Não Olhe para Cima (Don’t Look Up): por que ninguém escuta os cientistas?

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Em Não Olhe para Cima, dois astrônomos descobrem um cometa que vai destruir a Terra em seis meses. O cálculo está certo. O que falha é todo o resto: governo, imprensa, redes e quem lucra com o desastre.

Cena de Não Olhe para Cima: Randall Mindy mostra algo no celular a Kate Dibiasky, que olha a tela preocupada

Ficha Resumida
Título Original
Don’t Look Up
Título no Brasil
Não Olhe para Cima
Duração
138 minutos
Ano
2021
País
Estados Unidos
Direção e roteiro
Adam McKay, a partir de história escrita com David Sirota
Distribuição
Netflix

Do que trata Não Olhe para Cima?

Kate Dibiasky, doutoranda em astronomia na Universidade Estadual de Michigan, encontra um cometa desconhecido.

O orientador dela, o professor Randall Mindy, refaz as contas: o objeto vai atingir a Terra em seis meses e 14 dias, e é grande o bastante para causar uma extinção em massa.

Com o chefe do escritório de defesa planetária da NASA, os dois levam o aviso à Casa Branca. A presidente Janie Orlean, de olho na eleição que se aproxima, decide esperar e avaliar.

A direção é de Adam McKay, que trata o fim do mundo como comédia.

O escritório de defesa planetária da NASA existe?

Existe. Quando Mindy pergunta se o lugar é real, o filme interrompe a cena para confirmar, com o emblema verdadeiro na tela.

A NASA criou o escritório em janeiro de 2016, como conta a entrevista do collectSPACE com Amy Mainzer, astrônoma que foi consultora científica do filme.

Em 2022, a sonda DART se chocou de propósito com o asteroide Dimorphos, que não ameaçava ninguém, e encurtou a órbita dele em 32 minutos, segundo a cobertura do Olhar Digital.

Ou seja, o empurrão funciona, desde que haja anos de antecedência.

Por que ninguém acredita nos cientistas no filme?

Kate e Mindy falam do jeito que a ciência fala, e o mundo em volta não sabe ouvir.

O aviso se perde em quatro etapas:

  • Probabilidade vira dúvida – a chance de impacto passa de 99%, e o governo usa o que falta para 100% como desculpa para adiar.
  • O tom vira notícia – num programa de TV, a explosão de Kate vira meme, e a mensagem some.
  • A fama muda o mensageiro – Mindy vira celebridade e, aos poucos, suaviza o alerta.
  • Cada lado escolhe o que vê – surgem as campanhas “Olhe para cima” e “Não olhe para cima”, e erguer os olhos vira sinal de grupo.

A primeira etapa conversa com o texto sobre por que a prova definitiva não existe. Dentro do método, incerteza bem medida é força; fora do laboratório, soa como hesitação.

A última lembra o mecanismo das câmaras de eco.

Não Olhe para Cima é sobre a crise climática?

Essa é a intenção declarada. McKay escreveu o roteiro, a partir de uma história criada com o jornalista David Sirota, como alegoria do aquecimento global.

Pense nos ingredientes: um perigo calculado com antecedência, que pede ação cara e imediata e esbarra em eleições e interesses econômicos.

Filmado em plena pandemia, o filme também foi lido pelo lado da covid. A alegoria serve para qualquer aviso que chega antes do estrago, a engrenagem discutida no texto sobre por que confiar na ciência.

Quem é Peter Isherwell em Não Olhe para Cima?

Isherwell é o bilionário dono da BASH, empresa de celulares e dados, e um dos grandes doadores da presidente.

Com a missão de desvio já no ar, ele consegue cancelá-la. O motivo: o cometa carrega minerais raros avaliados em trilhões de dólares.

O novo plano é quebrar o cometa e trazer os pedaços para a Terra. Quando Mindy pergunta se o projeto passou pela revisão de outros cientistas, Isherwell responde com desprezo.

É a pergunta do texto quem decide o uso da ciência: o cálculo continua certo, e quem decide o que fazer com ele é o lucro.

Como termina Não Olhe para Cima?

Spoiler: O final de Não Olhe para Cima explicado

Uma missão conjunta de Rússia, Índia e China explode na decolagem, os drones da BASH falham e o cometa atinge a Terra.

Antes do impacto, Mindy janta com a família, com Kate e com os amigos. Longe das câmeras, ele reconhece que eles tinham tudo.

No meio dos créditos, cerca de 2 mil ricos e poderosos que fugiram numa nave acordam num planeta distante, 22.740 anos depois.

A presidente é devorada por um animal local, como o algoritmo da BASH tinha previsto.

Depois dos créditos, Jason, filho da presidente, sai dos escombros e grava um vídeo para seguidores que já não existem.

O que Não Olhe para Cima acerta e inventa?

  • Acerta: a NASA tem um escritório de defesa planetária, e o emblema mostrado é o verdadeiro.
  • Acerta: desviar um corpo celeste exige anos de aviso, como o teste da DART confirmou.
  • Acerta: explicar incerteza a políticos e ao público é um dos grandes desafios da ciência.
  • Inventa: o cometa; segundo Amy Mainzer, não se conhece nenhum cometa em rota de colisão com a Terra.

Vale a pena assistir Não Olhe para Cima?

Vale, sobretudo para quem se interessa pelo caminho da ciência fora do laboratório.

A crítica se dividiu, e muita gente achou a sátira óbvia e longa. Mesmo assim, o filme teve quatro indicações ao Oscar, incluindo melhor filme.

  • Para quem ensina ou trabalha com ciência – a cena do programa de TV rende uma boa conversa sobre como comunicar incerteza.
  • Ressalva – são 138 minutos, e o humor exagerado às vezes atrapalha o argumento.
  • Para quem já assistiu – vale ficar até o fim dos créditos, porque as duas cenas finais completam a piada.

Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – quando um aviso científico chega antes do estrago, o que falta para as pessoas olharem para cima?

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