Déjà-vus do cinema: remake, reboot, spin-off e outras formas de continuar uma história

Alguns filmes refazem uma história. Outros reiniciam a cronologia, voltam ao passado ou entregam o protagonismo a um personagem secundário. Os nomes parecem semelhantes, mas cada estratégia estabelece uma relação diferente com a obra anterior.


Como o mercado classifica as continuações

É comum olhar para um lançamento e sentir que aquela história já passou pelo cinema antes.

Às vezes, passou mesmo. O filme pode repetir uma narrativa conhecida, continuar acontecimentos anteriores ou reapresentar uma franquia para outro público.

Em outros casos, aproveita apenas um personagem ou uma parte do universo original.

Remake, reboot, sequel, prequel e spin-off não são nomes diferentes para a mesma coisa.

Cada termo indica o que a nova produção preserva, descarta ou acrescenta.

Remake: a história é refeita

O remake conta novamente uma história que já foi filmada.

A nova versão costuma preservar personagens, conflitos e acontecimentos centrais, embora possa atualizar o período, o cenário, o elenco ou o estilo de direção.

Além da Morte, de 2017, refaz o filme lançado em 1990.

Pôster de Além da Morte, de 2017, com os rostos dos personagens em uma montagem azulada, efeito de falha digital e uma linha de eletrocardiograma.
A versão de 2017 refaz a história de estudantes de medicina que provocam paradas cardíacas controladas para investigar experiências próximas da morte.

Nas duas versões, estudantes de medicina provocam interrupções controladas das próprias funções vitais para investigar o que existe depois da morte.

O ponto de partida permanece, mas a refilmagem altera personagens e atualiza a maneira como o experimento é apresentado.

Nem todo filme baseado na mesma obra literária é, necessariamente, remake de outro.

As diversas versões de Frankenstein, por exemplo, retornam ao romance de Mary Shelley e também dialogam com imagens criadas por adaptações anteriores.

Ainda assim, muitas delas são melhor compreendidas como novas adaptações do livro, e não como simples refilmagens.

Essa diferença aparece em Frankenstein na tela: 4 adaptações que reinventaram o monstro.

Reboot: a cronologia recomeça

O reboot reinicia uma franquia.

Personagens e ideias conhecidas permanecem, mas a nova produção deixa de obedecer à cronologia anterior.

Isso permite reconstruir origens, alterar relações e apresentar aquele universo a quem não acompanhou os filmes antigos.

Planeta dos Macacos: A Origem, de 2011, retomou a premissa da franquia a partir de outra continuidade.

Pôster de Planeta dos Macacos: A Origem, com o rosto de César em destaque, um casal à frente e a ponte Golden Gate ao fundo.
Planeta dos Macacos: A Origem reinicia a franquia ao construir uma nova trajetória para César e para o conflito entre humanos e símios.

Em vez de continuar diretamente os filmes anteriores, começou uma nova trajetória para César e para o conflito entre humanos e símios.

A diferença básica pode ser resumida assim:

O remake refaz uma história específica. O reboot reinicia um universo.

Um reboot pode até reutilizar acontecimentos conhecidos, mas sua função principal é estabelecer uma novo início.

Sequel: a história avança

A sequência — ou sequel — continua os acontecimentos de uma obra anterior.

Ela pode retomar imediatamente o final do primeiro filme ou acompanhar os personagens muitos anos depois. O importante é que a cronologia permanece válida.

De Volta para o Futuro II e III continuam a aventura iniciada em 1985.

Montagem com os pôsteres de De Volta para o Futuro II e De Volta para o Futuro III, com o DeLorean e os personagens principais em destaque.
Os dois filmes continuam a aventura de Marty e Doc, ampliando as viagens temporais sem abandonar a cronologia iniciada no primeiro longa.

Os filmes ampliam as viagens temporais, mostram outras épocas e exploram as consequências das intervenções de Marty e Doc, sem apagar o que havia acontecido.

Uma sequel não precisa repetir a estrutura do original.

Ela pode mudar o protagonista, o cenário e até o gênero predominante, desde que ainda trate o primeiro filme como parte de sua história.

