A tecnologia reduz o trabalho ou apenas muda o tipo de esforço?

Da roda à inteligência artificial, boa parte da história da tecnologia pode ser contada como uma tentativa de fazer mais com menos esforço. Em muitos casos, conseguimos. O ponto mais interessante aparece depois: o que acontece com o esforço que desaparece de uma tarefa?


O esforço que a máquina levou embora

Imagine transportar cem quilos por alguns quilômetros.

Carregar nas costas exige determinado esforço. Colocar a carga sobre rodas muda radicalmente a situação. Um motor altera ainda mais.

Nesse caso, não há grande mistério: a tecnologia reduziu esforço físico.

Guindastes, tratores, motores, elevadores e equipamentos industriais retiraram seres humanos de inúmeras atividades pesadas, repetitivas e perigosas.

Seria estranho romantizar um mundo sem essas máquinas.

Como vimos em O que é tecnologia, porém, uma ferramenta raramente altera apenas a tarefa que executa. Ela também modifica habilidades, funções, rotinas e relações entre pessoas.

O trator reduz o esforço de arar a terra, mas junto com ele aparecem operação, combustível, manutenção, financiamento e conhecimento técnico.

Isso não faz do trator uma má ideia.

Apenas mostra que reduzir uma forma de esforço não significa eliminar todo o esforço envolvido.

Quando fazer menos permite fazer mais

Um computador realiza em segundos cálculos que consumiriam horas.

Então ganhamos horas?

Às vezes.

Em outros casos, o ganho permite aumentar a quantidade de trabalho realizada no mesmo período.

A planilha eletrônica tornou dezenas de operações mais rápidas. As organizações, porém, não concluíram que já havia planilhas suficientes para aquela semana.

A capacidade de produzir mais informação tornou possível:

  • acompanhar mais indicadores;
  • atualizar dados com maior frequência;
  • produzir mais relatórios;
  • cobrar resultados em intervalos menores.

Um estudo do Joint Research Centre da Comissão Europeia encontrou justamente essa tensão: em determinadas situações, a automação aparece associada a maior intensidade de trabalho, especialmente quando entram em cena velocidade e prazos apertados.

A tecnologia aumenta a capacidade de fazer.

O que acontece depois depende muito de como o trabalho é organizado.

Parte do trabalho também pode mudar de mãos

Lembra de quando era necessário falar com um funcionário do banco para realizar várias operações simples?

Hoje abrimos o aplicativo.

É mais rápido, funciona de madrugada e evita deslocamento e fila. Mas uma parte do trabalho que antes era feita por alguém no banco passou a ser realizada pelo próprio cliente.

O mesmo ocorre em:

  • caixas de autoatendimento;
  • check-in de aeroportos;
  • compras on-line;
  • montagem de produtos;
  • serviços digitais em geral.

Esse deslocamento costuma ser discutido pelo conceito de shadow work: tarefas antes realizadas por trabalhadores passam a ser executadas pelo próprio consumidor, sem remuneração direta.

Em cada operação, o esforço parece pequeno. Alguns minutos para fazer uma transferência, emitir um comprovante, preencher um cadastro ou concluir um check-in.

O ponto é que a conveniência não elimina o trabalho; apenas muda quem o realiza.

Ainda assim, essa mudança pode ser vantajosa. Fazer uma transferência às duas da manhã, sem depender do horário de uma agência, é claramente mais prático.

A tecnologia, nesse caso, reduz uma dificuldade, mas transfere outra parte da tarefa para o usuário.

O computador tirou peso dos braços e colocou decisões na cabeça

Grande parte do esforço contemporâneo não envolve empurrar, levantar ou carregar.

Envolve decidir, selecionar, responder, conferir, lembrar, alternar e prestar atenção.

Um estudo com 3.180 trabalhadores alemães encontrou uma distinção importante: simplesmente utilizar tecnologias de informação e comunicação não estava associado, por si só, aos piores resultados.

O problema aparecia quando surgia a intensificação digital do trabalho, com maior pressão e exigência.

Isso ajuda a evitar duas conclusões fáceis:

  • computadores não estão necessariamente nos esgotando;
  • computadores também não tornam automaticamente o trabalho mais leve.

Tudo depende do trabalho construído ao redor deles.

Essa transformação também conversa com A Tecnologia e o Tempo Humano. Quando uma ferramenta permite executar algo mais rapidamente, o tempo economizado pode virar descanso.

Ou pode receber outra tarefa.

A inteligência artificial levou isso ao trabalho cognitivo

A IA generativa consegue resumir documentos, escrever mensagens, organizar informações, produzir imagens, sugerir códigos e elaborar versões preliminares de inúmeras tarefas baseadas em linguagem.

Há ganho real nisso.

Uma pesquisa internacional com mais de 9 mil trabalhadores, conduzida por pesquisadores do MIT, encontrou mais trabalhadores percebendo possíveis benefícios da automação para conforto, segurança, remuneração e autonomia do que prejuízos nesses aspectos.

O relatório Automation from the Worker’s Perspective é um bom lembrete de que tecnologia não é percebida apenas como ameaça.

Mas automatizar uma etapa não elimina necessariamente as demais.

Se a IA:

  • produz cinco alternativas, alguém escolhe;
  • resume um relatório, alguém decide se confia no resumo;
  • escreve uma análise, alguém responde pelo uso que será feito dela.

O esforço de produzir pode diminuir enquanto crescem supervisão, seleção e responsabilidade.

Foi justamente uma dessas mudanças que apareceu no texto sobre fadiga de IA: ferramentas criadas para economizar esforço cognitivo também podem acrescentar revisão, acompanhamento e adaptação constante.

Então a tecnologia reduz esforço?

Sim.

Seria difícil contar a história humana dizendo o contrário.

O que não podemos presumir é que cada esforço eliminado de uma atividade se transforma automaticamente em descanso.

Por isso, esse esforço pode:

  • desaparecer;
  • permitir que se produza mais;
  • virar outra tarefa;
  • ser transferido para outra pessoa;
  • sair do corpo e migrar para a atenção;
  • passar da execução para a supervisão.

Talvez seja por isso que tecnologias cada vez mais eficientes convivam tão bem com pessoas que continuam ocupadas.

Inventamos máquinas extraordinárias para fazer o trabalho com menos esforço. Porém, também somos muito eficientes em encontrar novas coisas para fazer com o esforço que elas economizam.


Se você economizou cinco minutos com uma tecnologia e gastou dez aprendendo a usá-la, compartilhe este texto. Talvez alguém descubra que nem todo esforço desaparece; às vezes ele só muda de endereço.


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