Efeito do falso consenso: o que é e por que achamos que todos pensam como nós

Quando uma opinião parece óbvia para nós, é fácil imaginar que muita gente pensa do mesmo jeito. O efeito do falso consenso descreve justamente essa tendência: nossas próprias escolhas, crenças e comportamentos podem influenciar a maneira como estimamos o que os outros pensam.


O que é o efeito do falso consenso?

O efeito do falso consenso é a tendência de estimar que nossas opiniões, preferências ou comportamentos são mais comuns do que parecem para pessoas que pensam ou agem de outra maneira.

Isso não significa necessariamente acreditar que “todo mundo concorda comigo”.

O efeito costuma ser mais sutil.

Imagine duas pessoas discutindo determinado assunto.

A primeira acredita que 70% da população concorda com sua posição. A segunda, que pensa o contrário, estima que apenas 35% concordariam com a primeira.

As duas estão avaliando o mesmo público.

Mas suas próprias posições ajudam a deslocar aquilo que consideram provável.

O experimento clássico

Em 1977, Lee Ross, David Greene e Pamela House publicaram uma série de estudos que ajudou a consolidar o conceito.

Os participantes precisavam escolher entre alternativas em diferentes situações e depois estimar quantas outras pessoas fariam a mesma escolha.

O padrão observado foi interessante: quem escolhia uma alternativa tendia a estimar maior adesão a ela do que quem havia escolhido a opção contrária.

O artigo original, The “False Consensus Effect”: An Egocentric Bias in Social Perception and Attribution Processes, continua sendo a referência histórica do fenômeno.

A conclusão correta, porém, não é que as pessoas sempre imaginam estar na maioria.

É que nossa própria posição pode entrar no cálculo quando tentamos estimar a posição dos outros.

Por que isso pode acontecer?

Não há necessidade de uma única explicação.

Alguns mecanismos podem contribuir.

1. Conhecemos melhor pessoas parecidas conosco

Amigos, colegas e familiares nem sempre formam uma amostra representativa da população.

Se muitas pessoas ao nosso redor compartilham determinada opinião, é compreensível que essa opinião pareça mais comum.

O erro aparece quando extrapolamos o nosso círculo para um universo muito maior.

2. Nossa própria posição está sempre disponível

Quando alguém pergunta:

“O que as pessoas pensam sobre isso?”

há pelo menos uma resposta imediatamente acessível:

a nossa.

Ela pode funcionar como ponto de partida para imaginar as demais.

3. Algumas escolhas parecem consequência natural da situação

Se uma pessoa considera uma decisão bastante razoável, pode pensar:

“Diante dessas circunstâncias, qualquer pessoa faria o mesmo.”

Só que aquilo que parece uma resposta natural pode depender de valores, experiências ou informações que outras pessoas não compartilham.

Redes sociais podem aumentar essa impressão?

Podem, em determinadas condições.

Robert Luzsa e Susanne Mayr realizaram dois experimentos com 331 e 207 participantes para testar justamente essa questão.

Os pesquisadores apresentaram feeds simulados contendo mensagens que concordavam ou discordavam das opiniões dos participantes.

Quando as pessoas eram expostas a um conjunto predominantemente favorável às próprias posições, tendiam a estimar maior apoio da população às suas opiniões.

O estudo está em False consensus in the echo chamber

Isso não significa que qualquer uso de rede social produza uma bolha nem que algoritmos determinem automaticamente nossas crenças.

O próprio debate sobre câmaras de eco é mais complexo. Em Os algoritmos decidem o que você pensa?, essa relação entre personalização, escolhas do usuário e exposição a opiniões semelhantes aparece com mais detalhes.

Aqui basta uma conclusão mais modesta:

se aquilo que vemos ao redor apresenta repetidamente opiniões semelhantes às nossas, podemos receber uma amostra ruim do que o restante da sociedade pensa.

Onde o falso consenso aparece no cotidiano?

No trabalho

Um gestor considera determinado procedimento claramente melhor e presume que a equipe também o prefere.

Só descobre a divergência quando alguém finalmente pergunta.

Na sala de aula

O professor explica um conteúdo, alguns estudantes respondem corretamente e surge a impressão de que:

“a turma entendeu.”

Talvez tenha entendido.

Mas algumas vozes mais visíveis não representam necessariamente todos os alunos.

Em grupos sociais

Uma opinião pode parecer praticamente consensual dentro de uma roda de amigos e bastante minoritária fora dela.

As duas experiências são reais.

O problema está em tratar uma delas como retrato da população inteira.

Falso consenso e viés de confirmação são diferentes

Os dois podem se alimentar, mas não significam a mesma coisa.

No viés de confirmação, tendemos a buscar ou avaliar informações de maneira favorável ao que já acreditamos.

No falso consenso, nossa própria posição influencia quanto apoio imaginamos que ela possui entre outras pessoas.

Já na heurística de disponibilidade, aquilo que lembramos facilmente pode parecer mais frequente.

É possível que os três apareçam na mesma situação.

Como reduzir o falso consenso?

Uma regra simples ajuda:

quando quiser saber o que outras pessoas pensam, tente obter informação sobre outras pessoas.

Isso pode significar:

  1. consultar dados ou pesquisas quando existirem;
  2. perguntar antes de pressupor;
  3. procurar amostras além do próprio grupo;
  4. distinguir “muita gente que conheço” de “a maioria das pessoas”;
  5. observar quem não aparece nas conversas que costumamos frequentar.

E há uma pergunta especialmente útil:

“Como eu sei que isso é realmente comum?”

Às vezes teremos bons dados.

Às vezes perceberemos que nossa amostra era formada por seis amigos, três colegas e um feed muito obediente.

O óbvio também pode ser local

Nossas opiniões não surgem do nada.

Elas são construídas dentro de experiências, grupos e ambientes que ajudam a definir aquilo que parece razoável, comum ou evidente.

O falso consenso começa a importar quando esquecemos essa parte e transformamos:

“as pessoas ao meu redor pensam assim”

em:

“as pessoas pensam assim.”

A diferença parece pequena.

Às vezes, nela cabe quase todo mundo que ficou de fora da nossa amostra.


Se conhece alguém que costuma começar uma frase com “todo mundo sabe que…”, compartilhe este texto. Talvez valha descobrir quem exatamente entrou nessa multidão.


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