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Amanda acorda de um coma graças a uma cirurgia gratuita. O resto custa uma mensalidade. Em Common People, Black Mirror leva a lógica da assinatura até onde ela nunca deveria chegar: a própria vida.
Common People (Pessoas Comuns) abre a sétima temporada de Black Mirror com um casal de classe trabalhadora, uma doença repentina e um contrato que parece a salvação.
Rashida Jones e Chris O’Dowd vivem Amanda e Mike, e o episódio só se completa no final. Por isso, daqui em diante, o texto conta tudo.
Do que se trata Common People?
Amanda e Mike tentam ter um filho quando ela sofre uma lesão cerebral e entra em coma. Gaynor, representante da empresa Rivermind, oferece um procedimento experimental: a parte danificada do cérebro de Amanda funcionaria a partir dos servidores da empresa.
A cirurgia é gratuita. O serviço, não. A Rivermind trabalha com três planos:
- Comum: 300 dólares por mês, funcionando só dentro de uma área de cobertura;
- Rivermind Plus: mais 500 dólares, com cobertura em toda a América do Norte;
- Rivermind Lux: mais mil dólares, com sensações extras de prazer e serenidade.
Amanda acorda, volta para casa e retoma a vida. Por um tempo, o plano básico parece suficiente.
Por que o plano básico da Rivermind fica cada vez pior?
Aos poucos, o serviço cobra outros preços. Amanda precisa dormir cada vez mais horas, porque os servidores da empresa exigem mais do cérebro dela. Uma viagem para fora da área de cobertura deixa Amanda desligada.
Depois vêm os anúncios. No meio de uma conversa, sem perceber, Amanda interrompe o que estava dizendo e recomenda um produto. O trabalho dela se torna impossível.
A cada problema, Gaynor tem a mesma resposta: um plano acima, ou um pacote temporário de “reforço” para quem não pode pagar o plano de cima. E tudo isso cabe no plano mais barato, aceito no momento de maior desespero.
O escritor Cory Doctorow criou um nome para esse movimento: enshittification. A palavra descreve plataformas que tratam bem os usuários no começo e, quando eles já não conseguem sair, pioram o serviço para extrair mais deles, como resume o Canaltech.
Repare no que torna a Rivermind mais assustadora do que qualquer aplicativo real. O custo de sair, para Amanda, é morrer.
O que a assinatura muda na vida de Mike e Amanda?
Antes da Rivermind, Amanda era dona da própria vida. Depois, só tem acesso a ela enquanto a mensalidade estiver paga. É a troca da propriedade pelo acesso, levada ao limite, que o texto sobre por que tudo virou assinatura examina no mundo real.
Para manter o plano, Mike faz turnos extras na construção. Quando o dinheiro não basta, ele começa a gravar vídeos para uma plataforma em que espectadores pagam para vê-lo se humilhar. A cena em que ele arranca os próprios dentes diante da câmera é uma das mais difíceis da série.
E aqui vale prestar atenção no paralelo. Amanda vende atenção sem saber, com os anúncios. Mike vende dor sabendo. Os dois trabalham para a mesma lógica, em lados opostos da tela.
Quem é Gaynor?
Gaynor parece só uma vendedora simpática, sempre com a solução seguinte pronta. Mais tarde, conta a Mike que também foi cliente da Rivermind, depois de um acidente grave.
Para Tracee Ellis Ross, que vive a personagem, Gaynor pode ter se desligado dos próprios sentimentos para cumprir o papel dentro do sistema. O episódio não confirma nada, mas a hipótese diz muito: talvez quem vende o plano também dependa dele.
Como termina Common People?
Um ano depois, Mike e Amanda estão sem emprego, sem dinheiro e sem forças. Amanda, com o nível de serenidade aumentado, decide que não quer continuar, e pede a Mike que a deixe partir num momento em que ela não perceba.
Mike a sufoca com um travesseiro enquanto ela recita um anúncio. Depois, entra no quarto onde gravava os vídeos, olha direto para a câmera, e a porta se fecha.
O final deixa perguntas em aberto:
- O destino de Mike: Brooker deixa por conta do espectador; Rashida Jones acredita que ele vai se juntar a Amanda.
- O olhar para a câmera: quem assiste ao episódio também ocupa, por um instante, o lugar do público dos vídeos de Mike.
- O papel de Gaynor: vendedora, vítima ou as duas coisas.
Common People fala do futuro?
A ideia nasceu de algo bem atual. Brooker contou à Netflix que imaginou primeiro uma comédia sobre alguém que precisa de assinatura para continuar vivo, com anúncios no meio, inspirada nos podcasts em que o apresentador interrompe a conversa para vender um produto. Durante a escrita, a história escureceu.
Hoje, vários serviços de streaming oferecem planos mais baratos com anúncios. O episódio leva essa mesma lógica para dentro de uma cabeça.
O resultado é o episódio mais duro sobre um tema que a série visita várias vezes, reunido no texto sobre trabalho e consumo em Black Mirror. Os demais temas estão na página sobre Black Mirror.
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