Exercícios resolvidos podem ajudar muito quando um tipo de problema ainda é novo. Eles mostram como sair do enunciado e chegar à solução. O problema começa quando observar respostas prontas substitui a tentativa de resolver sozinho.
Exercício resolvido realmente ajuda a aprender?
Sim, principalmente nas fases iniciais.
Em um estudo clássico de John Sweller e Graham Cooper, estudantes aprenderam álgebra estudando problemas resolvidos passo a passo ou tentando resolver problemas convencionalmente.
Os exemplos resolvidos favoreceram a aprendizagem e a resolução posterior de problemas semelhantes.
Isso ocorre porque um iniciante ainda precisa lidar com muitas decisões ao mesmo tempo: entender o enunciado, reconhecer o tipo de problema, lembrar regras, escolher procedimentos e acompanhar os cálculos.
Um bom exemplo reduz parte dessa demanda e permite observar como alguém experiente organiza a solução.
O benefício, porém, depende do nível de conhecimento do estudante.
Para iniciantes, olhar o caminho pode ser melhor do que descobrir tudo sozinho
Quando ainda não sabemos por onde começar, insistir durante muito tempo num problema pode consumir esforço sem produzir muita aprendizagem.
O exemplo resolvido oferece um modelo.
Imagine alguém aprendendo porcentagem. Em vez de receber apenas:
“Um produto de R$ 200 recebeu desconto de 15%. Qual é o novo preço?”
o estudante acompanha:
- calcular 15% de R$ 200;
- encontrar R$ 30;
- subtrair o desconto do preço original;
- chegar a R$ 170.
O valor do exemplo está menos no resultado final e mais nas decisões que ligam uma etapa à seguinte.
Só acompanhar pode produzir uma falsa sensação de domínio
Há uma experiência comum: você acompanha uma resolução e tudo parece perfeitamente lógico.
Fecha o material.
Surge outro problema semelhante.
E o primeiro passo desapareceu misteriosamente.
Isso acontece porque compreender o raciocínio enquanto ele está diante dos olhos exige menos do que reconstruí-lo sozinho.
Pesquisas sobre aprendizagem com exemplos mostram que estudantes aprendem mais quando procuram explicar para si mesmos as etapas da solução.
Em um experimento de Alexander Renkl e colaboradores, a qualidade das autoexplicações esteve relacionada a uma melhor aquisição de conhecimento a partir dos exemplos.
Por isso, não leia a resolução como quem acompanha legenda de filme.
Pare e pergunte:
- De onde veio esta informação?
- Que regra foi usada?
- Por que este procedimento serve aqui?
- Eu conseguiria reconhecer outro problema do mesmo tipo?
Uma sequência simples: exemplo, tentativa, conferência
Para usar exercícios resolvidos sem ficar dependente deles, experimente três momentos.
1. Estude o exemplo
Acompanhe o raciocínio inteiro.
Não copie apenas as contas. Tente entender as escolhas.
2. Cubra a solução
Depois, refaça o mesmo problema sem olhar.
Se travar, consulte somente o ponto necessário e tente continuar.
3. Resolva outro parecido
Agora mude os números ou alguma característica do problema.
Se consegue transferir o procedimento para uma nova questão, o exemplo começou a cumprir sua função.
Esse terceiro momento é importante porque evita que você apenas memorize uma sequência específica.
O apoio deve diminuir
Os exemplos resolvidos são particularmente úteis quando o conhecimento ainda é pequeno.
Conforme o estudante aprende, manter toda a solução disponível pode começar a oferecer ajuda demais.
Em experimentos sobre a retirada gradual das etapas resolvidas, Alexander Renkl, Robert Atkinson e Cornelia Große investigaram justamente essa transição.
Em vez de passar diretamente do exemplo completo para um problema totalmente independente, algumas etapas da solução eram progressivamente retiradas.
A lógica pode ser aplicada de maneira simples:
- primeiro: solução completa;
- depois: parte da solução pronta;
- mais tarde: apenas o problema.
Assim, a autonomia aumenta junto com o conhecimento.
Para quem já sabe bastante, o exemplo pode atrapalhar
Existe até uma situação em que resolver sozinho pode ser melhor.
Em um estudo de Slava Kalyuga e colaboradores, estudantes com maior conhecimento prévio apresentaram melhor aprendizagem ao resolver problemas do que ao estudar exemplos que já continham informações redundantes para eles.
Ou seja, a pergunta não é apenas:
“Exemplo resolvido funciona?”
Também precisamos perguntar:
“Para quem e em que momento?”
Para um iniciante, o exemplo pode economizar esforço desnecessário.
Para alguém que já domina o procedimento, ele pode virar uma explicação longa de algo que a pessoa já sabe fazer.
Exercício resolvido não serve só para Matemática
O princípio pode aparecer em outras áreas.
Em redação, pode ser um texto comentado mostrando por que determinada introdução funciona.
Em programação, um código explicado linha por linha.
Em Estatística, uma análise completa desde a escolha do teste até a interpretação do resultado.
Em metodologia científica, um exemplo mostrando como uma pergunta de pesquisa foi transformada em objetivo e método.
O ponto comum é haver um processo que possa ser observado e depois reproduzido com autonomia crescente.
Como saber se está na hora de abandonar o exemplo?
Faça um teste.
- Leia o novo problema:
- Você consegue identificar o tipo de situação?
- Sabe qual seria o primeiro passo?
- Consegue avançar sem voltar imediatamente ao modelo?
Se sim, comece a usar mais exercícios sem solução à vista.
Se ainda precisa consultar o exemplo a cada etapa, talvez valha estudar mais um ou dois modelos antes de aumentar a dificuldade.
Exemplo resolvido é andaime: ajuda enquanto alguma coisa está sendo construída. Depois, convém retirar.
Se terminar o curso ainda precisando desse tipo de suporte, provavelmente houve algum problema na obra.
