Neuroplasticidade: o que é e como o cérebro muda ao aprender

Aprender modifica o cérebro. Neuroplasticidade é a capacidade do sistema nervoso de alterar seu funcionamento e sua organização em resposta à experiência, à prática e à aprendizagem — sem que isso signifique “reprogramar a mente” ou transformar o cérebro sem limites.


O que é neuroplasticidade?

Neuroplasticidade é a capacidade do sistema nervoso de se modificar em resposta à experiência.

Essas mudanças podem acontecer em diferentes níveis.

A comunicação entre neurônios pode se fortalecer ou enfraquecer, circuitos podem alterar seus padrões de atividade e a organização de determinadas redes pode mudar à medida que uma habilidade é praticada.

Em alguns casos, técnicas de neuroimagem conseguem detectar alterações estruturais associadas à experiência e ao treinamento.

Isso significa que o cérebro não termina seu desenvolvimento e permanece exatamente igual pelo resto da vida.

O cérebro adulto também muda.

Mas isso precisa ser entendido com cuidado: neuroplasticidade não significa que qualquer experiência transforme todo o cérebro nem que seja possível moldá-lo livremente.

As mudanças dependem do tipo de experiência, da intensidade e duração da prática e das características do próprio sistema envolvido.

Neuroplasticidade e neurogênese são a mesma coisa?

Não.

Essa distinção é importante porque os dois conceitos costumam aparecer misturados.

Neurogênese significa formação de novos neurônios.

Neuroplasticidade é um fenômeno mais amplo e inclui mudanças no funcionamento e na organização de células, conexões e circuitos que já existem.

Portanto, aprender alguma coisa não exige imaginar que o cérebro esteja produzindo novos neurônios para armazenar cada conhecimento adquirido.

A aprendizagem envolve principalmente alterações na forma como diferentes partes do sistema nervoso passam a responder e trabalhar em conjunto.

O que acontece no cérebro quando aprendemos?

Uma das dificuldades para estudar neuroplasticidade em seres humanos é demonstrar que uma diferença encontrada no cérebro surgiu por causa da experiência.

Imagine que pesquisadores façam ressonâncias magnéticas de músicos profissionais e descubram diferenças em relação a pessoas que não tocam instrumentos.

É tentador concluir que anos de música modificaram seus cérebros.

Mas existe outra possibilidade: algumas diferenças poderiam existir antes do treinamento e até contribuir para que determinadas pessoas tivessem maior facilidade ou interesse pela música.

Por isso, estudos que acompanham as mesmas pessoas antes e depois de uma aprendizagem são especialmente importantes.

Dois experimentos conhecidos ajudam a entender isso.

Aprender malabarismo pode produzir mudanças detectáveis

Em 2004, pesquisadores acompanharam adultos que aprenderam a fazer malabarismo.

Os participantes fizeram exames de ressonância magnética antes do treinamento, depois de desenvolverem a habilidade e novamente após um período sem praticá-la.

O estudo publicado na Nature encontrou mudanças estruturais seletivas em regiões relacionadas ao processamento de movimento visual após o treinamento.

Quando os participantes deixaram de praticar, parte dessas diferenças diminuiu.

O resultado foi importante porque mostrou que uma habilidade adquirida por adultos podia estar associada a alterações estruturais detectáveis no cérebro ao longo de poucos meses.

Isso não significa que fazer malabarismo “melhora o cérebro”.

O estudo mostra algo mais específico: aprender e praticar uma tarefa visuomotora foi acompanhado por mudanças em áreas relacionadas às exigências daquela tarefa.

Essa diferença parece pequena, mas evita uma interpretação muito comum da neuroplasticidade.

O que os taxistas de Londres ensinaram sobre aprendizagem

Outro caso conhecido envolve os tradicionais taxistas de Londres.

Durante muito tempo, candidatos à licença precisavam aprender uma enorme rede de ruas, pontos de interesse e possíveis trajetos da cidade. Esse conhecimento espacial ficou conhecido como The Knowledge.

Em vez de comparar apenas taxistas experientes com outras pessoas, Katherine Woollett e Eleanor Maguire acompanharam candidatos enquanto eles se preparavam.

O treinamento durava anos.

No início do estudo, não havia diferenças relevantes no volume de matéria cinzenta do hipocampo entre os grupos. Depois do período de treinamento, porém, os candidatos que conseguiram se qualificar apresentaram aumento em regiões posteriores do hipocampo.

Os candidatos que não passaram e o grupo de comparação não mostraram a mesma mudança.

O estudo longitudinal publicado em Current Biology ofereceu uma evidência especialmente interessante de que uma experiência prolongada de aprendizagem espacial pode estar associada a mudanças estruturais no cérebro adulto.

Mais uma vez, é importante observar a especificidade.

Aprender o mapa de Londres não fez o cérebro dos taxistas crescer de maneira geral. As mudanças encontradas estavam relacionadas a regiões envolvidas naquela demanda particular de memória espacial.

