Algumas formas de estudar parecem fáceis porque mantêm a resposta sempre disponível. Outras exigem lembrar, comparar ou escolher uma solução. A dificuldade desejável descreve situações em que esse esforço adicional pode favorecer uma aprendizagem mais duradoura — desde que a tarefa continue possível para quem está aprendendo.
O que é dificuldade desejável?
O conceito está associado aos trabalhos de Robert e Elizabeth Bjork sobre aprendizagem e memória.
Uma dificuldade é considerada desejável quando torna a prática mais exigente no curto prazo, mas mobiliza processos que podem favorecer retenção, compreensão ou transferência posterior.
Em uma discussão sobre dificuldades desejáveis na aprendizagem, Bjork e Bjork destacam um ponto fundamental: várias condições que fazem o desempenho melhorar rapidamente durante o estudo podem produzir uma impressão exagerada de aprendizagem.
É fácil perceber isso numa releitura.
Você encontra uma definição pela segunda ou terceira vez e ela parece óbvia. Como acabou de vê-la, reconhecê-la exige pouco esforço.
A situação muda quando o material é fechado e surge a necessidade de explicar a mesma ideia sem apoio.
Aprender bem nem sempre parece fácil
Essa diferença entre desempenho durante a prática e aprendizagem posterior é importante.
Uma revisão de Nicholas Soderstrom e Robert Bjork reúne pesquisas mostrando que condições capazes de melhorar o desempenho imediatamente nem sempre produzem a melhor retenção ou transferência depois.
Isso explica algumas experiências aparentemente contraditórias.
Resolver dez exercícios idênticos em sequência pode fazer o desempenho melhorar rapidamente.
Misturar problemas relacionados pode produzir mais erros durante a prática, porque agora é necessário identificar qual procedimento usar.
Reler imediatamente pode parecer muito fácil. Tentar recuperar a informação depois de algum intervalo costuma exigir mais esforço.
A sensação durante o estudo, portanto, não é uma medida perfeita daquilo que permanecerá disponível depois.
Nem toda dificuldade é útil
Aqui está o cuidado mais importante com o conceito.
Um texto mal escrito é difícil. Uma explicação cheia de informações desnecessárias também.
Estudar exausto, tentar aprender um conteúdo muito acima dos conhecimentos disponíveis ou trabalhar cercado de interrupções pode tornar a tarefa bastante difícil.
Nada disso recebe automaticamente o adjetivo desejável.
Bjork e Bjork ressaltam que uma dificuldade pode deixar de ser produtiva quando o estudante não possui conhecimentos ou habilidades suficientes para enfrentá-la.
Isso também conversa com o que vimos em memória de trabalho. Uma tarefa pode exigir esforço porque obriga a pensar, mas também pode ser difícil simplesmente porque apresenta elementos demais de uma só vez.
Esforço produtivo e sobrecarga não são equivalentes.
Onde aparecem as dificuldades desejáveis?
Algumas estratégias que já discutimos no blog ajudam a visualizar o conceito.
Na prática de recuperação, o estudante tenta lembrar antes de consultar a resposta.
Na repetição espaçada, parte do conteúdo já não está tão acessível quando chega a próxima revisão.
Na intercalação, diferentes tipos de problema podem aparecer misturados, exigindo também decidir qual procedimento utilizar.
Essas estratégias formam a trilha Estudar com estratégia, mas a dificuldade desejável ajuda a compreender algo comum entre elas: a prática pode ficar menos fluida justamente porque parte do apoio foi retirada.
Isso não significa que qualquer aumento de dificuldade melhorará o resultado. Cada uma dessas estratégias possui evidências e condições próprias de funcionamento.
Um exemplo simples
Imagine alguém aprendendo a diferença entre vantagem absoluta e vantagem comparativa.
Na primeira sessão, é natural consultar explicações e acompanhar exemplos.
Depois disso, há diferentes possibilidades.
Uma revisão muito fácil seria reler imediatamente as duas definições várias vezes.
Uma alternativa um pouco mais exigente seria fechar o material e tentar responder:
Qual é a diferença entre vantagem absoluta e comparativa?
É possível um país ter vantagem absoluta em tudo e ainda assim ganhar com o comércio?
Se a resposta não aparece de imediato, existe esforço de recuperação e comparação.
Mas suponha que o estudante nem saiba ainda o significado de custo de oportunidade, essencial para compreender o segundo conceito. Nesse caso, aumentar o desafio pode apenas gerar confusão.
Antes de dificultar a prática, falta construir uma base.
Como saber se a dificuldade passou do ponto?
Alguns sinais ajudam.
A dificuldade provavelmente está cumprindo uma função quando você:
- precisa pensar antes de responder;
- comete erros que consegue compreender e corrigir;
- identifica diferenças entre conceitos;
- consegue avançar depois de algum esforço;
- percebe claramente o que ainda precisa aprender.
Convém reduzir ou reorganizar a tarefa quando há bloqueio prolongado e pouca compreensão do que fazer.
Nessa situação, pode ajudar voltar a uma explicação anterior, dividir o problema em partes ou consultar um exemplo resolvido.
Reduzir a dificuldade naquele momento não representa “facilitar demais”. Pode ser exatamente o que permite construir os conhecimentos necessários para enfrentar desafios posteriores.
Dificuldade também pode produzir uma ilusão ao contrário
Existe uma consequência interessante.
Como estratégias mais exigentes podem produzir mais erros e menos fluência durante a prática, o estudante pode concluir que está aprendendo menos.
Isso ajuda a explicar por que métodos confortáveis continuam atraentes.
Uma página relida várias vezes parece conhecida. Uma lista de exercícios intercalados, cheia de hesitações, pode dar sensação de desempenho pior.
Só que estudar não termina no desempenho daquela sessão.
A pergunta relevante aparece depois: o que ainda consigo recuperar, explicar e aplicar quando os apoios não estão mais presentes?
O esforço precisa ter uma função
Dificuldade desejável não é uma defesa do sofrimento acadêmico.
O conceito serve justamente para distinguir desafios que mobilizam processos importantes de obstáculos que apenas consomem tempo e atenção.
Tentar lembrar antes de consultar, comparar alternativas ou voltar ao conteúdo depois de algum intervalo pode tornar o estudo menos confortável.
Esse esforço tem uma tarefa a cumprir.
Quando a dificuldade deixa de ajudar o estudante a pensar, recuperar, distinguir ou aplicar aquilo que está aprendendo, aumentar ainda mais o desafio dificilmente resolverá o problema.
Se alguém afirma que um método funciona “porque é mais difícil”, vale compartilhar este texto. Às vezes a dificuldade ajuda. Às vezes ela só é dificuldade.
