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Desmotivação pode aparecer como silêncio, ausência, procrastinação ou um simples “não estou nem aí”. Antes de concluir que falta disciplina, vale investigar uma combinação menos óbvia: expectativa de sucesso, valor da tarefa, custo percebido, contexto e experiências anteriores.
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Série: O ofício de ensinar
Por que o aluno parece não querer aprender?
Há frases clássicas na sala dos professores: “ele não quer nada”, “essa turma não tem interesse”, “se se esforçasse, aprenderia”.
Às vezes existe, sim, pouco esforço. Mas parar aí é um diagnóstico pobre.
Um estudante pode estar diante de uma tarefa que considera inútil, acreditar que não vai dar conta, carregar experiências anteriores de fracasso ou achar o esforço exigido grande demais.
Por isso, a pergunta mais útil talvez seja “o que está dificultando o envolvimento dele com esta aprendizagem?”.
O que determina a motivação do aluno?
Uma referência importante é a Teoria Expectativa-Valor, de Jacquelynne Eccles, Allan Wigfield e colaboradores.
Na formulação mais recente, a motivação é situada: varia conforme a tarefa, o contexto e as experiências anteriores. Ela cabe em três perguntas.
1. Eu consigo fazer isso?
É a expectativa de sucesso.
Um aluno que acredita não ter chance de entender um conteúdo pode desistir antes de tentar.
Não necessariamente por incapacidade: talvez tenha aprendido, com o tempo, que aquele terreno “não é para ele”.
2. Isso vale alguma coisa para mim?
É o valor da tarefa.
Um conteúdo pode valer porque será útil na profissão, desperta interesse, ajuda a entender outro assunto ou se liga a objetivos pessoais.
Nem tudo responde de imediato ao “onde vou usar isso?” – alguns conhecimentos revelam seu valor só depois que começamos a compreendê-los.
3. Quanto isso vai me custar?
Tempo, esforço, dificuldade e frustração entram na conta.
Uma tarefa pode parecer importante e, ainda assim, cara demais – sobretudo para quem já vem calibrando mal o tamanho do desafio, tema que o uso da dificuldade certa na aprendizagem ajuda a enxergar.
Desmotivação é causa ou sintoma?
Olhar para um estudante parado não revela a causa. Comportamentos parecidos podem ter origens diferentes.
O aluno pode não ter compreendido a base do conteúdo, achá-lo fácil demais, achá-lo difícil demais, não perceber seu objetivo, ter acumulado fracassos, estar preocupado com outras demandas ou simplesmente não ter se preparado.
Ou seja: desmotivação descreve melhor o que vemos do que explica por que aquilo acontece. E problemas diferentes pedem respostas diferentes.
Até onde vai a influência do professor?
Seria injusto concluir que, se o aluno está desmotivado, o professor falhou.
Motivação depende de muitos fatores. Mas o professor tem influência real sobre o que acontece dentro da situação de ensino.
Revisando a Teoria da Autodeterminação, Sueli Guimarães e Evely Boruchovitch mostram que o estilo do professor pesa: quem apoia a autonomia do estudante – em vez de um estilo controlador – favorece a motivação intrínseca de quem aprende.
O artigo delas sobre estilo motivacional do professor e motivação dos estudantes desenvolve esse ponto.
Apoiar a autonomia, porém, não é largar o aluno sozinho. Estrutura também importa.
O estudante precisa saber o que deve aprender, o que se espera dele, por onde começar, como perceber se está avançando e onde pedir ajuda – e, quando possível, ter algum espaço de decisão.
Como diagnosticar a desmotivação da turma?
Antes de dizer “eles não têm interesse”, um pequeno diagnóstico rende mais que uma bronca:
- O objetivo está claro? O aluno sabe o que deve aprender ou recebeu só uma tarefa?
- Há conhecimento prévio suficiente? Às vezes o conteúdo parece impossível porque falta uma peça anterior.
- A dificuldade está calibrada? Fácil demais gera pouco desafio; difícil demais gera desistência.
- Há sentido perceptível? O aluno entende por que aquele conteúdo está no percurso?
- Existe feedback? Se ele só descobre que ia mal quando chega a nota, caminhou tempo demais no escuro – um ponto que a avaliação como parte do ensino desenvolve.
- O problema é só nesta disciplina? Se a desconexão aparece em vários contextos, a explicação talvez ultrapasse o que um professor resolve sozinho.
Aula precisa ser divertida para o aluno aprender?
Diante do desinteresse, surge rápido a receita: “deixe a aula mais atrativa”. Pode ajudar.
Mas interesse não é o mesmo que diversão. Uma atividade intelectualmente interessante pode exigir concentração, repetição e esforço; um problema difícil pode frustrar antes de dar satisfação.
Por isso, tentar competir o tempo todo com o entretenimento é uma estratégia ruim – assunto do terceiro texto desta série.
A motivação vem antes ou depois de aprender?
Há uma armadilha na ideia de que primeiro é preciso motivar e só depois ensinar. Nem sempre a ordem é essa.
Um aluno acredita que não consegue; recebe uma explicação diferente; resolve a primeira parte, depois outra; percebe que avançou.
Aqui, a própria aprendizagem modifica a motivação.
Às vezes o estudante passa a acreditar que consegue justamente depois de conseguir.
O que fazer com um aluno desmotivado?
Não existe técnica que acenda a motivação como quem liga uma lâmpada. Mas algumas perguntas ajudam:
- Ele acredita que consegue aprender?
- Entende o que está sendo pedido?
- Percebe algum valor naquilo?
- A dificuldade está calibrada?
- Tem conhecimentos prévios suficientes?
- Recebe feedback sobre o progresso?
- A desmotivação é daquela situação ou aparece em toda parte?
Elas não garantem um aluno entusiasmado, mas produzem algo melhor que um rótulo.
A desmotivação pode envolver responsabilidade pessoal, ensino, currículo, avaliação, experiências anteriores e circunstâncias externas – e quase sempre vale desconfiar das explicações que apontam um único culpado.
Nem todo olhar perdido é uma crise pedagógica.
Próximo texto da série:
Professores não são coaches: qual é o papel do professor na motivação dos alunos?
Se conhece alguém às voltas com uma turma desmotivada, compartilhe. Antes de procurar uma fórmula para motivar, às vezes vale melhorar o diagnóstico.