Quando uma economia negocia e se financia no exterior, parte do gasto doméstico vira importação. Ao mesmo tempo, exportações, câmbio e liquidez internacional passam a influenciar a produção.
Demanda agregada em uma economia aberta
A demanda agregada pode ser representada por:
Y = C + I + G + X − M
Nessa expressão:
- C é o consumo;
- I é o investimento;
- G representa o gasto público;
- X corresponde às exportações;
- M representa as importações.
Exportações acrescentam demanda à produção doméstica. Importações são subtraídas porque parte de C, I ou G corresponde a bens e serviços produzidos no exterior.
Por que as importações reduzem o multiplicador
Quando a renda aumenta, famílias e empresas ampliam seus gastos. Uma parcela desse aumento pode ser destinada a produtos importados.
Essa parcela é chamada de propensão marginal a importar. Quanto maior ela for, menor será a quantidade de renda que continuará circulando entre produtores, trabalhadores e consumidores domésticos.
Isso não significa que importar seja economicamente ruim. Importações fornecem máquinas, tecnologia, medicamentos e insumos produtivos.
O ponto é contábil: a parcela importada não cria, naquela rodada, demanda pela produção interna.
O câmbio melhora sempre as exportações líquidas?
Uma depreciação real torna, em princípio, os produtos domésticos relativamente mais baratos para compradores estrangeiros e encarece importações. Mas o resultado depende de várias condições.
Volumes de comércio levam tempo para responder. Contratos podem estar previamente definidos, exportadores podem enfrentar limitações de capacidade e empresas podem depender de insumos importados.
Além disso, a depreciação pode elevar a inflação e reduzir a renda real.
A intensidade e a velocidade com que o câmbio chega aos preços dependem do pass-through cambial. Esse repasse varia conforme o produto, o conteúdo importado, a atividade econômica e as expectativas de inflação.
A balança comercial tende a melhorar quando exportadores e importadores respondem suficientemente à mudança de preços. Essa é a intuição da condição de Marshall–Lerner.
No período inicial, o valor das importações pode aumentar antes que as quantidades se ajustem, movimento associado à curva J.
Três sentidos diferentes de liquidez
Em economia aberta, é útil separar:
- liquidez doméstica: disponibilidade de moeda, crédito e financiamento interno;
- liquidez em moeda estrangeira: capacidade de bancos e empresas obterem dólares ou outras divisas;
- reservas internacionais: ativos externos controlados pelo Banco Central, usados como proteção e instrumento de política cambial.
As reservas internacionais brasileiras não devem ser confundidas com o crédito disponível para famílias e empresas.
Como um estímulo se transmite
Um aumento do gasto público eleva diretamente a demanda. Parte gera salários, lucros e novas compras; outra parte se transforma em importações.
Se a economia estiver próxima de sua capacidade, o estímulo pode produzir mais inflação do que crescimento.
Se o Banco Central reagir elevando juros, o investimento pode diminuir e a moeda pode se apreciar, reduzindo parte das exportações líquidas.
O resultado depende, portanto, da capacidade ociosa, do conteúdo importado, da reação dos juros e da resposta do câmbio.
Choque externo de liquidez
Quando o financiamento internacional fica mais caro, empresas endividadas em moeda estrangeira enfrentam custos maiores.
A moeda doméstica pode se depreciar, enquanto investimento e consumo perdem força.
A depreciação pode favorecer alguns exportadores, mas prejudica empresas com dívida em dólar ou elevada dependência de componentes importados.
O efeito líquido sobre a produção não é predeterminado.
Para compreender por que o câmbio costuma reagir antes da produção e como o Banco Central atua nesses episódios, prossiga para Câmbio no curto prazo e intervenção cambial.
Se este texto tornou mais clara a relação entre gasto, importação e produção, envie-o a quem estuda o multiplicador em economia aberta.
