Tecnofeudalismo é a tese de que grandes plataformas digitais passaram a controlar espaços dos quais empresas, trabalhadores e usuários dependem, extraindo renda e estabelecendo suas próprias regras. A analogia com o feudalismo é compreensível. A controvérsia começa quando ela é usada para anunciar o fim do capitalismo.
Antes do “techno”: que feudalismo é esse?
Feudalismo é um nome usado para descrever formas de organização social e política existentes em partes da Europa medieval.
Não houve um único modelo feudal, idêntico em todos os lugares e séculos, e sua história é muito mais complexa do que cabe aqui.
Para entender o tecnofeudalismo, porém, algumas características gerais da comparação são suficientes.
No mundo feudal, o controle da terra estava ligado a relações de poder e dependência. O senhor não era simplesmente alguém competindo com outros vendedores dentro de um mercado.
Seu domínio era também o espaço do qual outras pessoas dependiam para produzir e viver, submetidas a direitos, obrigações e formas de extração vinculadas àquele domínio.
É essa imagem que interessa à analogia contemporânea:
quem controla o espaço pode estabelecer parte das condições para permanecer e produzir dentro dele.
Isso está longe de resumir o feudalismo histórico. Mas explica de onde vem o “feudalismo” em tecnofeudalismo.
O que é tecnofeudalismo?
Uma das formulações mais conhecidas atualmente é a do economista Yanis Varoufakis.
Sua tese é forte: o capitalismo teria sido superado por uma nova ordem econômica impulsionada por aquilo que chama de capital-nuvem, ou cloud capital.
Não se trata simplesmente de computadores armazenados em algum data center.
Varoufakis está falando de plataformas, dados, redes e sistemas algorítmicos capazes de criar ambientes digitais nos quais pessoas:
- compram e vendem;
- trabalham;
- encontram clientes;
- produzem conteúdo;
- comunicam-se;
- fornecem dados;
- disputam visibilidade.
Esses ambientes pertencem a empresas privadas.
E seus proprietários conseguem estabelecer grande parte das regras.
Do feudo à plataforma
Pense em um desenvolvedor que queira vender um aplicativo para determinados usuários.
Ele pode precisar entrar em uma loja digital controlada por outra empresa, aceitar suas regras, adequar-se aos seus critérios e entregar uma parcela da receita gerada.
- Um comerciante pode depender de uma plataforma para alcançar consumidores.
- Um criador pode depender dela para encontrar público.
- Um trabalhador pode depender de um aplicativo para receber tarefas.
É aqui que a comparação feudal ganha força.
Em todos esses casos, a dependência não está apenas no uso de uma ferramenta.
Existe um ambiente controlado por outra organização, que define condições de acesso e pode extrair receita de quem precisa operar dentro dele.
Na formulação do próprio Varoufakis, essas plataformas funcionam como novos feudos digitais.
Lucro e renda: a diferença central para Varoufakis
Para Varoufakis, o capitalismo tradicional é movido principalmente pela busca de lucro obtido na produção e circulação de mercadorias.
O feudalismo, em sua comparação, estava associado principalmente à renda extraída do controle do domínio.
As plataformas digitais teriam recuperado essa segunda lógica em uma escala inédita.
Apple, Amazon ou outras plataformas não precisam apenas vender alguma coisa. Também podem cobrar de outros agentes econômicos pelo acesso a ambientes que controlam.
Varoufakis chama isso de cloud rent, a renda da nuvem. É dessa combinação que surge sua conclusão:
não estaríamos diante apenas de empresas capitalistas extraordinariamente poderosas, mas de outra forma de organização econômica.
E é justamente aí que começa a disputa.
Parecer feudal não elimina o capitalismo
Uma plataforma pode possuir algumas características que lembram o feudalismo sem que a economia ao redor dela deixe de ser capitalista.
Esse é um ponto decisivo.
Amazon, Apple, Google e outras grandes empresas continuam inseridas em estruturas que envolvem:
- propriedade privada;
- trabalho assalariado;
- produção de mercadorias e serviços;
- investimento;
- concorrência;
- mercados financeiros;
- busca por lucro.
Além disso, renda e capitalismo nunca foram incompatíveis. Proprietários de terras, imóveis, patentes e outros ativos podem extrair renda dentro de economias capitalistas.
Nicholas Gane desenvolve exatamente essa crítica em Capitalism is capitalism, not technofeudalism.
Para essa interpretação, o crescimento das plataformas não demonstra que voltamos ao feudalismo ou que entramos em outro modo de produção.
Pode indicar algo diferente:
o próprio capitalismo tornou-se mais concentrado, rentista e dependente de infraestruturas controladas por poucas empresas.
Continuar sendo capitalismo não torna a situação melhor
Essa diferença conceitual não é uma discussão sobre qual nome parece menos assustador.
Dizer que continuamos no capitalismo pode produzir um diagnóstico tão crítico quanto, ou até mais incômodo, do que falar em tecnofeudalismo.
Nesse caso, não seria necessário imaginar que uma nova ordem substituiu a anterior.
O capitalismo teria conseguido incorporar:
- mercados globais;
- concentração empresarial;
- controle de dados;
- rendas de plataforma;
- gestão algorítmica;
- dependência tecnológica.
Tudo isso sem abandonar suas estruturas fundamentais.
As plataformas não precisariam destruir o capitalismo.
Poderiam representar uma de suas formas mais concentradas.
Onde entram algoritmos e inteligência artificial?
A inteligência artificial não criou esse processo, mas amplia a capacidade das plataformas de organizar os ambientes que controlam.
Algoritmos podem decidir:
- quem aparece primeiro;
- que produto será recomendado;
- que trabalhador recebe determinada tarefa;
- que conteúdo alcança público;
- que comportamento recebe prioridade.
O proprietário da infraestrutura passa a controlar não apenas o acesso ao espaço, mas também parte das regras invisíveis de circulação dentro dele.
Esse poder aparece com mais detalhes em Artefatos têm política: IA como tecnologia de poder
No trabalho, a mesma assimetria pode ser observada em plataformas que distribuem tarefas, acompanham desempenho e organizam remuneração.
O documentário The Gig Is Up, discutido em O Trabalho por Aplicativo, permite enxergar essa relação pelo lado de quem trabalha dentro desses sistemas.
Nas redes sociais, o recurso disputado muda. O controle passa também pela atenção, como aparece em O Dilema das Redes
Então, o que o tecnofeudalismo ajuda a enxergar?
O conceito coloca luz sobre uma mudança importante: algumas empresas já não competem apenas dentro dos mercados digitais.
Elas controlam parte da infraestrutura na qual outros precisam entrar para competir, trabalhar, vender ou alcançar pessoas.
É essa relação de domínio, dependência, regras privadas e extração de renda que torna a comparação com o feudalismo intelectualmente interessante.
O passo seguinte é bem mais difícil.
Varoufakis considera que essa transformação foi profunda o suficiente para superar o capitalismo.
Seus críticos enxergam as mesmas plataformas e chegam a outro diagnóstico: o capitalismo não morreu; concentrou ainda mais poder em determinados proprietários de infraestrutura.
A analogia feudal ajuda a enxergar a dependência.
A controvérsia começa quando ela pretende batizar o sistema inteiro.
Se encontrou alguém usando “tecnofeudalismo” apenas como sinônimo de “Big Tech poderosa”, compartilhe este texto. A tese é mais específica do que isso, e a crítica a ela também.