Prequel: a narrativa volta no tempo

A prequela — ou prequel — é produzida depois, mas se passa antes de uma obra já conhecida.

Ela pode explicar a origem de um personagem, mostrar como determinado conflito começou ou preencher lacunas deixadas pela narrativa anterior.

Prometheus, lançado décadas depois de Alien, recua na cronologia para investigar questões relacionadas à origem dos seres humanos e às criaturas associadas à franquia.

Pôster de Prometheus, com uma exploradora usando traje espacial e iluminando uma enorme cabeça de pedra em um ambiente cavernoso e escuro.
Prometheus retorna a um período anterior aos acontecimentos de Alien para explorar as origens da humanidade e das criaturas ligadas à franquia.

Embora amplie o universo em outra direção, sua história acontece antes dos eventos do filme de 1979.

Ama prequel corre um risco particular: o público já conhece parte do destino daquela história.

O interesse, portanto, precisa estar menos em descobrir o que acontecerá e mais em compreender como aquilo aconteceu.

Spin-off: o foco muda de lugar

O spin-off nasce de uma obra anterior, mas desloca a atenção para outro personagem, grupo ou parte daquele universo.

Furiosa: Uma Saga Mad Max retira Furiosa da posição que ocupava em Estrada da Fúria e transforma sua trajetória no centro da narrativa.

Pôster de Furiosa: Uma Saga Mad Max, com Furiosa em primeiro plano, cercada por personagens, veículos e explosões em uma paisagem desértica.
Furiosa coloca a personagem no centro da história e apresenta acontecimentos anteriores ao seu encontro com Max em Estrada da Fúria.

O filme também funciona como uma prequel, pois apresenta acontecimentos anteriores ao encontro da personagem com Max.

Esse exemplo mostra que os termos podem se sobrepor.

Um filme pode ser ao mesmo tempo:

  • um spin-off, porque muda o protagonismo;
  • uma prequel, porque volta na cronologia.

As classificações indicam funções diferentes, e não gavetas completamente separadas.

E quando personagens antigos voltam?

Algumas continuações são lançadas muitos anos depois do filme original e combinam personagens veteranos com uma nova geração.

Esse formato costuma ser chamado de sequência de legado — ou legacy sequel. Ele preserva a continuidade, recupera rostos conhecidos e, ao mesmo tempo, prepara novos protagonistas para assumir a franquia.

Há também o soft reboot, que modifica parte do universo sem apagar tudo. Certos acontecimentos continuam válidos, enquanto outros são ignorados ou reorganizados.

Esses rótulos ajudam, mas também revelam como as franquias ficaram mais complexas. Cronologias são retomadas, descartadas, divididas e corrigidas conforme novos filmes chegam.

Adaptação também é remake?

Não obrigatoriamente.

Uma adaptação transforma uma obra de outra linguagem — como romance, conto, quadrinho ou jogo — em filme. Já o remake parte de um filme anterior.

Duas produções podem adaptar o mesmo livro sem que a segunda seja uma refilmagem direta da primeira.

O Frankenstein de Guillermo del Toro, por exemplo, conversa com Mary Shelley, com adaptações anteriores e com temas presentes na filmografia do próprio diretor.

Reduzi-lo a remake apagaria justamente a maneira particular como ele reorganiza a história.

Essa interpretação está em Frankenstein, de Guillermo del Toro: o criador, a criatura e o abandono.

A comparação entre linguagens também é desenvolvida em Frankenstein e o peso das expectativas.

Por que o cinema retorna tanto às mesmas histórias?

Histórias conhecidas reduzem parte da incerteza comercial. Um título reconhecível já possui personagens, imagens e público acumulados ao longo do tempo.

Mas esse retorno não produz necessariamente o mesmo resultado.

Uma nova versão pode apenas repetir o que já funcionou. Também pode alterar o ponto de vista, corrigir limitações tecnológicas anteriores ou revelar algo que a primeira produção deixou de explorar.

Por isso, reconhecer o rótulo é apenas o começo.

Depois de descobrir se estamos diante de remake, reboot, sequel, prequel ou spin-off, ainda resta a questão mais importante: o novo filme encontrou uma razão para voltar àquela história?


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