Gattaca imagina uma sociedade que transforma probabilidade genética em destino social. Quase trinta anos depois, a pergunta do filme ficou mais concreta: o que acontece quando riscos que talvez nunca se realizem decidem oportunidades no presente?
Ficha Resumida
– Título original: Gattaca
– Título no Brasil: Gattaca – A Experiência Genética
– Duração: 106 minutos
– Ano: 1997
– País: Estados Unidos
– Direção e roteiro: Andrew Niccol
– Distribuição: Columbia Pictures
Do que trata Gattaca?
Vincent Freeman nasceu sem seleção genética. Logo depois do parto, um exame calcula as chances de ele desenvolver doenças e prevê uma vida curta.
O irmão, Anton, foi concebido por seleção de embriões. Ele é um “válido“. Vincent, um “inválido“.
O sonho de Vincent é ir ao espaço, e a corporação Gattaca escolhe seus funcionários pelo DNA. Para entrar, ele assume a identidade de Jerome Morrow, um ex-nadador com o perfil que a empresa quer, e passa os dias apresentando sangue e urina dele e apagando os vestígios do próprio corpo.
Gattaca é um dos exemplos clássicos de biopunk, a vertente em que a tecnologia entra no corpo, como mostra o texto sobre as vertentes punk no cinema.
Gattaca mostra edição genética?
Na maior parte do filme, não. O que aparece é seleção de embriões.
Na edição genética, o DNA é alterado. Na seleção, embriões produzidos por fertilização in vitro são analisados antes da implantação, e os pais escolhem um deles.
A seleção já é usada para reduzir o risco de doenças causadas por alteração num único gene, em que a relação entre a variante e a doença é forte e bem conhecida. A edição deu os primeiros passos clínicos em células de pacientes adultos, como mostra o documentário sobre o CRISPR em Human Nature.
Altura, desempenho escolar, diabetes e depressão funcionam de outro jeito. Dependem de muitas variantes genéticas, do ambiente e da interação entre os dois.
O risco genético é uma sentença?
Não. E aqui está a melhor crítica do filme.
Os escores de risco poligênico somam o efeito estatístico de muitas variantes para estimar a predisposição a certas condições. Servem à pesquisa e, em alguns casos, ajudam decisões médicas. Prever a vida de uma pessoa específica está fora do alcance deles.
Alimentação, renda, acesso a cuidado médico, educação e acaso também entram na trajetória de alguém. Um escore descreve probabilidades calculadas em populações, e a pessoa concreta escapa do cálculo. É o velho problema de confundir o mapa com o território, e o erro do mundo de Gattaca é fechar todas as alternativas antes que alguém aja.
Dá para escolher um embrião “melhor”?
Embriões dos mesmos pais são geneticamente parecidos, costumam ser poucos, e as diferenças previstas entre eles são pequenas.
Por isso a Sociedade Europeia de Genética Humana classificou o uso desses escores na seleção de embriões como prática não comprovada e antiética: o poder de previsão é limitado, falta pesquisa clínica, e o risco de discriminação e de enganar os pais é alto.
Repare também na palavra “melhor”. Classificar aparência ou desempenho esperado depende de valores sociais apresentados como dado biológico. Quem decide esse uso é a pergunta do texto sobre ética na ciência.
Por que dado genético é tão sensível?
Em Gattaca, uma gota de sangue substitui o currículo. Fora do filme, um DNA vazado não se troca como uma senha, e ainda revela informação sobre parentes que nunca concordaram com o exame.
Por isso a Lei Geral de Proteção de Dados põe os dados genéticos entre os dados pessoais sensíveis, com proteção especial, como explica a Autoridade Nacional de Proteção de Dados. O texto sobre o que as empresas sabem sobre você mostra o resto do inventário.
E aqui vale prestar atenção num detalhe do roteiro: no filme, discriminar pelo DNA é proibido por lei, e acontece todo dia mesmo assim. Vincent nunca teve a chance de mostrar se era capaz.
Quem é Jerome em Gattaca?
Jerome tem o perfil genético que a Gattaca valoriza, e vive preso a ele.
Classificado como excepcional antes de qualquer conquista, carrega o dever de confirmar a previsão. Uma medalha de prata vira fracasso, porque os genes prometiam ouro. Depois de um acidente que o deixou paraplégico, ele vende a própria identidade a Vincent.
Vincent sofre por ser tratado como menos do que pode ser. Jerome sofre por não conseguir ser tudo o que esperavam dele. Os dois mostram o custo do determinismo genético de lados opostos.
O que Gattaca acerta e exagera?
- Acerta: já é possível analisar embriões para algumas alterações genéticas bem definidas.
- Acerta: dados genéticos são permanentes, sensíveis e revelam informação familiar.
- Acerta: ambiente e condições sociais pesam em características complexas.
- Exagera: os exames instantâneos e as previsões precisas sobre a vida de cada pessoa.
- Exagera: a ideia de que selecionar um embrião equivale a projetar uma pessoa.
Vale a pena assistir Gattaca?
Vale, porque a ideia central envelheceu melhor que os aparelhos na tela.
- Para quem gosta de genética – o filme ajuda a separar doença de um gene só, risco poligênico e determinismo.
- Para quem já assistiu – vale rever prestando atenção em Jerome, que mostra o custo de ser declarado perfeito.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – até onde uma empresa deveria poder usar informações sobre riscos que talvez nunca se realizem?