Memória de trabalho nos estudos: por que multitarefa atrapalha a aprendizagem?

A memória de trabalho mantém informações disponíveis enquanto pensamos, lemos ou resolvemos problemas. Como sua capacidade é limitada, interrupções e trocas frequentes de tarefa podem competir com aquilo que estamos tentando compreender.


O que é memória de trabalho?

Imagine que você esteja lendo um parágrafo longo.

Para compreender a última frase, precisa manter parte das anteriores disponível enquanto relaciona ideias, identifica conceitos e acompanha o argumento.

Ou pense numa conta feita mentalmente: é necessário conservar alguns números enquanto realiza operações com eles.

Essa capacidade de manter e manipular informações temporariamente enquanto realizamos uma tarefa é chamada de memória de trabalho.

Ela está relacionada à memória de curto prazo, mas os termos não são exatamente equivalentes.

Enquanto a memória de curto prazo costuma se referir à manutenção temporária de informações, a memória de trabalho destaca também o uso dessas informações durante o raciocínio.

Nos estudos, ela participa de praticamente tudo: leitura, resolução de problemas, compreensão de uma explicação, comparação de conceitos e produção de respostas.

Quanto cabe na memória de trabalho?

Pouco — e não existe um número universal que sirva para todas as situações.

Durante muito tempo, ficou popular a ideia de que conseguiríamos manter sete itens, mais ou menos dois, na memória de curto prazo.

Pesquisas posteriores mostraram que esse número dependia bastante da tarefa e de estratégias como repetição e agrupamento.

Em uma revisão sobre os limites da memória de trabalho, o psicólogo Nelson Cowan discute evidências de um armazenamento central limitado, em determinadas condições, a cerca de três a cinco unidades significativas.

A palavra “significativas” importa.

Compare:

1 – 9 – 8 – 8

com:

1988

Os quatro algarismos podem ser agrupados em uma única unidade se 1988 representar algo que você reconhece, como um ano.

O conhecimento prévio também muda a dificuldade de uma tarefa.

Para alguém familiarizado com determinado assunto, vários elementos podem ser tratados como um conjunto. Para quem está começando, cada parte exige atenção separadamente.

É uma das razões pelas quais uma explicação que parece simples para o professor pode exigir bastante esforço de quem encontra o conteúdo pela primeira vez.

Por que a multitarefa atrapalha?

Algumas atividades realmente podem ocorrer ao mesmo tempo. É possível caminhar enquanto conversamos, sobretudo porque caminhar já está altamente automatizado.

O problema aparece quando duas tarefas exigem atenção e controle consciente ao mesmo tempo.

Estudar um conceito e responder mensagens, por exemplo, geralmente envolve alternar o foco:

leitura → celular → leitura → outra aba → mensagem → leitura novamente.

Experimentos sobre alternância entre tarefas mostram que mudar de uma tarefa para outra produz custos de processamento.

Mesmo quando a troca acontece rapidamente, é necessário ajustar aquilo em que prestamos atenção e quais regras estamos utilizando.

O custo de uma única mudança pode parecer pequeno.

Repetido dezenas de vezes durante uma sessão de estudo, deixa de ser tão pequeno assim.

Por que é difícil voltar exatamente de onde paramos?

Há também outro problema.

Quando interrompemos uma atividade, aquilo que estávamos fazendo pode continuar ocupando parte da atenção por algum tempo.

A pesquisadora Sophie Leroy chamou esse fenômeno de resíduo de atenção.

Em seus experimentos, participantes que mudavam de uma tarefa ainda inacabada para outra apresentavam sinais de que parte da atenção permanecia ligada à atividade anterior, acompanhados de pior desempenho na nova tarefa.

O estudo sobre resíduo de atenção ajuda a explicar uma experiência bastante comum: voltar ao texto depois de uma interrupção e precisar reler algumas linhas para descobrir onde estava o raciocínio.

Isso não significa que toda interrupção destrua a aprendizagem.

Significa que trocar repetidamente entre tarefas cognitivamente exigentes tem custo.

O que isso muda na hora de estudar?

A consequência mais útil não é transformar o ambiente de estudo em um laboratório sem ruído.

É reduzir as interrupções que podem ser evitadas.

Se você precisa usar o computador para estudar, não há problema em ter mais de um material aberto quando eles fazem parte da mesma atividade.