Neuroplasticidade não significa uma melhora geral do cérebro

Os dois estudos mostram uma característica importante da neuroplasticidade: o cérebro tende a se adaptar às demandas que enfrenta.

Treinar uma habilidade motora pode produzir alterações relacionadas àquela habilidade.

Aprender rotas complexas exige outros processos. Aprender um idioma, tocar um instrumento ou dominar conceitos matemáticos envolve combinações diferentes de redes e conhecimentos.

Por isso, ficar melhor em determinada tarefa não significa necessariamente desenvolver uma capacidade mental geral que será transferida para qualquer outra atividade.

Esse é um cuidado importante diante de expressões como “treinar o cérebro”.

Se uma pessoa pratica repetidamente um jogo de memória e melhora naquele jogo, a primeira conclusão possível é justamente essa: ela aprendeu a realizar melhor aquela tarefa.

Demonstrar que o benefício se transfere para capacidades muito diferentes exige outras evidências.

O cérebro adulto continua capaz de mudar?

Sim.

Os estudos com malabaristas e candidatos a taxista são exemplos de mudanças observadas em adultos, em experiências bastante diferentes e em escalas de tempo também diferentes.

Isso não significa que a plasticidade seja igual em todas as idades.

O desenvolvimento cerebral envolve períodos nos quais determinados sistemas são especialmente sensíveis à experiência, e diferentes capacidades apresentam trajetórias distintas ao longo da vida.

Mas a idade adulta não representa o fim da capacidade de aprendizagem.

Aprender uma nova habilidade, acumular conhecimento e aperfeiçoar um desempenho continuam dependendo de alterações no sistema nervoso.

Se nada mudasse depois de uma experiência, não haveria aprendizagem duradoura.

O que neuroplasticidade tem a ver com memória?

Neuroplasticidade e memória estão intimamente relacionadas, mas não são sinônimos.

Quando aprendemos algo que conseguimos lembrar posteriormente, a experiência deixou alterações capazes de influenciar nosso comportamento futuro.

Só que uma exposição ao conteúdo não garante uma memória duradoura.

É possível compreender uma explicação durante uma aula e ter grande dificuldade para recuperá-la alguns dias depois.

Por isso, a maneira como o estudante volta ao conteúdo importa.

Na prática de recuperação, por exemplo, o estudante tenta lembrar uma informação sem consultar imediatamente o material.

Na repetição espaçada, os encontros com o conteúdo são distribuídos ao longo do tempo.

O sono também participa dos processos relacionados à consolidação da memória.

Essas estratégias não funcionam porque “ativam a neuroplasticidade” como se houvesse um botão cerebral a ser ligado.

Elas organizam de maneiras diferentes as experiências de aprendizagem, prática e recuperação.

É possível “estimular a neuroplasticidade”?

A expressão exige cuidado.

A capacidade de mudança já faz parte do funcionamento do sistema nervoso e não depende de alguma atividade especial para ser “ativada”.

Por isso, expressões como “desbloquear a neuroplasticidade”, “reprogramar o cérebro” ou “criar novos caminhos neurais” costumam ampliar bastante aquilo que as evidências permitem afirmar.

No contexto da aprendizagem, o mais útil é observar os efeitos concretos da prática.

O estudante consegue explicar o que aprendeu? Resolve problemas sem depender do exemplo anterior? Recupera a informação depois de alguns dias? Consegue aplicá-la em outra situação?

Esses resultados dizem muito mais sobre a aprendizagem do que qualquer promessa vaga de “aumentar a plasticidade” do cérebro.

Neuroplasticidade tem limites

Um cérebro capaz de mudar não é um cérebro infinitamente maleável.

A aprendizagem depende do tipo de habilidade, do conhecimento prévio, da prática, do tempo, das condições em que ela acontece e de características individuais.

Também não devemos transformar neuroplasticidade em uma explicação para qualquer resultado.

Dizer que uma atividade “muda o cérebro” parece poderoso, mas é pouco informativo quando usado sozinho.

O relevante é descobrir o que mudou, em quais condições e com quais consequências para o comportamento ou para a aprendizagem.

Essa é uma diferença importante entre falar de neuroplasticidade como conceito científico e usá-la apenas como uma palavra capaz de dar aparência de ciência a uma promessa.

Um cérebro que aprende é um cérebro que muda

A neuroplasticidade ajuda a abandonar uma imagem antiga do cérebro adulto como uma estrutura pronta e imutável.

Experiências e aprendizagens podem alterar seu funcionamento e, em determinadas condições, essas mudanças também podem ser detectadas em sua estrutura.

Mas a conclusão mais interessante não é que podemos “hackear” o cérebro.

É bem mais simples: aprender deixa marcas.

O que praticamos, a maneira como praticamos e as experiências que acumulamos participam da construção das habilidades e dos conhecimentos que conseguimos utilizar depois.

É nesse sentido que aprender modifica o cérebro.


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