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Uma mulher acorda sem memória e é perseguida enquanto estranhos filmam com o celular. Em White Bear, Black Mirror guarda para o fim uma das viradas mais perturbadoras da série.
White Bear (Urso Branco) é o segundo episódio da segunda temporada de Black Mirror, exibido em 2013. Escrito por Charlie Brooker e dirigido por Carl Tibbetts, tem Lenora Crichlow no papel principal.
É um episódio que depende da virada final. Daqui em diante, o texto conta tudo.
Do que se trata White Bear?
Uma mulher acorda numa casa sem saber quem é. As telas mostram um símbolo estranho. Na rua, as pessoas não respondem aos pedidos de ajuda: levantam o celular e filmam.
Logo aparece um homem mascarado, armado, que tenta matá-la. Ela encontra Jem, uma jovem que explica o que aconteceu. Um sinal transmitido pelas telas teria dividido as pessoas em grupos:
- os espectadores, que só observam e filmam, sem reagir;
- os caçadores, que perseguem e atacam quem não foi afetado;
- os poucos que restaram, como Jem e a própria mulher, tentando sobreviver.
Jem tem um plano: destruir o transmissor do sinal, num lugar chamado White Bear.
Durante quase todo o episódio, quem assiste está do lado dela. A câmera acompanha o medo da protagonista, e os espectadores de celular na mão parecem monstros.
O que é o parque White Bear?
Quando as duas chegam ao transmissor, a mulher pega uma espingarda e atira. Da arma sai confete. As paredes se abrem, e aparece uma plateia sentada, aplaudindo.
Tudo era encenação. Jem é atriz, o caçador também, e o homem que conduz o espetáculo é o mestre de cerimônias de um parque de punição. A plateia ri, aplaude e vaia. Para eles, aquilo é um passeio.
A mulher se chama Victoria. Anos antes, ela e o noivo sequestraram e mataram uma criança, e Victoria filmou o crime com o celular. O noivo morreu antes do julgamento. Victoria foi condenada a reviver aquele dia de perseguição, todos os dias, diante de visitantes. O parque leva o nome do ursinho de pelúcia da vítima.
Repare na simetria cruel. Victoria filmou o sofrimento de uma criança. Agora, o público filma o dela. O choque é duplo: a protagonista que o público defendeu por meia hora fez algo terrível, e a punição dela também é terrível.
Por que as pessoas só filmam?
Brooker contou ao Channel 4 de onde veio a ideia: ele vinha notando como as pessoas filmavam tudo pelo celular, protestos, tumultos, cenas violentas, em vez de intervir. A imagem parecia saída de um filme de zumbis.
A psicologia estuda um fenômeno parecido: quanto mais gente presencia uma situação, menor a chance de alguém agir, porque cada pessoa sente menos responsabilidade individual. É o efeito espectador. Para quem está ali, o resultado é uma multidão que vê tudo e não faz nada.
E aqui vale prestar atenção no que o episódio acrescenta. Em White Bear, os espectadores pagam para estar ali. A passividade virou ingresso. No parque, a omissão é regra: os visitantes recebem instruções para filmar e não ajudar.
Como termina White Bear?
No fim do dia, Victoria é presa a uma cadeira, e um aparelho apaga a memória dela. Nos créditos, o episódio mostra o dia seguinte do ponto de vista dos funcionários e dos visitantes, que recebem instruções antes de assumir o papel de espectadores. Tudo segue um roteiro de parque temático, com posições marcadas e hora para começar. Victoria acorda de novo, sem lembrar de nada, e tudo recomeça.
O final deixa perguntas difíceis:
- Ainda é justiça? Victoria não lembra do crime, então revive o castigo sem saber por que está sendo castigada.
- A quem serve a pena? O parque funciona como atração turística, e o sofrimento dela virou negócio.
- E quem assiste em casa? O público do episódio também passou quase uma hora vendo uma mulher ser perseguida.
A punição como espetáculo é coisa do passado?
Durante séculos, as punições eram públicas, em praças cheias. O filósofo Michel Foucault abre o livro Vigiar e Punir com a execução de um condenado em Paris, em 1757, e mostra como, depois disso, o castigo foi saindo da praça para dentro da prisão, longe dos olhos, como resume um artigo da revista da EMERJ.
Foucault também observou que as execuções públicas podiam se voltar contra o próprio poder, quando a multidão começava a se identificar com o condenado. Em White Bear, essa identificação nunca acontece: a plateia está sempre do lado do castigo.
White Bear imagina o caminho de volta: o castigo devolvido ao público, agora como entretenimento, com ingresso e roteiro. A pergunta que fica recai menos sobre o que Victoria merece e mais sobre quem se diverte assistindo.
É o caso mais perturbador de um tema que a série visita várias vezes, reunido no texto sobre punição e espetáculo em Black Mirror. Os demais temas estão na página sobre Black Mirror.
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