Há algo curioso – e perigoso – no discurso pedagógico contemporâneo: quase tudo soa progressista. Fala-se em autonomia, protagonismo, criatividade, aprendizagem significativa, resolução de problemas. Um vocabulário sedutor, aparentemente incontestável.
SÉRIE: EPT em Debate
1 – O Conceito: Educação Profissional e Tecnológica e o mito da máquina: Por que o humano precisa voltar ao centro?
2 – A Estrutura: Neutralidade na EPT: Por que a Educação Profissional e Tecnológica nunca foi apenas técnica?
3 – A Raiz: O saber que vira técnica: Por que a formação profissional não pode perder de vista a atividade humana?
4 – A Sala de Aula ← você está aqui
Mas, como alerta Newton Duarte, por trás dessa superfície moderna há um movimento silencioso: o esvaziamento do ensino e a descaracterização do trabalho docente.
Na Educação Profissional e Tecnológica (EPT), onde o fazer concreto ocupa lugar central, esse esvaziamento produz efeitos ainda mais profundos. Porque quando se esvazia o ensino, não se liberta o estudante – adapta-se o sujeito.
A pedagogia do “aprender a aprender”: Quando ensinar vira quase um problema
Duarte identifica uma hegemonia clara nas últimas décadas: as chamadas pedagogias do aprender a aprender.
Construtivismo, pedagogia das competências, professor reflexivo, projetos, multiculturalismo – diferentes nomes, uma mesma lógica.
O traço comum não está apenas no método, mas naquilo que todas rejeitam:
- o ensino sistemático;
- o conhecimento historicamente elaborado;
- a centralidade do professor como mediador cultural.
O ensino passa a ser visto como algo suspeito, quase autoritário. Ensinar conteúdos universais torna-se sinónimo de “educação tradicional”. O professor deixa de ensinar para “organizar experiências”.
Na EPT, isso aparece de forma cristalina:
- não se ensina o processo produtivo como totalidade, mas situações pontuais;
- não se estuda o trabalho como categoria histórica, mas tarefas contextualizadas;
- não se forma para compreender o sistema, mas para operar dentro dele.
Aprender, aqui, não é compreender – É adaptar-se.
O cotidiano como critério: quando o imediato vira limite
Uma das críticas mais contundentes de Duarte é à supervalorização do cotidiano. Aquilo que o estudante já vive, já conhece, já faz, passa a ser o critério central de relevância do conhecimento.
Á primeira vista, isso parece respeitoso. Na prática, é limitador.
Quando o cotidiano vira parãmetro absoluto:
- o conhecimento deixa de ampliar horizontes;
- o currículo se fragmenta;
- o acesso ao saber universal é restringido;
- a escola perde sua função histórica de mediação cultural.
Na EPT, isso se traduz em currículos “enxutos”, “práticos”, “flexíveis”, mas incapazes de oferecer uma leitura ampla do trabalho, da tecnologia e da sociedade.
Ensina-se aquilo que é imediatamente útil. E o que não parece útil agora simplesmente desaparece.
O resultado é perverso: forma-se para o presente estreito, não para a compreensão crítica do mundo.
Conhecimento Tácito: quando a experiência vira substituta do saber
Outro deslocamento apontado por Duarte é a valorização do conhecimento tácito – aquele saber pessoal, implícito, aprendido pela experiência direta.
É importante. Mas não é suficiente.
Na EPT, o problema surge quando:
- o saber científico cede lugar à vivência profissional;
- a teoria passa a ser vista como acessória;
- o estudante aprende a fazer, mas não a explicar, analisar ou transformar o que faz.
O professor, nesse cenário, deixa de ser mediador do conhecimento sistematizado e passa a ser facilitador de experiências. Seu trabalho se empobrece, ainda que o discurso diga o contrário.
Forma-se alguém capaz de agir, mas não necessariamente de compreender. E agir sem compreender é uma forma sofisticada de alienação.
O trabalho do professor em risco: quando ensinar perde valor
Talvez uma das críticas mais incômodas de Duarte seja esta: as pedagogias contemporâneas, ao afirmarem valorizar o professor, acabam por esvaziar sua função essencial – ensinar.
Ensinar passa a ser visto como transmissão mecânica. Pensar vira sinônimo de refletir sobre a própria prática, não de apropriar-se de conceitos e teorias capazes de explicar a realidade.
Na EPT, isso se agrava:
- o professor deixa de ajudar o estudante a compreender o trabalho como prática social complexa;
- passa a apenas acompanhar trajetórias individuais de aprendizagem.
O ensino desaparece. A formação se dilui. A crítica se enfraquece.
Educação Profissional e Tecnológica: adaptação ou formação?
Duarte é direto: essas pedagogias não oferecem uma perspectiva de superação das contradições sociais. Elas operam dentro da lógica do capital, não contra ela.
Na EPT, isso se manifesta como:
- formação para a empregabilidade;
- adaptação às mudanças do mercado;
- flexibilização permanente;
- responsabilização individual pelo sucesso ou fracasso.
O discurso é pedagógico. O efeito é político.
Forma-se o trabalhador flexível, não o sujeito capaz de compreender e intervir nas condições de trabalho.
O convite: devolver o ensino à Formação Profissional
O que Newton Duarte propõe não é um retorno nostálgico ao passado, mas uma ruptura com o esvaziamento contemporâneo do ensino.
Recuperar o ensino significa:
- recolocar o conhecimento sistematizado no centro da formação;
- reconhecer o professor como mediador cultural;
- compreender o trabalho como categoria histórica, não apenas prática cotidiana;
- permitir que a EPT seja formação crítica, não apenas adaptação funcional.
Aprender não pode ser apenas aprender a se virar. Ensinar não pode ser um verbo constrangedor.
Na Educação Profissional e Tecnológica, formar é ampliar a leitura de mundo, não apenas ajustar o sujeito às engrenagens já em movimento.
Para saber mais
Artigo que fundamenta esta discussão: O debate contemporâneo das teorias pedagógicas, de Newton Duarte.
Palestra recomendada: Concepção de Mundo, Educação e Catarse na Pedagogia Histórico Crítica – Fórum Municipal de Aruacária em Defesa da Escola Pública.
Conclusão da série
Este é o último texto da série EPT em Debate. Caso tenha chegado aqui, agora, que tal voltar ao início? Educação Profissional e Tecnológica e o mito da máquina: por que o humano precisa voltar ao centro?
Discutir pedagogia na EPT ainda parece coisa de especialista. Mas, não deveria.
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