que aparecia nas cinco primeiras telas era anúncio.
Por que é tão difícil sair de uma plataforma que piorou?
Repare que nenhuma dessas etapas funcionaria se fosse fácil ir embora. O que segura as pessoas é tudo o que se perde ao sair: contatos, histórico, compras e audiência construídos ao longo de anos.
Muitas vezes, a própria empresa encarece a saída, com cancelamentos escondidos e outros dark patterns.
Há ainda o que ele chama de twiddling, algo como “ajuste fino”: a capacidade de mudar preços, rankings e o que aparece na tela a qualquer momento, pessoa por pessoa, sem que o usuário perceba.
A mesma lógica se repete na troca da propriedade pelo acesso, assunto de por que tudo virou assinatura.
Na ficção, Black Mirror leva essa ideia ao extremo em Common People, episódio em que manter o cérebro de uma mulher funcionando depende de um plano cada vez mais caro.
Por que tantas plataformas pioraram ao mesmo tempo?
Para Doctorow, as empresas sempre tiveram vontade de extrair mais. O que mudou foram os freios. Ele aponta quatro:
- Concorrência: piorar o serviço custava clientes. Fusões como a compra do Instagram pelo Facebook reduziram esse risco.
- Regulação: a multa por enganar o cliente costumava sair mais cara que o lucro. Com poucas empresas no setor, fica mais fácil influenciar quem regula.
- Interoperabilidade: o usuário podia instalar bloqueador de anúncio, comprar cartucho genérico ou consertar o próprio aparelho. Travas digitais e leis de propriedade intelectual fecharam essas portas.
- Força dos trabalhadores: programadores disputados podiam recusar ordens para piorar o produto. As demissões em massa no setor tiraram esse poder.
A interoperabilidade é o freio que mais aparece no cotidiano, da impressora que recusa tinta de outra marca ao celular que ninguém consegue consertar, como mostra o texto sobre obsolescência programada.
No livro, Doctorow também dialoga com o tecnofeudalismo do economista grego Yanis Varoufakis, que enxerga no poder das plataformas uma nova forma de economia.
Enshittification é inevitável?
As objeções mais sérias à teoria vêm da economia.
O economista Paul Belleflamme, da Universidade Católica de Louvain, confrontou a tese com dados e teoria econômica.
Segundo o artigo dele, parte do diagnóstico se sustenta: plataformas de fato favorecem grupos diferentes em cada fase, e posições dominantes abrem espaço para abuso.
Ele também conclui que ser dominante não condena uma plataforma ao fracasso, e que a degradação pode vir até de concorrência acirrada entre rivais.
Paul Krugman, Nobel de Economia, vê no ciclo uma tática antiga de negócios com efeito de rede: atrair com preço baixo e cobrar depois.
Para ele, o desfecho previsto por Doctorow pode ser mais desejo do que descrição.
E aqui vale prestar atenção no alcance dessas críticas: elas contestam o final da história e a ideia de destino inevitável, mas mantêm de pé a descrição das etapas.
Existe lei contra enshittification no Brasil?
Com esse nome, não. Mas o Congresso discute como recuperar um dos freios da lista de Doctorow.
O PL 4.675/2025, enviado pelo governo federal em setembro de 2025, dá ao Cade poder para classificar grandes plataformas como de “relevância sistêmica” e impor obrigações a elas, inclusive interoperabilidade.
A Câmara aprovou urgência para o projeto em março de 2026. O texto está pronto para votação no plenário, ainda sem data, e depois segue para o Senado.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – qual aplicativo você ainda usa apesar de ter ficado uma 💩?