Consultar um artigo e uma tabela enquanto escreve um trabalho, por exemplo, pode ser necessário.

A situação é diferente quando cada poucos minutos aparece uma tarefa sem relação com o objetivo atual: mensagem, rede social, vídeo, e-mail, outra conversa.

Nesse caso, o problema não está simplesmente no número de abas.

Está no número de vezes em que precisamos abandonar um objetivo mental e reconstruí-lo depois.

Notificações merecem atenção especial

Uma notificação não obriga ninguém a pegar o celular, mas cria uma nova informação competindo pela atenção.

Quem enviou?

É urgente?

Devo responder?

Mesmo quando a decisão é “depois eu vejo”, houve interrupção.

Por isso, durante atividades que exigem compreensão, costuma ser útil silenciar notificações que não precisam chegar naquele momento.

Não é necessário declarar guerra ao telefone.

Basta escolher quais interrupções realmente precisam ter permissão para entrar durante aquele período.

Conteúdos difíceis exigem ainda mais da memória de trabalho

A limitação da memória de trabalho também ajuda a explicar por que certos conteúdos parecem impossíveis quando são apresentados de uma só vez.

Considere alguém aprendendo equações pela primeira vez.

É preciso reconhecer símbolos, lembrar operações, acompanhar regras e compreender o objetivo do problema. Para uma pessoa experiente, várias dessas etapas já foram automatizadas.

Para um iniciante, elas competem pela capacidade limitada da memória de trabalho.

Por isso, dividir problemas complexos em etapas, oferecer exemplos e construir conhecimentos gradualmente pode ajudar.

À medida que parte do conhecimento se torna familiar e passa a ser recuperada da memória de longo prazo, sobra mais capacidade para lidar com aspectos novos e mais difíceis.

Essa é uma das razões pelas quais aprender algo básico pode facilitar aprendizagens posteriores que parecem muito mais complexas.

Memória de trabalho e aprendizagem são a mesma coisa?

Não.

Conseguir manter uma informação por alguns segundos não significa que ela será lembrada amanhã.

A memória de trabalho permite lidar com o conteúdo agora. Para que uma aprendizagem permaneça, entram em cena outros processos relacionados à codificação, consolidação e recuperação.

Por isso, atenção durante o primeiro contato ajuda, mas não encerra o trabalho.

Depois de compreender um conteúdo, estratégias como a prática de recuperação permitem testar se ele pode ser lembrado sem apoio do material.

A repetição espaçada distribui esses reencontros ao longo do tempo.

A memória de trabalho participa da aprendizagem, mas aprender envolve muito mais do que manter informações temporariamente disponíveis.

Então é preciso estudar sempre uma coisa de cada vez?

Para tarefas cognitivamente exigentes, períodos de atenção concentrada costumam ser mais eficientes do que alternâncias constantes.

Isso não exige estudar durante horas sem parar.

Uma sessão pode ser dividida em blocos, e diferentes atividades podem ser realizadas ao longo do dia. O ponto é evitar que cada bloco seja continuamente interrompido por tarefas sem relação com aquilo que está sendo aprendido.

Na prática, algumas medidas simples ajudam:

  • silenciar notificações que podem esperar;
  • manter acessíveis os materiais necessários para a tarefa atual;
  • definir um objetivo pequeno para cada período de estudo;
  • terminar uma etapa antes de mudar para outra atividade, quando possível;
  • fazer pausas deliberadas em vez de interrupções aleatórias.

Nenhuma dessas medidas aumenta magicamente a capacidade da memória de trabalho.

Elas apenas evitam gastar parte dela reconstruindo o contexto a cada poucos minutos.

O que os limites da memória de trabalho significam para os estudos

A capacidade limitada da memória de trabalho pode parecer uma deficiência do cérebro, mas ela faz parte de seu funcionamento normal.

O problema surge quando uma tarefa exige manter e manipular elementos demais ao mesmo tempo ou quando aquilo que já era difícil passa a disputar atenção com outras atividades.


Nos estudos, compreender esse limite ajuda a fazer escolhas bastante concretas: reduzir trocas desnecessárias, dividir conteúdos complexos, construir conhecimento aos poucos e reservar momentos para tentar recuperar aquilo que foi aprendido.

Afinal, estudar exige espaço para pensar.

Encher esse espaço de tarefas concorrentes raramente ajuda.


Deixe um comentário